segunda-feira, 7 de julho de 2014

Da nomenclatura zoológica

    
      
65 – 66 – 67 – 68  ///  57 – 58 – 59 – 60   ///   13 –14 – 15 – 16


Em seu tempo primordial, Adão fez perfilar “os animais paramentados e a cada um deu um nome de batismo”, nomes bonitos, gratas sonoridades nem sempre suaves, laguasca, jaratataca, lombriga, cágado, ornitorrinco, mafagafos em seus ninhos, com dezesseis mafagafinhos. Desde então um atende por gafanhoto, por vulcchereria bancroft outro, e também vêm bem-te-vi e libélula, tiranossauro rex, abelha-rainha, coelho, lépido e pequeno, grandes orelhas, hipopótamo, pesado, enorme, orelhas curtinhas, e assim por diante.
Aí vem o barão Viana Drummond e inventa o joguinho. Águia, galo, cavalo, cabra e cobra,  avestruz de passo ligeiro e pavão de fulgente esplendor ganham números, em dezenas, centenas e milhares, e prestígio e presença nos sonhos dos humildes. 

Luiz Gonzaga disse em canção conhecida, aquela do chofer de praça: “Para batizado, tenho um terno branco, // para casamento tenho um terno azul”. Um terno de macaco, jacaré e borboleta e até mesmo um estudante pobre, pobre de marrais, marrais, pode celebrar um glorioso fim de semana com a namorada em Ouro Preto, “tempranillo” da Rioja, queijos de boa índole, bambá de couve num fim de noite em Mariana e, na friagem nivosa de Lavras Novas, aconchego de iglu na pousada lá no alto, onde a montanha se eleva até quase encostar na Lua; uma ou duas taças de espumante para enlevo dos espíritos apaziguados, muito mesmo a calhar.

De repente, o quase milagre: não mais mera ausência, sombras, abstração, prosaicas criaturas ganham sentido, substância, as cores e, principalmente, os nomes que têm, e viram objeto de ternura e cuidado: Ararinha azul, tartarugas marinhas, baleia jubarte, mico-leão dourado....  Vêm à baila, à tona, aos holofotes, de mansinho, aos poucos, nas asas de nossa nostalgia. Nostalgia da mais gentil das aves, o dodô, a mais indefesa, que um dia caminhou a passo desengonçado pelas praias dos Galápagos; da pomba avoante, de  movimentadas estações de choca no Sertão nordestino; dos pigmeus da Tasmânia, caçados, esportivamente, em sua ilha paradisíaca até que fosse abatido o último de sua estirpe amável; e nostalgia de todas as espécies animais e vegetais que se foram para sempre, até dos dinossauros, ou que estão indo agora, antecipando nosso deserto.  

Leão, Escorpião, Caranguejo, o Capricórnio de agudas aspas, Áries de cenho pensativo, Peixes silenciosos.  Estes há muito esplendem as noites do Mundo e, cada um em seu momento, cruza o céu constelado carregando enigmas do Tempo, perplexidades e presságios, um ou outro aterrador. Digam, porém, o que digam, o que passou, passou.  Eles acolhem, com benignidade, suspiros, arrepios e outras prendas do Amor que, de outro modo, haveriam de dissolver-se ao clarão esmaecido do lânguido Minguante. Por toda a extensão zodiacal, esparrama-se o Touro, que a atravessa de cabo a rabo, enquanto chispas azuis desprendem-se de seu olhar quase terno.

– Aldebarã, Aldebarã!

(NM)



domingo, 1 de junho de 2014

“O Vestido”, arte, emoção e liberdade

Blogueiro não é crítico de espetáculos, senão, há muito, teria destilado sua emoção, considerando que a apresentação do solo “O Vestido”, no Teatro Klauss Vianna (Oi Futuro), em BH, aconteceu não neste final de semana, mas no anterior (23, 24 e 25 de maio). Aconteceu? Isso mesmo, porque foi um tremendo happening. Baixada a adrenalina, já pode dizer que Terpsícore e Calíope, assim como Isadora Duncan e Pina Bausch, de algum modo, estavam no palco do Klauss Vianna, invocadas – quem sabe? – pela coreógrafa, bailarina e atriz Rosa Antuña.

E Denise Stoklos? Houvesse comparecido, provavelmente teria aplaudido com o mesmo entusiasmo da plateia em cada uma daquelas três noites, deixando-se levar pela emoção que artes, artes de Rosa Antuña, por supuesto, sublimam e materializam no palco, incorporando ora fragor de muitas águas, ora o suave descair do rocio na hora da Estrela da Manhã.

“O Vestido” é uma alegoria da condição da mulher universal, de todos os lugares, de todas as idades, de todas as épocas, feita de pura emoção. No cerne do “argumento”, a ideia de que o importante é que, uma vez vestido o seu vestido, uma mulher pode voar, voar, nas asas de seus sonhos mais altos de liberdade, acima de quaisquer tiranias e de todas as formas de opressão.

