sábado, 9 de maio de 2015

A fonte misteriosa das poetas

Versos de Consuelo Velazquez e de Maria Grever, damas de bolero, de Dolores Duran, dama de samba-canção, e versos de Florbela. Infeliz Florbela, tão doce e tão amável, no destino de tragédia e no tom da poesia, dama de fado.  

Bésame, bésame mucho,
Como si fuera esta noche
La última vez.
(...)
Piensa que tal vez mañana,
Estaré muy lejos,
Muy lejos de aquí.

                                                                         (Consuelo Velazquez)



Te quiero, dijiste
poniendo mis manos
entre tus manitas
de blanco marfil.

Y sentí en mi pecho
un fuerte latido,
después un suspiro
y luego el chasquido
de un beso febril.

Muñequita linda
de cabellos de oro,
 etc.

(Maria Grever)




A primeira e a última estância materializam-se em formas subjuntivas, as intermediárias vêm totalmente apoiadas numa sucessão de gerúndios que, o mais provável, seria descambar para o enfadonho, mas não é assim. O que temos é um lirismo desconcertante, lirismo de Dolores, brilhos, cores, aromas, texturas, as harmonias mais sutis do sentimento apaixonado. Ah! Dolores!


Hoje, eu quero a rosa mais linda que houver 
Quero a primeira estrela que vier
Para enfeitar a noite do meu bem 


Hoje, eu quero a paz de criança dormindo
E o abandono de flores se abrindo
Para enfeitar a noite do meu bem

Quero, a alegria de um barco voltando
Quero a ternura de mãos se encontrando
Para enfeitar a noite do meu bem

Hoje, eu quero o amor, o amor mais profundo
Eu quero toda a beleza do mundo
Para enfeitar a noite do meu bem

Quero, a alegria de um barco voltando
Quero ternura de mãos se encontrando
Para enfeitar a noite do meu bem

Ai! como esse bem demorou a chegar
Eu já nem sei se terei no olhar
Toda a ternura que eu quero lhe dar

(Dolores Duran)

Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!

(Florbela Espanca)


O&B acrescenta, um tanto arbitrariamente, uns versos de Angela, Malluh, Sônia, Adriana, Maria Cecília, Alcea, Rosinha, estas, é bem verdade, amigas do blogueiro. não para estabelecer qualquer tipo de contraponto, mas para vislumbrar a possibilidade, tentadora, de uma fonte de muitas intuições, bruxedos, sabe como é, fonte de muitos mistérios, exclusiva das poetas e comum a todas elas. Um espírito distraído pode até a achar que elas não distinguem o real de virtualidades recorrentes, sem dar-se conta de, apenas, não se preocuparem em distinguir. E, no entanto, em seu espelho de palavras, reflete-se todo o non sense das coisas e da vida!

Onde anda o luar
nesta noite escura dentro
de meu coração?
(Angela Leite em “Lição das Horas” - Editora Miguilim)

Eu saí em minha casa procurando por mim. 
No banheiro eu não estava. 
No quarto, também não. 
Talvez na quinta, num bar qualquer (...)
(Malluh Praxedes)

É no repouso da memória
que amanso minha solidão;
reviro meus recônditos,
faço leituras de mim.
Canalizo energias,
volatilizo espaços
e temporalizo rios.
Pensar é também viver
como o agricultor sedentário (*)
que semeia grãos invisíveis.
(Sônia Galastro)

(*) Referência ao rurícola da "Teoria da Viagem - Poética da Geografia" , de Michel Onfray

meça suas palavras, ele disse
medi e eram do tamanho do mundo
não cabiam mais em mim
atravessaram oceanos
e as veias quentes do corpo
saíram pelos poros em meu suor
e desapareceram
como as tardes mornas de dezembro
(Adriana Godoy - Sem rumo)

Lâmpada

Uma janela aberta,
uma lâmpada pendurada
do lado de fora
– cheia de idéias –
e nós, do lado de dentro
olhamos as idéias penduradas
do lado de fora
– cheias de janelas!
(Rosa Antuña Martins)

Entre a pele na mancha:
Repuxam esteios pelos arrepios
Que iludem espaço
Pelo avesso do senso óbvio.
Quinam-se pescoço e queixo-duplo,
Mas antes de alcançar a preguiça
Para arrancar os tecidos já mortos da mucosa
Pelo abaixo que se esteira em bubuias soltas
Formigam-lhe os tendões anestesiados.
(Maria Cecília Rodrigues Campos - In-tenso)

Às vezes não basta ser.
Às vezes ser não basta.
Às vezes precisa-se ser
duas, dez, dúzias,
para se ser uma só.
(...)
Invista em
Ser isto e aquilo
sem pressa e com estilo.
Calmamente, simplesmente,
integralmente SER.
Mulher.
(Alcéa Romano  - Mulher)

Agora sim, um contraponto, este totalmente arbitrário, de Antônio Machado:

En la mar de la mujer
pocos naufragan de noche,
muchos ao amanecer.

