quarta-feira, 14 de março de 2018

Na rede eletrônica somos todos errantes


Minha amiga Alcéa não é a primeira pessoa que conheço a se irritar com os excessos e banalizações de todos os tipos que as redes sociais impõem ao nosso cotidiano. Mas ela expressou sua inconformidade em versos que chegaram a O&B por e-mail, uma forma até convencional de comunicação nesses tempos de tanto vatsap. Não teve remédio senão publicá-los aqui, pelo prazer de compartilhar a bronca fundamentada e bem posta com nossos amigos e leitores. Agora, uma despropositada derivação, talvez porque anda tudo muito errático, erradio: No título do poema, com  a imaginação à solta, a gente pode achar a remissão que quiser, até à “Errante Elissa”, Dido, a rainha de Tiro que, em seu exílio, teve forças para fundar Cartago, e ainda, para seu romance infeliz com Eneias, o herói troiano. (nm)


ERRANTE

Alcéa Romano

Ando com “arg” de whatsap
Que eu não pedi pra chegar
Amanhece o dia bom dia
Nem escureceu boa noite.

E todo dia é assim
Até a segunda feira
E aí já chega bem cedo
Boa semana se queira.

Tem gente que não pensa
Naquele que vai receber
Manda piada e bobagens
Que não quero merecer

Nunca mais liga ou se ouve
A voz de pessoas queridas
De outros ainda bem
Pois há risco de ser ferida

É política... religião,
Bobagens e safadezas
Pouca coisa se aproveita
Disto eu tenho certeza

E o tempo que se gasta
Ouvindo o que não pediu
Dá vontade de responder
Vai pra santa que te pariu

Tem muita coisa que apago
Sem ler e sem ouvir
Pois aquilo já veio antes
E não tenho que engolir

E o tal do instagram,
Do msn do facebook
Este aí que invadiu
A vida cheia de “looks”

Tudo escancarado
Sem nenhum pudor
E ninguém quer saber
Se estou feliz ou com dor

Ainda aventuro enviar
Um mais certeiro email
Tem gente que já se esqueceu
E nem usa mais este meio

Ontem mesmo eu enviei
Algumas coisas pelo correio
Era bom aquele tempo
Que até parecia sorteio

A notícia chegava de longe
Páginas escritas à mão
Faziam correr lágrimas
E que delícia se sensação

O mundo ficou assim
Tudo de perna pro ar
Até parece que um dia
Ele vai mesmo acabar

Mas cada um que se cuide
Daquilo que lhe é importante
Pois a vida vai seguindo
Para todo ser errante

Quem quer ouvir uma voz
Que saia do seu coração
Este aí sabe o caminho
Do que lhe é confortante.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Ouvir o que vale a pena ouvir

Nilseu,

Clóvis está escrevendo e descansando em Monte Alegre do Sul, SP, e está encantado com o lugar. Na viagem de ida, precisou pegar quatro ônibus. No primeiro, de BH a Três Corações, teve como companheiro de assento um senhor que vinha do Mato Grosso, e foi sobre esse encontro que ele escreveu.

Marilia

Clovis Salgado Gontijo Oliveira 

Apesar de um pouco longa, gostaria de partilhar esta reflexão com os amigos andarilhos e com aqueles que acompanham minhas buscas e andanças.

Chi son? Sono un poeta.
Che cosa faccio? Scrivo.
E come vivo? Vivo.


Quando criança gostava de cantar este trecho da célebre ária de Puccini. Décadas depois, continuo a entoar as mesmas perguntas. Outras, nesse meio tempo, descobri em mim. As antigas tinham então respostas curtas e simples, como a própria infância. Hoje, mais que poeta, sou peregrino. O que faço? Caminho. Minha identidade é a busca, a pergunta. Empreendo a marcha para colher respostas. Nesta, como em outras caminhadas, fecho a porta para subir a montanha. Quero estar a sós com as minhas perguntas. Temo a chegada de outras. Há tempo de perguntar e há tempo de responder. Ilusão? Estas palavras o sábio não diz. Mas assim quero crer, para não me perder.

Faço uma pausa na travessia extenuante da vida, mudo de direção, busco uma canção capaz de embalar os meus passos pelo percurso rumo a um “por quê?” talvez sem resposta. Warum? Em outras viagens, acreditei, por angústia ou tentação, nos “oráculos tagarelas”. Incoerência de quem ainda não havia provado e comprovado uma de suas principais matérias de estudo, com fortes ressonâncias na vida: só como graça as respostas são colhidas. De onde então elas vêm? Do silêncio de Deus ou do piar das andorinhas?