Parece simples, até banal, mas a emoção está na forma de expressar tais banalidades e simplezas na linguagem dos gestos, do movimento, na sintaxe do corpo. A palavra, apanágio sutil do homem, o mais sublime, é meramente incidental no “texto” e no contexto de “O Vestido”. Chega como um balbucio entrecortado ou num idioma estranho, desconhecido. E, no entanto, cada um pode senti-la como se ouvisse na língua de sua infância. São variações de tons e inflexões que explicitam todas as significações necessárias em um discurso impronunciado, mas complexo e arrebatador.

Com gestos, passos e movimentos harmoniosos assimilados no ballet clássico, na dança de salão e na dança contemporânea, Rosa despetala suas delicadas intuições de artista; das bailaoras andaluzas, a dança das mãos, que lhe permite dizer coisas importantes ou triviais, de um jeito sempre bonito, aos homens de nossa terra insólita ou aos deuses que, desatentos, nos assistem desde o céu constelado.

“O Vestido” não é espetáculo que se materialize assim, sem mais, só no plano da arte. Requer comprometimento de iniciado que possa mover-se na dimensão do inefável, aquela em que uma mulher que tenha vestido o seu vestido sobrepõe-se à banalidade da Morte. Um tiro no peito? Não é nada. Na hora de ir-se embora, abertas as asas do espírito, é voar e voar.

(NM)
As fotos são de Duda Las Casas (A) e Marco Aurélio Prates (B) 

sábado, 26 de abril de 2014

Noite quase barroca

"!!!Oh bella Galatea,
mas süave que los claveles que tronchó la Aurora; (...)”

Don Luis de Góngora  (Canto de Polifemo)



...quanta lua, meu amor, enluarando suas varandas; perfumando a noite clara, quanto jasmim! E, no entanto, pesa-me o recolhimento da murta, branca ausência em seu jardim florido; no escuro verdor da folhagem espessa, ainda guarda brando manacá as essências misteriosas que exalam o branco e o violeta quando, de mansinho, vem o rocio beijar-lhe as pétalas, o que sempre deixa você com excelente disposição. Branda Lua afaga a branca açucena, a açucena uns olhos brandos, de ametista muito escura.

Mal se percebe, tão quietas, o murmúrio das estrelas, a noite esplende no silêncio cavo do nosso Planeta, nas sombras, farfalham asas, mariposas, invejosas de impudicos pirilampos a alardear núpcias cintilando graciosos arabescos em coruscante voejar rente à grama úmida.

Quanta lua, meu amor, enluarando suas varandas, a alta mansão, altas janelas, os beirais altos...  Em adormecidos ninhos, o crepuscular azul das plumas, um piripipi sutil, quase-gorjeio, andorinhas, ligeiras na hora de ir embora, esperando a Aurora para a celebração de mais um dia.

– Pra quê tanto gerúndio, tanto hipérbato, sinédoques, aliterações, essas hipérboles todas? Até quiasmos! Anáforas? E quanto afã de cores vivas, adjetivos demais! Tudo bem, amor, mas chega de palavras. (NM)


sexta-feira, 4 de abril de 2014

Santa Tereza, tanto bar, o viaduto...

Voltar a Santa Tereza é voltar a um ou outro bar. Há quem busque a Parada do Cardoso, na Rua Dores do Indaiá, no coração do Baixo Santê, ou o Bar do Orlando, bar de pescador, frequentado por vendedores, caixeiros, bancários, mas principalmente por aficionados da pesca e gente chegada a uma conversa fiada. O estabelecimento, que tem um procedimento secreto para colorir os ovos que serve aos fregueses e que, talvez, seja o único bar de Minas Gerais que também vende artigos de armarinho, é um tremendo mentideiro.

Se achas, porém, que é tempo de ir peregrino a Santê, a Caaba pode estar no Bar Temático, lá embaixo, perto do desativado mercado municipal. Umas mesas dentro, outras no passeio, o mesmo serviço, ótimo, garçons solícitos, mas do jeito antigo, sem frescura, sa´comé: cachaça boa, boa cerveja, costelinha de porco bem fritinha, torresmo de barriga, carne de sol com mandioca... Bom demais.

E uma peregrinação dessas, se for bem articulada, por transformar-se num conclave para grandes e irrelevantes deliberações, conforme soem ser os grandes conclaves, firmes na defesa de seus pontos de vista os cardeais Luiz Fernando e Rogério Perez, Wanderley Panther de Lima, Danilo Andrade, Ivan Drummond. Pontificam mais, pelo afeto e pelas presenças bonitas, Marina, Cristina, Vera...

Viaduto

Antes de um conclave desses, o blogueiro apresentou ao Panther, que não precisa ir a Santê, pelo simples fato de que ele é de lá, vive lá e, na medida do possível nunca sai de lá, uma questão crucial, de tão irrelevante. – Ô cara. Como é isso do viaduto que liga o Centro à Floresta ser conhecido e reconhecido como Viaduto de Santa Tereza?