(NM)

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Noite inesquecível no CCBB

A estreia de “A mulher que cuspiu a maçã” foi um tremendo “happening”, quarenta e cinco minutos de tirar o fôlego. Rosa Antuña brindou o público que compareceu ao teatro do Centro Cultural do Banco do Brasil, na Praça da Liberdade, em BH, com bom gosto e o melhor de sua técnica refinada. Foram momentos de pura arte, muita arte, inesquecíveis.

O espetáculo será reapresentado hoje (sexta-feira), no sábado e no domingo, sempre às 20 horas. Vale a pena, vale muito a pena, ir ao teatro do CCBB para ver a performance de Rosa Antuña. “A mulher que cuspiu a maçã” é um espetáculo lúcido, brilhante, bonito. Em sua criação e realização, experiência, técnica e sensibilidade, além da genuína vocação de artista de Rosa Antuña. (NM)

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Réquiem por uma mangueira que caiu em Lourdes

Rua da Bahia, entre Antônio Albuquerque e Fernandes Tourinho, na altura que corresponde mais ou menos ao número 2567, Bairro de Lourdes, BH. Os especuladores imobiliários chegaram, compraram a velha e charmosa casa que havia no lugar e, rapidamente, demoliram tudo e transformaram a área em estacionamento, enquanto iam ultimando os meios e os termos para a construção de mais um prédio.

Um enorme pau d´arco guarnecia o acesso ao terreno e, nos fundos, gloriosa remanência dos antigos pomares de Lourdes, uma mangueira de uns oitenta, cem anos, gigantesca catedral verde. A consciência dos homens anda desandada. Ambição, ganância, cupidez, sabe como é. Mas os homens há muito deixaram de ser o centro do Universo, com o qual, aliás, parece terem perdido toda e qualquer conexão, nesta estranha época de indiferença e soberba, preparatória do advento do Capeta e da escuridão irremissível que o Livro das Revelações antecipa.

O ruído exasperante de moto serras começou cedo na manhã da última quarta-feira e, na quinta, ainda persistia implacável, no afã de fragmentar a madeira do que, até a véspera, tinham sido árvores monumentais. Que tristeza! Desde as grades que guarnecem os muros do estacionamento, pombas-trocazes tímidas e amáveis; há muita perplexidade nos olhinhos das pequenas almas aladas, cuja gentileza silvestre não pode compreender a devastação gratuita.Ó espanto, ó desolação!

A consciência dos homens anda desandada, mas a consciência vegetal, de outra ordem, funda-se na paciência e na  generosidade e perde o rumo nem o fulcro. Ela  ainda será gala e ornato deste nosso mundo insensato  mesmo quando os homens tenham consumado seus mais sombrios impulsos de autodestruição.Tanto o pau d`arco quanto a mangueira intuíram, por assim dizer, o que estava por vir e vestiram suas cores mais bonitas para aguardar o desfecho. Primeiro a florada magnífica, depois, os frutos sazonados que, ao serem abatidos por moto serras, entregaram à terra pela última vez . 


(NM)

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Battistella, Jader de Oliveira, Carlos Alberto

Na quarta-feira de 2011 a Parca intempestiva e caprichosa reivindicou para si a  generosidade e o bom humor de Jader de Oliveira, privando de seu convívio a animada tertúlia de incontáveis manhãs de domingo na calçada do Tip Top, na Rua Rio de Janeiro, em BH. No Sábado de Aleluia daquele ano, passado o primeiro impacto da grande perda, este O&B publicou texto ocioso e anacrônico sobre o tango Cuartito Azul, só para evocar momentos bons da presença amiga dele.  Agora, também, a de Carlos Alberto de Barros Santos, com quem compartilhava irremissível preferência pela canção de Mores e Battistella. A reinserção da postagem pode ser só nostalgia de blogueiro, mas também pode ser que não:

Para quem nunca tenha 
lido um verso de Chénier

(Sábado, 23 de abril de 2011)

Em delicada prosopopéia, a personagem que toma por confidente o “Cuartito azul de mi primera pasión”, no tango de Mores e Battistella, abre-se feito se abriria um branco jasmim que exalasse os mais recônditos aromas de seu afeto, depois de sofrer as penas de uma ruptura apenas sugerida, para transformar-se em confortadora nostalgia na memória e na consciência. Mas é uma canção de 1939, e seria de todo impossível justificar o extemporâneo de qualquer discussão, fora de um contexto estrito de história do tango que, aqui, não se aplica. Mas nesta aziaga Semana Santa, na quarta-feira, veio a notícia da partida de nosso amigo Jader de Oliveira. Ele era doido por tangos em geral e, em particular, por esse de Marianito Mores e Mário Battistella, que cantou mais de uma vez em tertúlias no Tip Top. A voz não ajudava muito, mas era afinado e hábil com as inflexões. A preferência por esse tango, compartilhada por Carlos Alberto, de algum modo também explicitava a grande amizade de toda a vida, deles dois.