Após algumas caminhadas, sei que, quando sintonizado com a minha “solidão sonora”, sou capaz de reconhecer certas fontes de paz. Contudo, também há a resposta que, inesperada, brota da voz do próximo. Se conservo um par de ilusões, outras já perdi. Não sem tropeços, agora sei que as respostas não são pedras prontas a nos aguardar por séculos ao longo da vereda. Há pedras que só se cristalizam a quatro mãos, a duas vozes. Mal ponho o pé na estrada, uma nova voz se apresenta. Seu sotaque gaúcho me acompanha da capital a Três Corações. Quatro horas partindo do mais superficial com destino ao mais profundo.

–  Viemos combinando a camisa.

Falou da longa viagem que acabara de fazer, do trabalho, da cidade natal, da mudança a terras mato-grossenses e, até mesmo, de um risco corrido na infância. Mencionou, logo de início, ter tido três filhos: um rapaz e duas moças. Fazia exatamente nove anos que o primeiro, o mais velho, havia deixado este mundo. Precisaríamos de alguns quilômetros de confiança para que aquele senhor de 68 anos desvelasse algo da sua dor maior. Certamente se abriu por encontrar no companheiro de viagem alguns traços do filho: nascido apenas dois anos antes de mim, também fora professor e nunca se interessara em dirigir. Mas, rodovia afora, não só ele se abria. Coloquei-o a par dos meus projetos, relatei frustrações, temores, conquistas, novos desafios. Sentindo, como bom pai, uma lacuna na minha fala, lançou-me a pergunta decisiva. A sua viagem já chegava ao fim. Com sinceridade, respondi e me justifiquei. Refletiu por alguns instantes e, por fim, ponderou:

 – Deus nos deu a audição para ouvirmos o que vale a pena. Este é o sábio.

O tempo se estendeu à medida que o motorista reduzia a marcha. Às vezes a colheita mais fecunda se dá no prelúdio da jornada. Apertei com gratidão a sua mão e, emocionado, vi as lágrimas clarearem o azul escuro dos seus olhos miúdos. Ainda acenei para ele da janela do ônibus, enquanto, afobado, remexia com a outra mão a mochila, procurando onde registrar tão precisas palavras. Também desejo ouvir – e, se possível, voltar a ouvir – o que vale a pena. Sinto que a resposta do pai não havia sido pedra pronta. Este é o sábio. E este foi um encontro.
Assim se constroem as respostas para as perguntas que hoje canto.

14 de janeiro de 2018

domingo, 14 de janeiro de 2018

"Piropo" é "piropo", assédio é assédio

Pitigrilli (Dino Segrè) escreveu, em crônica antológica no início dos ano 50, que piropo é uma das mais bonitas palavras da língua espanhola: “Como o piropo, uma espécie de granada resplandecente, com reflexos de chama, esta palavra contém a solidez do mineral e a luz variável do Sol. É uma das mais belas expressões da língua espanhola, dizia eu, no sentido figurado. O seu equivalente italiano complimento, o francês compliment, estão viciados por um defeito constitucional, que certo etimologista original fazia derivar do latim complete mentiri, mentir completamente.”

O escritor acrescenta que piropo “é a primeira palavra que desperta a atenção da bela europeia desembarcada em Buenos Aires. Palavra cálida, luminosa, sonora, que um imaginativo mal informado em matéria de mineralogia poderia confundir com uma flor rubra e amarela, perfumada como um cravo, grande como um crisântemo e atormentada como uma orquídea. Josephine Baker, que neste momento canta suas canções no Rio da Prata, já se apaixonou por esta palavra, que pronuncia à francesa: Pirhopô.”

Como é bonito um pirhopô! teria dito a cantora.

Na paráfrase famosa do poema de Amado Nervo, Le Pera alinha uma delicada sucessão de piropos, como o que se segue: El día que me quieras // Endulzará sus cuerdas // El pájaro cantor. Em "Maria Bonita", Agustin Lara lembra haver adulado Maria Felix com piropos: Te dije muchas palabras, // de esas bonitas con que se arullan los corazones. Muitos piropos, também, na canção  “Maria Dolores”: (...) en tus ojos, en vez de mirada, hay rayos de sol (...) Te mueves mejor que las olas  (...) Envidia te tienen las flores (...) etc., tudo da lavra feminina de Sarita Montiel que, ao fim e ao cabo, renuncia à pluralidade pela unidade monolítica da própria canção que compôs: Y en vez de decirte un piropo, María Dolores, // Te canto un bolero. Talvez mais que a Maria Dolores, Sarita tenha merecido ao longo de sua vida intensa, incontáveis piropos, de Gary Cooper, Hemingway, Indalécio Prieto, o líder socialista espanhol em seu exílio republicano no México, James Dean... Na foto, comprazida, talvez ouvisse piropos do ícone da juventude transviada. Porém, nenhum mais tremendo que aquele do poeta León Felipe:

La Mancha en tí, mujer, y en mi corazón el dardo.