– Simples, meu chapa. A linha do bonde, quando havia bonde, vinha do Centro e, passando pelo viaduto, alcançava o Bairro da Floresta, que atravessava, é óbvio, antes de entrar em Santa Teresa, onde continuava até o final da Rua Mármore. Então o viaduto é mesmo de Santa Tereza, até porque, o outro, o que cruza o ribeirão Arrudas um pouco mais a montante, é que é, por excelência, o “Viaduto da Floresta”.

A foto é dos anos 30, quando o Viaduto de Santa Teresa estava novinho e a harmoniosa simetria de seus arcos encantava mais na paisagem urbana de BH. Hoje, poucos podem associá-los ao jovem poeta Carlos Drummond de Andrade e à madrugada insólita em que ele caminhou sobre o da direita, caminhou de cabo a rabo, subindo passo a passo antes de descer, também passo a passo, do outro lado. Teria parado por um momento ao chegar ao ápice, estendendo os braços para o céu. É de se supor que, então, forças telúricas de Minas, poderosas, soltaram a corda misteriosa que mantinham tesa. As livradas tensões dispararam o poeta, flecha flamejante e viva, na direção das estrelas.

Todos os bares

Odilon, tão  paranaense quanto o poeta, mandou para O&B uma pequena joia de Paulo Leminski:

“pariso, novaiorquizo, moscoviteio
sem sair do bar
só não levanto e vou embora
porque há lugares que eu nem chego a Madagascar”

Daí ocorrer voltar aos bares, de Santa Teresa ou ao bar universal, que a Poesia e o cancioneiro abre para nós. Pelas notas misteriosas de “As time goes by” chega-se ao “Rick`s Café Américain”, na Casablanca dos tempos da Ocupação. Tomar uma tacinha de champanha, ouvir o Tango Delle Rose e ainda cantar com fervor a “Marsellaise”! De repente, vejam quem acaba de chegar: Ilsa Lund (Ingrid Bergman). Como ela está bonita!

Deste nosso lado do Atlântico, em referências explícitas ou em meras sugestões, o bar se distancia do âmbito alegre, quieto às vezes, às vezes ruidoso ou mesmo barulhento demais, mas sempre aberto à exposição de teses improváveis, a discussões sempre inconclusivas sobre futebol ou filosofia, para o qual afluem pessoas empenhadas em conversar fiado, rir, contar novidades, histórias, para espairecerem, enfim. Homens, e mulheres, carregam angústia, solidão, desesperança, saudades, o escambau. De vez em quando algum sentimento desses pode aflorar numa mesa de bar. Bar é bom, alegra o coração, mas, pra compaixão,  misericórdia, não é lugar. A percepção dos outros nunca corresponde à do sujeito que, por incontinência etílica, deixe vazar sua tristeza de bêbado, por mais única e exclusiva que lhe pareça. Quanto mais a situação se aproxima do trágico, mais ridícula, o que é realmente patético. Porém, ninguém liga e, ao fim e ao cabo nos bares da vida a vida continua.

É só a preferência dos poetas do cancioneiro que explica o bar impregnado de patético de tantas canções. Ari Barroso, por exemplo, em seu samba-bolero “Risque” (“meu nome do seu caderno”) entra no clima, mas trata de atenuá-lo: “Mas, se algum dia, talvez, a saudade apertar, // não se perturbe, afogue a saudade nos copos de um bar.” No tango de Herivelto a situação se desenfreia: “...deste bar alguém gritava com ironia, // entra mano, que o fulano vai pagar...”

Enquanto isso, na “cantina” de Lila Downs alguém implora à “teibolera”: “Cantame Tacha uma rancherita // porque el recuerdo me va a matar // cantame Tacha, de esas bonitas, // de esas que a un hombre // lo  hacen llorar...”

“Entre copa y copa se acaba mi vida, // llorando borracho su pérfido amor...” Aqui, o ressentimento do protagonista de uma canção de Felipe Valdés Leal também remete ao clima da “cantina” mexicana e ao patético universal.

A manchete que encerra a “Ronda” de Vanzolini é de incomparável radicalismo: “E nesse dia, então, vai dar na primeira edição // “Cena de sangue num bar // da Avenida São João”.

Em tocante paragoge, o grande Enrique Santos Discepolo se dirige ao “cafetin”, não como a um estabelecimento que sirva bebidas e “otras coistas”,  mas entidade sensível e plena de espírito: “Como olvidarte en esta queja, // cafetin de Buenos Aires, si sos lo único en La vida // que se pareció a mi vieja...” Quando era mais jovem, em outra composição, ofereceu o porre como alternativa ao suicídio: “Mirad, si no és pa suicidarse, // que por este cachivache, // sea lo que soy! // Esta noche me emboracho bien, // me mamo bien mamao // pa no pensar...”

“E às pessoas que eu detesto // diga sempre que eu não presto, // que meu lar é um botequim...” O Noel de “Último desejo”, que tangencia o patético, nem parece o mesmo daquela “Conversa de botequim”, em que remete à alegre descontração de um bar de verdade, estendendo-se em demandas, algumas bem esdrúxulas, ao garçom que, sem mais, toma de contraponto e ainda o esculhamba: “Se você ficar limpando a mesa // eu me levanto e não pago a despesa...”