Agora o seguinte, nesse tango, Battistella e Mores alcançam as mais elevadas esferas da inspiração e da criação. “Cuartito Azul”, a par de canção belíssima é de desconcertante eficácia, fundada sobretudo na metagoge encantadora. É através dela que as nuances do sentimento de um amor arrebatado vão sendo desveladas, contadas/cantadas pela primeira vez pela voz de Ignácio Corsini:



Cuartito azul

Tango - 1939

Música: Mariano Mores
Letra: Mario Battistella

Cuartito azul, dulce morada de mi vida,
fiel testigo de mi tierna juventud,
llegó la hora de la triste despedida,
ya lo ves, todo en el mundo es inquietud.
Ya no soy más aquel muchacho oscuro;
todo un señor desde esta tarde soy.
Sin embargo, cuartito, te lo juro,
nunca estuve tan triste como hoy.

Cuartito azul
de mi primera pasión,
vos guardarás
todo mi corazón.
Si alguna vez
volviera la que amé
vos le dirás
que nunca la olvidé.
Cuartito azul,
hoy te canto mi adiós.
Ya no abriré
tu puerta y tu balcón.

Aquí viví toda mi ardiente fantasia
y al amor con alegria le canté;
aquí fue donde sollozó la amada mía
recitándome los versos de Chénier.
Quizá tendré para enorgullecerme
gloria y honor como nadie alcanzó,
pero nada podrá ya parecerme
tan lindo y tan sincero
como vos.


A partir da sutil invocação do testemunho e cumplicidade de umas paredes pintadas de anil, que, de repente, ganham vida, consciência e plenitude de sentimentos na letra de Battistella, é tudo um espevitar de lembranças e reiteração do amor apaixonado. E há aquela referência a André Chénier, insólita, quase esotérica, que impregna o “cuartito azul” de um lirismo mágico, prenunciador do Romantismo. 

O poeta foi guilhotinado em 1794, durante o Terror, aos 32 anos, dois dias antes que Robespierre, seu algoz, conhecesse a mesma sorte. Argentinos que viveram as primeiras décadas do Século XX sempre estiveram expostos aos influxos da cultura francesa, mas não é abusivo especular, ainda que num âmbito de botequim, que Battistella tenha usado Chénier como cortina de fumaça. Era muito recente, então, o assassinato de Federico Garcia Lorca pelos franquistas, vítima da mesmíssima combinação maligna de radicalismo, intolerância, prepotência e brutalidade. A Argentina de 1939 estava em plena “Década Infame”, governo de Roberto Marcelino Ortiz, muita corrupção, muita repressão. Se tivesse tido oportunidade, teria perguntado a Battistella se, de fato, ele não pretendeu lançar luzes sobre Chénier para projetar a sombra de Lorca... Governantes argentinos, militares ou civis, quanto mais corruptos, mais idolatravam o generalíssimo espanhol e, talvez, não fosse prudente naqueles tempos mencionar diretamente o poeta andaluz.

Mas voltemos ao plano do botequim e ao tipo de conversa que suscita e admite: havia muitas pessoas em torno do chope bem cortado e da cachaça de Salinas do Tip Top, entre as quais muitos leitores vorazes e contumazes que, unanimemente, responderam que não à pergunta “alguém aí já leu Chénier?”

Chega a ser estranho, considerando-se que Chénier está há mais de dois séculos no panteão dos poetas da França, não por seu destino trágico, mas por sua altíssima poesia, que nunca deixou de interessar aos críticos, em seu país e alhures. Mas registro apenas um comentário de Rubén Darío que, com autoridade, dá boa medida das qualificações do poeta: “Entiéndase que nadie ama con más entusiasmo que yo nuestra lengua [...] y que soy enemigo de los que corrompen el idioma; pero desearía para nuestra literatura un renacimiento que tuviera por base el clasicismo puro y marmóreo en la forma, y con pensamientos nuevos; los de Chénier, llevado a mayor altura: arte, arte y arte.”


E para quem nunca tenha lido um verso de Chénier, busquei na Anthologie de la Poésie Française (*), vol. II (De Malherbe à Chénier) uns realmente muito bonitos:

Élégie

André Chénier

Jeune fille, ton coeur avec nous veut se taire.
Tus fuis, tu ne ris plus; rien ne saurait te plaire.
La soie à tes travaux offre en vain des couleurs;
L´aiguille sous tes doigts n`anime plus des fleurs.
Tu n`aime qu´à rever, muette, seule, errante,
Et la rose pâlit sur ta bouche expirante.
Ah! mon oeil est savant et depuis plus d`un jour;
Et ce n`est pas à moi qu`on peut cacher l´amour.
Les belles font aimer; elles aiment. Les belles
Nous charment tous. Heureux qui peut être aimé d`elles!
Sois tendre, même faible; on doit l`être um moment;
Fidèle, si peux. Mais conte-moi comment,
Quel jeune homme aux yeux bleus, empressés, sans audace,
Aux cheveux noirs, au front pleine de charm et de grace...
Tu rougis? On dirait que je t`ai dis ton nome.
Je lê connait pourtant. Autour de ta maison
Cèst lui qui va, qui vient; et laissant ton ouvrage,
Tu vas, sans te montrer, épier son passage.
Il fuit vite; et ton oeil, sur as trace accouru,
Le suit encor logtemps quand il a disparu.
Certe, en ce bois voisin ou trois fêtes brillantes,
Nul na as noble aisance et son habile main
À soumettre un coursier aux volontés du frein.