Loura, lourinha, de olhos claros de cristal, // Desta vez, em vez da moreninha, // Tu serás rainha do meu carnaval, piropo bonito, do Braguinha. Antes ele já viera com aquilo de Linda morena que me faz penar, // a lua cheia, que tanto brilha // não brilha tanto quanto o teu olhar.

Aqui, meramente diamante pequeno, mineral, portanto, como a granada, e que também carrega sua fração de Sol, pura luz, um insólito xibiu de palavras apócrifas de grande circulação nos anos 60:

Se cada vez que pensasse em você,
caísse um pedaço de mim,
cadê eu!

As mulheres desses nossos tempos estranhos, como as do século passado, sabem distinguir um piropo para não renunciarem a galanterias a que têm direito. E não precisam de juízos fundamentalistas para reconhecer e repudiar manifestações insultuosas ou assédios grotescos ou brutais, capitulados no Código Penal e que não podem ser postos no mesmo plano do cumprimento devido, compliment, complimento. Ora! Piropo é piropo, afaga o espírito e alegra o coração. Assédio molesta, chateia, ofende e fere, cruz credo! (nm)

domingo, 24 de dezembro de 2017

Marcelo Prates fotografa passarinhos em NY




Depois das imagens belíssimas que capturou (só as imagens) do passaredo de Belô, publicadas em álbum encantador, “Pássaros da Liberdade”, o fotógrafo Marcelo Prates resolveu apontar para bem longe suas lentes sensíveis: foi fotografar passarinho em Nova Iorque, logo de constatar a riqueza e variedade da fauna alada e emplumada na grande metrópole de concreto. Nem pestanejou: concebeu e estruturou depressa o projeto “New York Wings” e pôs-se a trabalhar.

O&B teve o privilégio de receber algumas das primeiras fotos. Marcelo observou que, tanto lá como aqui, as pessoas, em geral, nem se dão conta da presença de tanto passarinho em meio à hostilidade do ambiente urbano mas, tanto lá como aqui, “canto y plumas”, eles enriquecem, colorem e alegram a paisagem. Bravo, Marcelo! Grandes voos para “New York Wings” (nm)

(1) Pra quem sabe voar, isso aí é fácil
(2) Quase um tico-tico
(3) Num terno arrulhar de rolinhas, até NY é suave
(4) Púrpura cardinalícia
(5) Quase um saíra    
(6) O predador













segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

ASAS DE BOLERO, reclame de lançamento



O sujeito se deixa levar pelo lirismo caótico de memórias afetivas de tempos mais juvenis e o resultado inevitável são registros fragmentários, desconexos, aos quais apenas o afeto pode conferir um mínimo de unidade e coerência. Mais importante, porém, é que, de repente, sem mais, esses registros ofereçam a oportunidade insólita de retomar antigas tertúlias e reencontrar amigos que o tempo implacável, a distância e o precário da existência há muito dispersaram nas sombras deste mundo fluido e inconstante. 

Nisso, a alegria de escrever esse ASAS DE BOLERO, em ondas repetidas à exaustão em cada diálogo ocioso, em cada pequena história, ao sabor da conversa fiada sem fim, recuperados com liberdade e afeição. Então a gente pode até achar a coragem necessária pra convidar o leitor amável a juntar-se a esta pequena aventura literária.

Não dá pra dizer muita coisa sobre o lançamento de um livro despretensioso feito ASAS DE BOLERO, além do que está posto no reclame. Mas sempre há o clima festivo da Savassi e, ali, bem no meio do burburinho, o charme acolhedor do Gujoreba Café.  E o evento terá o brilho, inefável brilho, do teclado do Washington (as time goes by  Blue Moon, you saw me standing alone , non, rien de rien, je ne regrette rien, como ´e prima, piú de prima, t´ameró, meu coração, não sei por que, bate feliz quando te vê, Luna que se quebra sobre las tinieblas de mi soledad, Lili Marlene, Maria Dolores, Maria La Ó, Michelle, ma belle, Marina morena você se pintou,  oooooó, se asoma la Luna, las palmeras susurran un canto tropical...  (nm)

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

BH exulta no esplendor da sibipiruna em flor

Manhã de domingo, trânsito interditado  na Savassi, um turista ou outro tirando fotos ao lado da estátua de bronze do escritor Roberto Drummond, crianças patinando, andando de bicicleta ou apenas correndo de um lado para outro no leito de ruas e avenidas sem automóveis, cachorros passeando seus donos e donas, umas bem bonitas. O blogueiro fotografa, distraído, os ladrilhos da Avenida Getúlio Vargas enfeitados de amarelo pela florada de sibipiruna (Caesalpinia peltophoroides), que, pontualmente, chegou a BH com a Primavera.