A filha de um blogueiro ocioso, que, por esses dias de final de inverno por lá, andava, um tanto entediada, na friagem cinzenta e plácida de ruas da Jutlândia, em mensagem eletrônica queixava-se da pasmaceira do lugar. O quê dizer? Meu amigo Gregório Cisneros já advertira com autoridade: “Hay mas bares em la Calle Atocha de Madrid que en todo el reino de Dinamarca.”

Olha lá que Santê, nesse quesito, ganha fácil da Rua Atocha.

(NM)


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Todos os dias da Mulher (*)


As fadas e as bruxas das primeiras histórias, a voz mansa e afetuosa da avó; sempre jovens, sempre lindas, as professoras da primeira escola, inefável presença vida afora, no afeto e na memória; namoradas, namorada, a companheira, “mulher de amor” cujos braços, como na canção desesperada de Neruda, “me acogieron” quando “era la negra, negra soledad de las islas”, e as amigas de sempre, algumas que a gente nem sabe por onde andam.  

Mulheres, mulher, a mulher, assim, nominativamente ou num acusativo banal, abstração. E, no entanto, delas é o primado da fonte e o do riacho e o primado do mar. Sem mulher que se banhe nele, para quê o verdor calmo das brandas lagoas? Seu toque demiúrgico, materializador dá razão de ser às águas que escorrem com estrépito de altas montanhas, e substância e sentido aos vales, floridos ou de candentes lágrimas que, incidentalmente, cumpre-nos atravessar.

A aura misteriosa, o fascínio arrebatador, a irrecorrível vertigem, quanta prenda!  Mais o Sol, a Lua, as estrelas, os solstícios de Verão, os equinócios de Primavera!...  Assim, a noite, o dia, cada noite, cada dia, as horas, a Aurora, oh!  dourados amanheceres,  tardes radiantes ou mesmo uma ou outra que um Outono frio resolveu de repente envolver em névoa! E os crepúsculos, sobretudo aqueles profundamente azuis.

Oceânica, múltipla, protêica, qualquer mulher pode, quando quer, transformar, por exemplo, em alegre delfim o mais taciturno mergulhão. Feitiçaria, magia, sabe como é. Ou, simplesmente, ferir de ausência um marinheiro incauto, ferir tão fundo que, incontinênti, ele vira Robinson Crusoé. Mas sempre há um momento de embarcar e, sem cuidado demais, deixar-se levar ao sabor de suaves correntes e, panos ao vento, divagar, divagar em caravela de hipérbole, branca, branca, de papel crepom. (NM)


(*)  O grafite que ilustra a postagem foi “pirateado” do blogue “De Titanio e Porcelana”, de minha amiga Ana Ruiz, de Jerez de La Frontera, que o achou no sítio “Acción Poética” (Chile). Há instâncias que recusam a primazia feminina. Paciência, pois não têm a menor graça. O blogueiro, porém, sempre a reconheceu, como o grafiteiro, que desvela na parede o seu critério excelente.  

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Do tempo das coisas e dos homens

Ocioso e gratuito é dizer que o Eclesiastes é o texto mais citado, mencionado, referido, glosado, parafraseado etc. Mas essa é uma idéia que ocorre quando  a gente recebe algo como a “canzone meravigliosa” enviada pelo  ítalo-mineiro Fernando Fabbrini: “C`era un tempo”, de Ivano Fossati, a letra mais o enlace pra gente ouvir na voz do próprio autor.  “Tutto meraviglia”.

É uma cifra do Tempo, aquela história de um tempo pra plantar, um pra colher, um de chorar outro de rir, um tempo de edificar outro de destruir, por aí afora. Não dá pra gente saber se o tempo é o algoz do homem ou se, ao fim e ao cabo, o que o liberta, posto que, implacável, sobrepõe-se à vida e a todas as misérias da condição humana. Mas o autor do texto original, Eclasiastes, Pregador, ou Qohélet, na Tradição, deixou envolto em poéticas brumas apenas os tempos intermédios, muitas dúvidas. Seria o mesmo rei Salomão, filho de David, construtor do Templo, sábio amante da inefável Belquis, glória dos femininos reinos e, de todas as Abissínias, eternamente rainha.

No tálamo dourado do grande rei, ardor e langor da África, fulgentes tetas, o grato negror, tons e brilho da turmalina que, mesmo quando não excede em tamanho um grão miúdo de café, pode guardar muitos mistérios da noite. Brandas almofadas, tapetes da Babilônia, algodão do Egito; linho, lãs da Caxemira, seda de Samarcanda, muita seda...  E essências do Oriente, cravo, jasmim, mirra, incenso, benjoim...

Em tempo de triunfo assim, nem o filho de Davi haveria mesmo de acreditar no fim. Tempo de triunfo é só um átimo, um momento, um sopro, impossível, embora, de esquecer, e o rei Salomão, jamais, nunca esqueceu Belquis. “À égua do carro de Faraó te comparo, minha amada”, a lembrança dela tocando-lhe a pele e o espírito, feito a sombra da Águia do Destino que , capricho do Sol da África, vagueia sobre os vales crestados
enquanto, poderosa, a ave perscruta a glória, as agruras, vicissitudes, da Etiópia.