(*) Éditions Bernard Valiquette – Montreal

(NM)

segunda-feira, 23 de março de 2015

No Temático, sem tristeza nem tédio, só alegria


Sábado, 21 de março, momentoso encontro de jornalista antigos no Bar Temático  em Santa Teresa. Não houve questão, entre as mais relevantes e transcendentais que apoquente o espírito e os  corações dos homens, que não tenha sido esmiuçada, discutida e, tenho a impressão, devidamente resolvida ao calor refrescante da cerveja compartilhada por velhos amigos. Teologias, da libertação e outras, filosofias, sobretudo aquelas mais vãs, política, a grande, e também nossas misérias partidárias, nada escapou na interminável  e,  ao mesmo tempo, brevíssima tarde que o tempo todo ameaçava chover, mas, ao fim e ao cabo, não quis. É claro que teve alguma conversa sobre futebol, mas irredutíveis aficionados do América, cruzeirense empedernidos e atleticanos de exacerbada autoestima estavam todos de ânimo compassivo, apaziguados pela melhor disposição de conversar que vem com uma ou outra talagada daquele elixir que vem de Salinas, o chouriço de tripudiar colesterol servido no tradicional estabelecimento etílico –cultural de Santê.

Isso é tudo um tanto pessoal e, a rigor, não havia predisposição de registrar essas coisas em O&B. Mas o Pantera (Wanderley Lima) mandou num e-mail a foto que capturou o momento mágico, de genuína alegria, dessas que não têm preço, na tarde de sábado do Temático. O velho Chopp, não, não o inventor da cerveja, mas Arthur Schoppenhauer, o grande pessimista, admitiu em “Dores do Mundo” que a alegria é o único bem ao alcance do homem, mas é só um instante fugidio entre dois tempos infinitos. Bom. A nossa, desfrutamos realmente como excelentes pagãos, sem remorso nem culpa nem nada.

Na foto, em sentido horário, os jornalistas Rogério Perez, o de boné,  Ivan Drummond, Dione Dutra, Edson Martins, um blogueiro de chapéu Ramenzzoni, os também jornalistas Danilo Andrade, Paulo Celso, Pantera e Luiz Fernando Perez


(NM)



sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Para lembrar Carlos Alberto


Carlos Alberto, José Cabral e 
José Ramos Filho numa tertúlia 
das tertúlias dominicais na 
grande mesa da calçada do 
Tip Top: verve, humor, cultura, 
generosidade, ciência, sabedoria 
e, de repente, tínhamos instalada 
a Inefável Universidade do Bar


Filosofia do chope

Carlos Alberto de Barros Santos

Numa dessas tardes de sábado me senti solitário e sem rumo. Não sabia aonde ir. Aí me veio à lembrança um velho botequim que freqüentei na remota mocidade. É um daqueles bares antigos que não conseguiram adaptar-se ao mundo moderno. Os garçons, como tudo o mais, são o que hoje se classifica como “caretas”. Mas, tudo bem, não sou moderno mesmo, e pra falar a verdade, sou o próprio “careta”.

As mesas estavam quase todas vazias. Assentei-me numa qualquer e pedi um chope. O garçom me atendeu vagarosamente com os seus pés cambaios – todos os garçons, andarilhos que são, têm pés cambaios – e me fez perguntas que eu não soube responder. Mesmo porque ando meio (ou totalmente?) surdo. Respondi apenas com um sorriso. Ele entendeu.

É bom beber um chope num bar deserto. Não há barulho, confusões, nem mesmo um velho amigo que o reconheça  e comece a fazer perguntas. Além disso, é acolhedora a solidão acompanhada de um copo à frente. E um copo de chope não é nada. Aí me lembrei de Raymond Aron, em 1933, no café Bec du Gaz, em Paris, dizendo a Jean-Paul Sartre: - Olha, meu amigo. Se você está empunhando este copo de conhaque, você está falando de filosofia. Sartre ficou atônito. Era o começo do Existencialismo, baseado na fenomenologia de Husserl e Kieerkegaard.