Pois é. As flores das quaresmeiras chegaram primeiro, sempre chegam, com todos os tons da Paixão; em março, abril, é a vez do rosa clarinho das gordas paineiras, que tanto alegram os periquitos e outros psitacídeos que se mudaram para BH por causa dos incêndios e queimadas que lhes devastam sistematicamente o habitat. Em julho vêm as deslumbrantes inflorescências dos ipês roxos para assumir seu protagonismo incontrastável nas ruas, avenidas, praças e parque da cidade. Isso por umas quantas semanas, quando, então, saem da paisagem para dar vez à dourada explosão dos ipês amarelos, logo substituída pela passagem fugaz dos ipês brancos, grinalda digna para as bodas de qualquer Vênus de Botticelli.


Agora, são as douradas panículas da sibipiruna que enfeitam a cidade e alegram o coração. Elas decrescem da base para o ápice, criando graciosas formas piramidais que oferecem delicada sugestão de lanternas chinesas. Os folíolos minúsculos e as pequenas pétalas se desprendem e forram o chão, mesmo que  seja pavimentado e hostil, com seus matizes generosos. O Sol da Primavera na manhã tranquila  se deixa filtrar pelas copas espessas  e chega com suavidade ao leito da avenida, para espevitar o grato fulgor  da insólita tapeçaria. (nm)


Chope com o Rei no Gujoreba


A gente sai tirando umas fotos pela Savassi, em BH, e depois resolve flanar um pouco pelas ruas sem tráfego, onde sempre é possível encontrar conhecidos dispostos a alguma conversa fiada. Na quadra fechada da Rua Antônio de Albuquerque, nenhum conhecido no Café Três Corações, nas mesas ao ar livre do Gujoreba, ninguém. Do lado de dentro, porém, uma surpresa, àquela hora quase matutina, cerca das onze: dois amigos, Saba Mansur e Cláudio Antuña entregando-se ao alegre fruir do primeiro chope do dia. O que fazer? É chegar logo e incorporar-se, embora a primeira ideia fosse apenas a desfrutar o excelente café do lugar. Mas esse plano falhou rápido, com a chegada do Reinaldo José de Lima, que sentou-se à mesa e, depressa, Ivan, o “maitre”, trouxe-lhe uma água de coco, que bebeu devagar, depois o chope.

Por aqui todo mundo sabe que Reinaldo é o mítico centroavante do Clube Atlético Mineiro,  o melhor artilheiro de todos os tempos, que exerceu os misteres do futebol muito mais no nível de artista que de atleta e encantou até as pedras dos estádios. O blogueiro já tinha conversado duas ou três vezes com o “Rei”, que é como a apaixonada a torcida do Galo ainda o reverencia, mas não no clima de uma mesa de bar, de bar tranquilo e acolhedor da Savassi, o Gujoreba, no caso. Foi um tremendo happening, conversa boa, amena. Até sobre futebol a gente conversou.

O blogueiro pediu licença ao craque para uma foto. O Rei aquiesceu alegre e gentilmente e ergueu a mão direita, o punho fechado, no mesmo gesto alusivo ao movimento dos “Panteras Negras” com que celebrou cada um de seus gols inesquecíveis pelos estádios da vida, o gesto que as arquibancadas, em transe frenético,  replicavam com fervor republicano.


Reinaldo era só um garoto, mas aquela basta cabeleira “Black Power” e aquele punho erguido a cada gol, e eram muitos gols, irritavam demais os poderosos do Brasil. Isso também era muito bom. Bravo, Rei! (nm)

(Correção: O Gujoreba fica na Antônio de Albuquerque, e não na Fernandes Tourinho, como constou na mensagem aos leitores de O&B) 

domingo, 30 de julho de 2017

Florada de ipês, festa e esperança pra todos nós



BH está vestida para festa, com todas as cores e galas dos ipês. A florada deste ano chegou simplesmente deslumbrante, repetindo, talvez, o grande jubileu vegetal celebrado na cidade por essas árvores inacreditáveis em 2011, quando cometeram todos os excessos de magnificência. Todos os tons do rosa clarinho ao lilás estão em nossas ruas, praças, parques, cemitérios, quintais e onde mais. Ipês, ipês por toda parte, que bom!