Mas o tempo é um, é dois, é três, feito as maçãs que um menino fanho vendia numa esquina do Centro de BH, ou de Bagdad, não me lembro, é múltiplo, vário, tempo a montante da ponte, a jusante do amanhecer, ao Sul das minas de Minas, ao Norte da Lua Nova, e além, muito além, da Grande Ursa e da Polar Estrela, Aldebarã mirando distraída, tempo de gafanhoto estrábico, do mico-leão dourado, da branca pomba indo embora, muita andorinha no céu.

E, no entanto, de mansinho, feito uma silenciosa mariposa, ou ex-abrupto, chega o tempo de morrer. Não liga não, pior é o tempo do espanto e o da desolação, o Tempo do Medo e da Tristeza, que a gente festeja enquanto não chega. Regozijemo-nos, rejubilemo-nos, abramos ao gáudio e à alegria as portas e janelas de nossas casas e a do coração e, como em antiga canção piedosa, “cantemos ao amor dos amores”, enquanto não se esgota “o tempo que sobre a Terra nos foi concedido” a que se refere Brecht no poema “Aos que virão depois de nós”.

E quando “A Última passar com seu facão”, é sorrir para ela,  acolhê-la como a anunciadora do Tempo do Esquecimento, deixar-se tocar pela lembrança de Belquis a assombrar o espírito feito assombra os vales e montes sabeus a sombra da Águia do Destino. E esquecer vinganças, remorsos, a roseira e os espinhos, as pedras do caminho, e até mesmo – Que pena! aqueles versos de Neruda, tão doídos, os de Dario, som de águas altas, cristalino fulgor...  E sorrir e deixar levar. (NM)

Agora, a  “canzone meravigliosa” que o Fabbrini mandou:

"C'era un tempo"

Ivano Fossati

Dicono che c'è un tempo per seminare
e uno che hai voglia ad aspettare
un tempo sognato che viene di notte
e un altro di giorno teso
come un lino a sventolare.

C'è un tempo negato e uno segreto
un tempo distante che è roba degli altri
un momento che era meglio partire
e quella volta che noi due era meglio parlarci.

C'è un tempo perfetto per fare silenzio
guardare il passaggio del sole d'estate
e saper raccontare ai nostri bambini quando
è l'ora muta delle fate.

C'è un giorno che ci siamo perduti
come smarrire un anello in un prato
e c'era tutto un programma futuro
che non abbiamo avverato.

È tempo che sfugge, niente paura
che prima o poi ci riprende
perché c'è tempo, c'è tempo c'è tempo, c'è tempo
per questo mare infinito di gente.

Dio, è proprio tanto che piove
e da un anno non torno
da mezz'ora sono qui arruffato
dentro una sala d'aspetto
di un tram che non viene
non essere gelosa di me
della mia vita
non essere gelosa di me
non essere mai gelosa di me.

C'è un tempo d'aspetto come dicevo
qualcosa di buono che verrà
un attimo fotografato, dipinto, segnato
e quello dopo perduto via
senza nemmeno voler sapere come sarebbe stata
la sua fotografia.

C'è un tempo bellissimo tutto sudato
una stagione ribelle
l'istante in cui scocca l'unica freccia
che arriva alla volta celeste
e trafigge le stelle
è un giorno che tutta la gente
si tende la mano
è il medesimo istante per tutti l'istante in cui scocca l'unica freccia
che arriva alla volta celeste
e trafigge le stelle
è un giorno che tutta la gente
si tende la mano
è il medesimo istante per tutti
che sarà benedetto, io credo
da molto lontano
è il tempo che è finalmente
o quando ci si capisce
un tempo in cui mi vedrai
accanto a te nuovamente
mano alla mano
che buffi saremo
se non ci avranno nemmeno
avvisato.

Dicono che c'è un tempo per seminare
e uno più lungo per aspettare
io dico che c'era un tempo sognato
che bisognava sognare.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Em Santa Tereza, cerveja

Dia desses, encontrei-me na fila de autógrafos do livro “Bandeiras de Minas”, dos jornalistas Airton Guimarães e Taquinho, com a também jornalista Eliza Peixoto, que não via há muitos anos. Pedi-lhe um endereço eletrônico que pudesse agregar à lista de contatos deste O&B, que ela passou-me protamente, com o do sítio “Santa Tereza Tem” (www.santaterezatem.com.br a que vem se dedicando com energia e sensibilidade. O sítio oferece história, histórias, tradição, arte, comércio, restaurantes, festejos, carnavalescos inclusive, tudo de bom, enfim, que a gente pode encontrar no velho e charmoso bairro  da região Leste de BH. E, assim, em águas virtuais navegar, navegar, navegar por Santé, nela passear.