Contudo, longe de mim essa de ficar filosofando diante de um copo de bar. Resultaria em filosofia barata, ao cabo da qual, ai de mim, perambularia o fantasma de um episódio depressivo. O melhor é pensar, à maneira de Gertrude Stein, que um chope é um chope, é um chope... Apenas isso. Dentro desse pragmatismo,  bebi  o chope, pedi mais dois, afinal estavam bem gelados. Fiquei meio alegrinho e confesso que tive vontade de continuar tomando chopes. Mas, pensando bem, pra quê? É um deleite tão fugaz, com perspectiva de rebote, que achei melhor pedir a conta. Fiz isso, paguei, abri a porta do carro e, em direção à monotonia da minha vida, pensei que, por enquanto, que diabo, as coisas não andam tão ruins, dá para empurrar mais um pouco. Para que complicar? E largando Sartre de lado, solfejei os versos de Noel:

Um dia eu passo bem,  
Dois ou três eu passo mal.
Isso é muito natural...”

É bom beber um chope num bar deserto...


(*) Esta crônica saiu em O&B  no dia 9 de outubro de 2012. Volta a ser publicada agora para lembrar o saudoso Carlos Alberto de Barros Santos, grande médico e escritor colhido, por capricho da Intempestiva na Páscoa de 2013, que sempre prestigiou o blogue  com sua qualificada colaboração. (NM)




Labirintos (*)