Agora o seguinte: pra tomar uma cerveja e saborear ricos tira-gostos em bares como o “Temático”, por exemplo, o jeito é comparecer  pessoalmente. Para um blogueiro mais ou menos incrustado no burburinho da Savassi, se for em companhia, fidalga e sempre amiga, boa companhia, Luiz Fernando Perez, Perão,  Danilo Andrade, Ivan Drummond,  Wanderley Panther,  Cristina Crocco, da Tecris, Marina, gente do bairro ou aficionados irredutívels de Santé, é muito melhor.

(NM) 


A foto do “Temático” é do Toninho Almada

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Em frente à Biblioteca, Quatro Cavaleiros

Foi muito celebrada a passagem, em outubro, dos 90 anos de nascimento do escritor Fernando Sabino, autor do sempre celebrado “Encontro Marcado”. A badalação apenas tornou inevitável a foto dos “Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, Sabino, Otto Lara, Pellegrino e Paulo Mendes Campos, figurados em bronze em frente à Biblioteca Pública, em BH. É coisa recente, pois o grupo de estátuas esteve, antes, no pequeno jardim implantado no pátio da antiga Secretaria de Educação, dando acesso, sob o anexo da Biblioteca, da Rua da Bahia para a Praça da Liberdade. Sabino e Otto estão sentados num banco dos mais prosaicos, Pellegrino e Paulo Mendes Campos estão de pé.

Os quatro merecem o reconhecimento e a simpática homenagem, mas aquelas  estátuas  se salvam mais pela interação cordial entre elas, que acaba envolvendo os curiosos que se aproximem. Figuras assim, acadêmicas, podem parecer anacrônicas na cidade de Alfredo Ceschiatti. É o mesmo caso dos bronzes de Pedro Nava e Carlos Drummond na pracinha à sombra art-déco do velho Teatro Municipal, atualmente uma agência enorme do Bradesco. Como as Roberto Drummond e da poeta Henriqueta Lisboa, na Savassi, as estátuas sugerem reproduções de photoshop. É tudo muito bom, detalhadinho,  à vontade, natural, mas é no detalhe que resvalam no kitsch. Como no fox de Mário Lago / Orlando Silva, o livrinho que cada uma carrega “é demais para o meu coração”.

Parece que estamos diante de uma fórmula inspirada na estátua de Fernando Pessoa em frente à “Brasileira”, em Lisboa, monumento de passado um pouco mais pretérito. Como arte de estatuária, o busto do escritor  Bernardo Guimarães (Escrava Isaura, O Garimpeiro, O Elixir do Pajé,êpa! ) que também tem sua herma na Praça da Liberdade há mais tempo, é muito mais expressivo. As novas composições, porém, com livrinho e tudo, têm sua eficácia, sobretudo junto às crianças, talvez pela encenação algo naïf,  que lhes permite, e também a adultos de espírito mais lúdico, inventar brincadeiras e formas de interagir com as estátuas.
Em manhã clara de domingo, blogueiro ocioso se intruja na placidez nada apocalíptica dos insólitos cavaleiros, em sua presumível conversa fiada, mas não dá palpite, fica só assuntando. Uma garotinha que passava no momento da foto apontou com o dedo e perguntou à jovem mulher que lhe segurava a outra mão, “Mamãe, o quê que é isso?”.
Com essa indagação veio à lembrança o refrão do Caxangá, cantador e repentista que manteve, nos anos 70 e 80, programa de cantoria de muita audiência na Rádio Itatiaia, aqui mesmo e BH: “Eu vi um nêgo sentado // no bueiro da osina, //  de chapéu de panamá, de casaca e de botina. “ Não há “osina” nem bueiro, casaca e botina também não há, só um neguim sentado. E o chapéu de panamá.

Não é o caso ser rebarbativo. É bom lembrar e celebrar  nossos artistas e heróis. Heróis? Vamos tentar esquecer o Tiradentes de bronze do cruzamento das avenidas Brasil e Afonso Pena, que mais parece um Rasputin de filme “c”, a túnica horrorosa de condenado, crucifixo preso à cintura para consolar sua fé na hora patibular, as barbas enormes, aquela corda no pescoço de quem se dirige à forca devidamente equipado... Ao “artista” que realizou o monumento, ou a quem o encomendou, não ocorreu representar o herói da Inconfidência na gala de sua juventude de alferes, de preferência montado em cavalo bom. Optou-se pelo patético. Quê fazer?

Paulo Mendes Campos, a vida, a Parca, Alice

Uma vez o Roberto Drummond, que tinha na mais alta conta a literatura de Fernando Sabino, tentou convencer-me de que o “Encontro Marcado” era uma obra essencial, para ser lida por todo brasileiro alfabetizado. Foi numa noite, na redação de jornal em que ambos trabalhávamos. Ele me apresentou Geraldo Boi, o tipo bizarro que teria inspirado o protagonista de “O Grande Mentecapto”. A figura não me causou a menor impressão, e jamais li livro algum de Fernando Sabino.

Daqueles “Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, a memória afetiva de leitor só guardou registro de Paulo Mendes Campos, iluminado nas tertúlias dominicais do Tip Top por Carlos Alberto de Barros Santos, que teve trato e convívio com o grande cronista, e autoridade para, em mais de uma ocasião, falar com entusiasmo da sua arte de escrever, que  tangenciava as estrelas, de tão alta! Uma ou outra vez mencionou aspectos mais atribulados da vida do escritor,  a alma atormentada por demônios que jamais conseguiu exorcismar. Tão afetuoso e reverente era o tom dessas referências que todos os que pudemos desfrutá-las, de um modo ou de outro, nos deixávamos impregnar do mesmo afeto. Do Otto Lara, alguma pala dessas que, de vez em quando, alguém repete: “Mineiro só é solidário no câncer”; de Pellegrino, nada. Para a geração que veio “Caminhando contra o vento, // sem lenço e sem documento”, isso tudo estava distante demais.

Depois de um domingo dos domingos do Tip Top, Carlos Alberto mandou-me uma carta em que relatava o ultimo encontro que teve, aqui mesmo em BH, com Paulo Mendes Campos. Foi em agosto de 2008 e, então, O&B nem existia. Em 2010, já com o blogue na rede, perguntei-lhe se podia postá-la e ele aquiesceu, mas, com modéstia, disse tratar-se não de uma crônica sobre o cronista, mas de um bilhete para encaminhar-me a belíssima paráfrase que PMC fez de Lewis Carroll em “Para Maria da Graça”. E fez outra ressalva: “O Paulo foi descrito no texto na fase outonal da vida. Sempre foi amigo do copo, mas a amargura de que falo surgiu por volta da última década. Antes era alegre, botafoguense fanático, jogava futebol de praia e era um grande papo e companheiro de mesa...”
(NM)

A carta do Carlos Alberto

“Querido amigo,

O Paulo Mendes Campos, estranho, controvertido, muitas vezes ingênuo, puro, gentil e sempre esquivo, mesmo celebrado pelos notáveis do seu ramo, era uma figura, dessas para se guardar para sempre e morrer sem saber interpretar. Profundamente culto, fazia a maior força para dissimular essa condição. Não, ele não sabia nada, era um observador da vida. É o que dizia entre duas doses de uísque, que adorava, ou duas batidas de limão com pinga, que bebia para se embriagar.

Conheci-o muito e tornamo-nos amigos. No Rio, nossos apartamentos eram próximos e freqüentes nossos encontros em botequins das redondezas. Só que, nos últimos anos, nenhum botequim da Zona Sul o aceitava. Ele bebia e brigava com os garçons, o gerente e quem mais se metesse na confusão. Quase sempre por questões frívolas. Que coisa estranha, que coisa triste num homem daquela altitude, num grande poeta! Cheguei a vê-lo praticamente atirado à rua por seguranças truculentos e sem a menor paciência, e recompor-se para afetar a dignidade possível, nas circunstâncias, mas era uma dignidade  cambaleante, fingida, chapliniana. Assisti a isso duas vezes e me doeu muito.

Em Belo Horizonte ele me telefonou. Aonde poderíamos tomar um chope? Sugeri o Primo e ele foi. Como o marinheiro do poema bandeiriano, estava triste e lúcido. Não quis beber. Falou-me de coisas circunstanciais, de algumas memórias, tudo muito sem graça, em voz baixa, bebendo água tônica. Ao final perguntou:
- Pode me deixar em casa?
- Claro.

Deixei-o na casa do pai, na Avenida Getúlio Vargas quase esquina com Contorno. Uma casa velha, velhíssima, onde morou sua família, seu pai, meu professor, há pouco falecido. Deixei-o em frente e, pelo retrovisor do carro, vi que ficou parado na calçada. Esperando o quê? – perguntei-me. Não sei, não posso dizer, mas acho que ele já estava esperando a morte. Acho que estava morrendo aos pouquinhos. Acho...

Dois meses depois fui colocar minhas mãos sobre as dele, geladas, dentro de um esquife trasladado para a cidade de onde saiu para um mundo que foi, a um tempo a glória e a tragédia da sua vida. Hoje, acho que não seria leviandade afirmar que o Paulo, viajor incansável, nunca deveria ter empreendido qualquer viagem para além de sua própria interioridade. O seu mundo.

Era um grande cronista, talvez, não sei, melhor do que poeta. O mais provável é que, nele, os dois gêneros se confundem, ou se completem. O exemplo que lhe envio é baseado na obra-prima de Lewis Carroll. Mas é também um texto para nós, bem mais velhos, para os homens de todos os tempos.