...quando as flechas são disparadas para o nada, nada há a ser feito a não ser recomeçar, recomeçar sempre, recomeçar do nada, o que parece pouco, mas não é bem assim, postos o caráter absoluto da negação não contaminada por injunções  adverbiais e a carga necessariamente positiva da dialética dos recomeços, uma vez tenhamos mais ou menos aceite que nem tudo são flores neste vale de lágrimas e de águas claras, porém de pouca profundidade, fina lâmina de cristal líqüido, tímidas gambevas passeando em silêncio na rasura, à flor das pedras, discreto contraponto ao arrulhar profundo das palmeiras surpreendido numa canção do Caribe, referendando manifestações mais apropriadas à excitação do vento passando morno entre as palmas trêmulas do que a rolinhas fogo-apagou aninhadas lá naqueles altos  balouçantes, mas ao mesmo tempo impugnando pretensões descabidas da Lua Nova, cujo lúbrico influxo repuxa a maré como se fosse um imenso  prepúcio das ilhas, exibindo a ereção múltipla do arquipélago, para escândalo das estrelinhas mais pudicas que, se algo dissessem, diriam oh! sobretudo ante as orgásticas pirotecnias de algum vulcão mais ativo, em total desconsideração para com incinerados instintos de acasalamento do passaredo afeito a florestas tropicais dessas terras insulares que sonhos imprecisos de marinheiros habitam, mortos todos há tanto tempo, no afã de achar tesouros que, ao fim e ao cabo, talvez nunca tivessem existido senão na imaginação de meninos ávidos por histórias contadas à sombra de uns enormes tonéis, presumivelmente repletos de vapores densos, mas voláteis, fina flor da moderna alquimia que, entre uma baforada e outra, um velho ia desfiando incansável, embora ele já pudesse ser dado como morto, não fosse, precisamente, aquela mania que tinha de ir  contando casos sem fim, um depois do outro, desde que alguém se dispusesse a ouvi-los, mesmo que se tratasse de crianças, o que ele até preferia, pela reconhecida capacidade que elas têm de elaborar  sobre premissas fantásticas, como as que soem sustentar as pequenas e mesmo as maiores  aventuras no mar, sem menoscabo da verdade, uma quimera sempre pronta a nascer no meio da espuma, esplendente, linda, como a própria Vênus Citereia, isso até o dia aziago em que o ancião falador deixou de respirar, liberando o espírito, que já andava mesmo de saco cheio, sem, contudo, parar de falar, nem quando um fedelho abelhudo inteirou-se de sua condição totalmente cadavérica e, com um empurrão leve, dissimulado, lançou nas águas do canal salobro e poluído aquele de cujus que já não tinha por que permanecer sentado sobre as grandes pranchas do ancoradouro, pouco importando que continuasse contando suas histórias intermináveis com a voz roufenha de fumante que, apenas, de repente embargara inaudível, afogada pelas circunstâncias, enquanto seus pecados, que nem seriam assim tantos, iam-no devorando por dentro, no mesmo ritmo frenético com que siris vorazes e outros pequenos predadores das águas fétidas consumiam-lhe por fora a carcaça, a essas alturas parca, mas enfim uma pitança, o que tem muito de especulação despicienda, dessas que só fazem assanhar os céticos apetites dos incréus, sem embargo do fato de que uma boa história terá, sempre, o laivo de sinceridade que torna um homem bom, isso  quando não descarrila feito um trem entediado, despencando colina abaixo, vagão após vagão, que tristeza, as galinhas, quanta galinha, assustadas, tomadas do mais completo pavor, em meio à ferragem retorcida e fumegante, ao clarão pálido de uma aurora prestes a entregar-se a apoteótica explosão de luz, indiferente a vicissitudes que, temos de reconhecer, pertencem exclusivamente ao inconsciente das locomotivas, mesmo que possam levar a um desastre, afinal de contas libertador de almas que bem poderiam ser anjos, levando-se em conta apenas a plumagem brilhante, inferência essa porém totalmente desautorizada pelo modo algo convulsivo com que ainda cacarejavam seu espanto, compartilhado por equipes de salvamento que se esfalfavam entre aqueles restos de desastre  e pela moça que operava o telégrafo e recebeu a notícia em primeira mão, na terceira estação mais adiante, sobre quem pesava mais, naquele momento de comoção para a gente ferroviária, uma angústia mais própria de seu peito de donzela esperando, esperando com umas  incoercíveis ânsias cada trem que chegava,  confiante, certa de que numa tarde dessas, depois do silvar estrídulo, saltaria da plataforma direto para seus braços, que eram acolhida só, mais nada, o cavalheiro da sua redenção, aquele que lhe estaria prometido desde antes dos tempos,  conforme consignavam as cartas e os astros, que jamais  mentem, espadaúdo, forte, mas de voz e modos suaves, em tudo distinto da rapaziada do lugar, tão rude, interessada só em meter-lhe por sob as saias as mãos ásperas do trato com dormentes e trilhos ou das lides do campo, e ainda por cima propensos a impropérios que constringiam a  concha da sua feminilidade, tão sensível, fechando-a completamente de puro desgosto, mas não tinha importância, porque haveria de se abrir resplandecente, luminosa e fresca como um pé de alface, no dia, aquele, que o destino bem sabia qual, em que seu homem desceria do trem para os seus braços, mas a velha Maria das Dores, meio enxerida porém boa mulher, que tomava conta da cantina da estação e, às vezes, dos devaneios de Matilde, a telegrafista, pronto compreendeu a  situação e foi dizendo incontinenti acorda, Matilde, acorda, temendo que o espírito da moça se perdesse não se sabe em que desvãos de uns sonhos de amar, amar, amar que não se realizavam nunca, mas que ao menos voltavam sempre ao ponto de partida a cada apito da máquina a vapor que vinha resfolegando, resfolegando, até parar bem diante do guichê do telégrafo, de onde Matilde conferia aflita se não seria daquela vez que estaria chegando o seu prometido, mas se alguma vez passou por ali um homem como  aquele, gentil e generoso, forte, e de uma boniteza de  mocinho de cinema, de olhos azuis e tudo, não a reconheceu nem desceu na estação, mas é preciso perseverar, jamais perder a paciência nem a esperança, conquanto Das Dores tivesse boas razões para estar preocupada, temendo sobretudo que Matilde se deixasse arrebatar pela miragem de sedução, pelo fantasma que  assombrava as veredas mais recônditas dos seus próprios sentimentos, ciente a velha de que  homens maus, mesmo quando não existem de  verdade, podem fazer muito mal a uma mulher ingênua, tola, ou simplesmente apaixonada, mas  temia mais que a moça ficasse lá dentro, enleada em seu sonho e fosse se afastando, se afastando para dentro da floresta de si mesma, até que não pudesse mais ouvir silvar de trem que a trouxesse de volta à realidade, preocupava-se e se  desesperava até, gritando entre os dentes, acorda Matilde,  acorda, volta Matilde, mas gritava em vão, porque o espírito da moça já estava longe e seus olhos sempre claros, de um verdoso tão bonito, vivos, brilhantes, estavam baços, desinteressados das cores e da luz, e Das Dores sabia que naquela tarde de destroços na ribanceira não haveria resfolegar na parada nem qualquer apito salvador que chamasse a perambulante alma de Matilde das profundezas de seus labirintos, em que vagava, vagava, e então viu-se na aguda  contingência de tentar uma derradeira cartada, saindo para a plataforma da estação, sem ligar para  as caras de perplexidade das pessoas que se ajuntavam por ali para conversar sobre os acontecimentos da ferrovia, começou a sapatear, batendo com os pés  no cimento da calçada  alta para imitar o ruído do trem chegando, ampliando o som ritmado com golpes com as mãos nos próprios quadris, enquanto gritava histérica cheque-cheque, cheque-cheque, até descambar, em seguida, numa onomatopéia patética, do repique a vapor da  máquina quando estava parando, ipiiiiuuuu-iiii-ipiiiii iiiipiiiiu-piiiiiii uh uh, cheque-cheque, quando todos correram para ela achando que tinha surtado, que endoidara e, presa entre muitas mãos, ouvia vozes familiares pedindo-lhe que ficasse calma, sossega mulher, fica calma Das Dores, e ela se agitava mais e se debatia, esperneava gritando me larga, me larga, mas ninguém largava, enquanto alguém ia  dizendo que as últimas notícias do acidente eram até boas, só prejuízo material, tirando um foguista que perdeu o mindinho da mão esquerda, um vagão de galinhas destroçado, no mais foi um baita susto, então aquela mulher realista secou a fonte de suas lágrimas no peito e o rosto e os olhos na manga curta do vestido claro, de bolinhas vermelhas feito brotoejas, aceitando os fatos, pois não havia como explicar que só estava tentando lançar a meada para sua amiga no fundo do poço,  indicar-lhe o caminho da volta, a direção da luz, no que falhou redondamente, porque a única coisa que realmente se parece com um trem é um trem, e mesmo se ela pudesse contar com o apoio de uma troupe completa para realizar a pantomima, não teria conseguido mais que uma pálida sugestão do momento triunfal da chegada de um trem à estação, então tinha mesmo que se conformar, de desistir, e quando as mãos que a sujeitavam apenas começavam a afrouxar, ela já se dera conta de que Matilde desta vez não regressaria, nunca mais, mas talvez, naquele contexto, nem valesse mesmo a pena, e o melhor seria  que a moça se deixasse levar por algum torvelinho de sombras para uma estância mais quieta do onírico, onde não pudesse ser alcançada pelo medo nem por qualquer outra monstruosidade da escuridão, e esperar, esperar, considerando que retomar o fio da metáfora, mesmo que todos estejamos irremediavelmente embarcados nela, não determina o sentido de seu desdobramento nem dissipa-lhe o enigma, antes multiplica-o em infinitas imagens de pura ilusão, de espelho no espelho, abismo e  vertigem, retorno da solidão à solidão, do deserto ao deserto, como um disparo no vazio, do nada ao nada, e nada haveria a ser feito, a não ser – Quem sabe? – um dia, recomeçar...