Carlos Alberto”

PARA MARIA DA GRAÇA

Paulo Mendes Campos

Agora que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.
Este livro é doido, Maria: o sentido dele está em ti.
Escuta: se não descobrires um sentido na loucura, acabarás louca. 
Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. 
Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade.
A realidade, Maria, é louca.
Nem o Papa, ninguém no mundo pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz a sua gatinha: “Fala a verdade Dinah, já comeste um morcego?”
Não te espanes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isto acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” 
Esta indagação perplexa é o lugar comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares esta charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta: o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.
A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. 
Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!”. O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! 
Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada, e vice-versa, fechar uma porta bem aberta.
Somos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda a sabedoria tem que ser grave.
A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: “Oh, I beg your pardon!”. Pois viver é falar em corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para sua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. 
Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gatos se fosses eu?”
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na Literatura. 
Até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, que quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! Mas quem ganhou?” 
É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiverdes de ir a algum lugar, não te preocupes a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhastes.
Disse o ratinho: “Minha história é longa e triste!”. Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance!”. Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro. E não se desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo”. Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.
Escuta essa parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. 
E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. 
A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor.
Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande, para o humor mais ou menos barato, que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; e por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. 
Chamo de “grandes ocasiões” os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade; em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos; em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. 
A dor também tem seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”.

Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida. É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassarmos a fronteira de nossa própria dor, Maria da Graça.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Dois sonetos mais ou menos ornitológicos

Que se emplee el que es discreto
En hacer un buen soneto,
Bien puede ser;
Mas que un menguado no sea
El que en hacer dos se emplee,
No puede ser.

Don Luis de Góngora y Argote


Um jovem Yantl inexperto em aves,
Que um dia quis, rendidas, submeter
Plumas e voz de um pássaro-mulher,
Pediu a um ancião Yantl as chaves

De ornitófilas artes, e os arcanos.
– Alenta-lhe com beijos, disse o velho,
A voltívola alma. E a tal conselho
Juntou ciência de idades e dos anos:

– “Beijos nas asas, sim, mas também pô-los
Em mãos e coração, que mais dilatam
As almas fêmeas do que versos tolos,

E em deixá-los, sobretudo, esmera,
À mulher-pássaro, onde desatam
Os cânticos e os dons da primavera”.



Ave Maria, ave de arribação!
Se tratas de escapar, assim, aos frios
Primeiros do outono de um coração
Antigo, feito ao seu destino, um rio,

Resigno-me ao teu lúcido alvedrio,
Que deixes para trás uma estação
Sombria e gélida, o plúmbeo vazio,
Pelas auroras cálidas de verão!

Guiem-te, lépidas, mulher-hirundina,
As mais gentis e mais suaves correntes,
A enseada azul de águas transparentes.

Tuas claras manhãs, ave peregrina,
Saúdem, cordiais, delfins reverentes:
– “Tenhas um lindo dia, ave-menina!”

(Rib. Preto/1967)
Pode ser que o primeiro texto tenha sido postado neste O&B, mas já faz tempo. A nova postagem é mais pra não perder a oportunidade da epígrafe de Góngora. No mesmo jogo de oportunismo, o blogueiro achou uma jóia barroca do poeta cordobês no magnífico livro “Góngora y el Polifemo”, de Damaso Alonso. Aí, a refinada ourivesaria e a ornitologia mais sutil, embora em brevíssima referência, ao rouxinol, no caso, o primor das imagens, exerceram influxo irresistível para que se impusesse nesta nota. Os versos são de 1609, mas O&B nunca teve conceitos muito claros de atualidade e, no fim das contas, poesia é assim mesmo. Passemos ao rouxinol de Góngora:

“prodígio dulce que corona el viento,
en unas mismas plumas escondido
el músico, la musa, el instrumento.”     

Não sei de quem é a foto da andorinha; a da coruja é do Daniel Esser, que acaba de voltar de Afonso Cláudio, Espírito Santo, ande andou fotografando passarinho:


(NM)

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O tempo valioso de Mário de Andrade

Começou num botequim dos botequins de BH uma discussão ociosa sobre a fama que São Paulo tem, de exportar desastres políticos, uma grande bobagem, pois não teria pra onde exportar, dada a total auto-suficiência  quanto a esse item, em qualquer parte do território compreendido entre o Oiapoque e o Chuí. Isso pode ter origem na desastrosa experiência do janismo, alentada pela recorrência de natéis, malufes, quércias, pitas, fleurises, o delegado e o outro, etc. Mas a conversa começara, mesmo, foi com a fórmula “roubo, mas faço”, que se atribui ao governador paulista Adhemar de Barros, uma síntese do mais que perfeito cinismo universal.

Mas esse é o lado tenebroso de uma realidade que tem facetas muito mais relevantes, facetas esplêndidas, diga-se. Para um blogueiro que viveu a gala da juventude em Ribeirão Preto, muito acima da mesquinharia dos políticos paulistas e de quaisquer outras partes do Brasil, é fácil contrapor a humanidade e a arte de Euclydes, Portinari, Adoniram, da turma da Semana de Arte Moderna e de tantos outros que nos alegram e enriquecem.

Posto aqui um texto do grande Mário de Andrade (1893 – 1945), só pelo prazer de lembrar e desfrutar  do humanismo profundo, da generosidade e sabedoria de um brasileiro, de São Paulo, no caso, que nos deu a todos a referência essencial de “Macunaíma”.

O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS

Mário de Andrade


Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.

Tenho muito mais passado do que futuro.

Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.

As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.

Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.

'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...

Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,

O essencial faz a vida valer a pena.

E para mim, basta o essencial!