(NM)


(*) Versos do Varal e outros textos – Edições C.L.A. – 2008

sábado, 27 de dezembro de 2014

O&B reitera sua fé na conversa fiada

                                     
Maio de 2010, antes de sua primeira postagem, o “hacker” que ajudou nos trâmites técnicos iniciais, veio com uma indagação prosaica: “Qual é mesmo o nome do blogue?” Não tinha pensado nisso, mas uma sucessão de alusões e referências oscilando do fútil ao completamente inútil no texto sem o menor compromisso com Aristóteles ou Descartes, pura conversa fiada, implicitamente, apontava para algo como “Ociosidades & Bagatelas”, locução que, no momento, pareceu muito original e exclusiva.

Porém, na semana que procedeu o Natal, uma breve ciscada no gúgol desfez a ilusão, registrando duas referências consideráveis. No livro “Las Delícias de la Religión Cristiana o El Poder del Evangélio para Hacernos Felices”, do abade Antoine-Adrien Lamourette, 1832, vem consignada com todas as letras num contexto de exaltação mística que, até certo ponto, lembra a jornada do passaredo no poema (A Linguagem dos Pássaros) de Farid Ud-in Attar em busca do Simorg, ou Todos-os-Pássaros. O abade, tal como o poeta persa, vislumbra a Unidade no Absoluto e nela se deleita, em texto, tanto quanto o do persa, de altíssima poesia. Sufis e cristão podem, eventualmente, ter seus pontos de convergência.

Em livro um pouco mais antigo, “Tratado en que se dan algunos médios preservativos para librarse del mal” etc. (1780) o padre catalão Vicenç  Ferrer classifica como “ociosidades e bagatelas”, e como tal a reprocha e condena, toda literatura, incluindo os clássicos da antiguidade, que não esteja estritamente comprometida com a doutrinação eclesiástica. Nada mais impiedoso do que um pregador piedoso, quando se trata de preservar as fronteiras de suas crenças perfeitas e incontrastáveis. Ele e põe no mesmo balaio as obras dos autores gregos e latinos, meros pagãos, livros de cavalaria, obras blasfemas, heréticas, ficções e livros de sacanagem em geral. Lá pela página 338, o padre Ferrer recomenda a quem tenha tais livros que os queime ou “os entregue ao Santo Tribunal”, o que, de antemão, pode ser considerado uma rematada temeridade. Vai que um inquisidor daqueles resolva perguntar algo irrespondível ou meramente difícil de responder. Evasivas do inquirido podem reacender num átimo propensões letárgicas à incineração de obras, autores, leitores e o que quer que se preste a alguma combustão glorificadora de sua fé. Epa, cruz credo!

Falei a respeito ao meu amigo Fernando Fabbrini, na calçada do Café Três Corações, na Savassi, que fez o seguinte comentário: “Ora, a linearidade do tempo é algo tão arbitrário quanto o próprio Santo Ofício. Não tem nada demais que a fama tenha precedido `Ociosidades & Bagatelas´ de uns duzentos e poucos anos”. Tá bem, Fabbrini, tá muito bem.

A percepção sui generis do padre Ferrer pode ser até lisonjeira para “Ociosidades & Bagatelas”, que alça na direção “ciceroniana” dos clássicos, a considerar apenas seu descompromisso com o que não esteja no plano da conversa fiada, além e acima de qualquer credo ou doutrina. Em pretensão, mas benigna, inofensiva presunção, expande-se a vaidade do blogueiro, predispondo-o mais e mais a jogar o jogo essencial da palavra bem ao largo das grandes verdades insondáveis, enquanto as  grandes e pequenas certezas que, ao longo das eras, têm inspirado os senhores de todas as virtudes, a gente vai deixando pra lá. Apenas reconheçamos que o padre Ferrer tem sua graça, não só a graça dos que se creem escolhidos, mas também a que vem com isso de “médios preservativos” que, para um leitor “luso-hablante”, remete a contraceptivos de borracha, camisinhas. (NM)


Pra reafirmar origens e propósitos, O&B posta de novo o texto de APRESENTAÇÃO  postado em 23/5/2010

“Ociosidades & Bagatelas” é uma experiência totalmente lúdica, para ser compartilhada com amigos e amigas sem outro ânimo senão o da convivência, da diversão, como um jogo que permita à gente, sem maiores considerações, lobrigar, por entre as sombras de uma noite esplêndida, quadrantes da abóbada constelada que se apropínquam pelas lentes do coração, mesmo se apenas para constatar que Aldebarã é que esplende mais: gala do céu de maio. Pra quem pensava que lobrigar e apropinquar fossem a própria impossibilidade verbal, o inconjugável, já é um começo de jogo, despretensioso, “a leite de pato”, como se diz em jargão de sinuca se o jogo não é apostado. Mas aí é como lançar búzios ou jogar caxangá usando conchas de museu, das que alimentaram algum ancestral da garça lá pelos meados do período terciário: Guerreiros com guerreiros fazem zigue, zigue, zá!!!  Mesmo no jogo mais ocioso, porém, se palavras virtualmente extintas ganham curso, ainda que num texto na rede eletrônica, por breve que seja, respiram, viram fósseis vivos, persistentes, celacantos léxicos, e não é despropositado alegrar-se com esse tipo de pequeno milagre.

Jogar é representar, fingir, interpretar, mas também tocar viola, piano, berimbau, qualquer instrumento e, sobretudo, é brincar, o que as crianças nem discutem, porque apenas brincam. E também é jogar mesmo, com cartas, varetas, cavalos, torres, dados, bolas, dardos, facas, pedras, plumas, flechas. Com palavras valem trava-línguas: “Num ninho de mafagafos, dezesseis mafagafinhos há. Quem os desmafagafizar...” e jogos de adivinhação, folguedo na infância e, depois, fonte do poder de sibilas e feiticeiras, do prestígio dos profetas e da glória de algum poeta. Para a cigana, uns trocados parcos, mas pouco importa, ela é tão bonita!


Uns, cheios de certezas, jogam o jogo da verdade, o da mentira, mentira dos outros, deles, só verdades, mas antinomias não são perfeitas e, feito rios no oceano, dissolvem-se em tautologias: entre o crepúsculo e a aurora, a noite e, inversamente, o dia;  o Minguante entre a Cheia e a Nova e, invertidos os termos, o Crescente. Parece que, no tocante à ordem dos fatores, não é como na multiplicação aritmética, mas também não deixa de ser: Não é sempre a mesma Lua? Entretanto, há uma Maja Desnuda, uma Vestida, uma gérbera amarela, uma branca margarida, que assim é a vida. No talho a navalha se materializa, o desamor numa  dor no peito e muita tristeza; nas  modulações suaves de seu canto, o curió; a grande borboleta primordial, no vôo leviano e no azul das asas. E, só para concluir, ao fim e ao cabo, o jogo é jogado, o lambari, pescado. (NM)

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Voar é o que importa

Chegou ontem, da África do Sul, e me alegrou, como sempre, mensagem da Sônia Galastro:
“Pedi permissão à minha amiga para enviar-lhe o poema que ela fez inspirada pelo tema de um de nossos saraus: `Voar com asa ferida?´. Esta frase é de um poema do Leminski. Espero que goste.
Sônia”

Gostei sim, Sonel. E me permito postar o texto da Flávia para compartilhá-lo com os amigos de O&B.
(NM)                      
ASA FERIDA 
Habita em mim um pássaro migrante
que anseia flores mas adentra o bosque em chamas.
Visita sombras onde apenas brota o musgo,
velhos dormentes sob trilhos esquecidos,
carrilhões silenciosos onde as horas não ressoam.

Habita em mim um sabiá dolente 
que inveja o rouxinol de colorido canto,
e busca melodias sem queixa, sem lamentos,
bem-te-vi de olhos vendados, cego de horizontes,
pois enxergou demais  e se calou de espanto.

Habita em mim uma andorinha solta,
diversa de outras tantas se movendo em bando.
Seu pouso não disfarça a extensa trajetória 
na rota das mudanças, nuvens passeando...,
das voltas e distâncias já perdeu a conta.

Habita em mim um tiê-sangue agreste,
o rubro peito aceso no desejo à vida.
A sorte se ausentou, o sonho foi desfeito
e ainda assim insiste alçar-se em céu aberto
- sobrevoar desertos mesmo com a asa ferida. 

Flávia
30.10.2014