É claro que, no reino das entidades verdes, essas ocorrências essenciais estão subordinadas a condições de ordem meteorológicas, como a variação de temperatura e da umidade relativa do ar, sei lá. Mas a gente pode acreditar em magia pra explicar  a orquestração da florada dos ipês que, de algum modo, concertam isso de nos brindar, todos na mesma noite,  com o esplendor de suas inflorescências. Mas, também, explicar pra quê?

O ipê da foto, achou de florir no canteiro central da Avenida Getúlio Vargas, de onde irradia em muitas direções seus mais brilhantes eflúvios de sua fantasia vegetal. As magnólias do fundo ostentam o verdor do vestido de baile da Scarlett O`Hara. Dá até pra gente pensar se a árvore não guarda atavismos dos tempos do Jardim do Edem que, de vez em quando, permite que se manifestem para refrescar a memória dos homens, numa quadra triste como esta, de miséria e indigência por todo lado, sem perspectivas de alívio, refresco nenhum, sem esperança.

Milhares de zumbis perambulando pelas ruas e dormindo nelas faça chuva ou faça sol, ou na friagem açoitante deste nosso inverno que, de repente, resolveu mostrar seus rigores. Comem e bebem o que lhes oferece as ruas e, claro, aceitam sem reservas o consolo alucinógeno e letal das pedras de sonho. Uma merda! E, no entanto, vêm os ipês com uma florada dessas. Gente, ainda dá pra acreditar. (NM)

Um pé de maracujá alienígena

Pra quem não é de BH, explico que a Savassi é a área mais charmosa da cidade, muito comércio, galerias, shoppings, restaurantes  e, sobretudo, muitos bares. Nesse espaço especial de uma cidade especial, eles são tantos que até podemos parafrasear em nosso próprio proveito aquela assertiva madrilenha de que “hay mas bares en la calle Atocha de Madrid, que en todo el reino de Dinamarca”. Nunca fui de sair contando bares escandinavos, mas os nossos estão aqui, pra quem quiser contar.

Da perspectiva do bar, de qualquer bar, da “calle Atocha” ou da Dinamarca, mas estamos na Savassi e, é igual, não deixa de ser intrigante a prosaica presença de um pé de maracujá na Rua Antônio de Albuquerque, entre Levindo Lopes e Sergipe. O mais provável é que alguém comeu um maracujá e lançou a cuia vazia ao pé de uma árvore do passeio e, por acaso, uma semente foi junto. A semente germinou,  a rama galgou a árvore com suas tenazes gavinhas, alcançou a fiação telefônica, a rede elétrica, e não para de se expandir em todas as direções, deitando um imenso caramanchão.

Isso, porém, não passaria de especulação, considerando-se a hipótese, das mais plausíveis, do maracujá alienígena, que apenas inicia uma invasão, que só terminará quando a ramagem exuberante vinda do espaço sideral estender-se por toda a rede de cabos elétricos da cidade, alcançando os edifícios, públicos ou não – imagine o que será de tantos palácios da justiça? – até cobrir nossa BH tão amada, idolatrada, salve, salve!

E, no entanto, o pé de maracujá da Rua Antônio de Albuquerque achou de dar frutos, lindos e suculentos maracujás, isso depois de exibir sem qualquer pudor aquelas flores da cor da paixão, roxas, roxas. O primeiro que ocorre em quem vê aqueles frutos, é um bom e refrescante suco, mas é bom lembrar que o pé de maracujá pode ter seus próprios desígnios: esconder BH sob um imenso caramanchão protetor, ou transformar em suco sua população ingrata e descuidada.  (NM)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Breve discurso em louvor à conversa fiada

Conversa fiada depende das disponibilidades de tempo e presença em locais onde se possa contar uma história, uma anedota, à toa, descansadamente, admitindo, claro, a participação de algum apressado que chega, conta ou ouve qualquer banalidade e vai embora. Pode começar pela mais prosaica das indagações meteorológicas: Será que hoje chove? Mas também de qualquer outro jeito. Se vai acabar, e onde, é outra questão, porque flui em círculos e raramente é conclusiva. Nos parlamentos, concílios, conclaves, congressos, seminários e que tais também é assim, mas qualquer comparação para por aí, por lhes faltar o ócio genuíno e desinteressado.

 A essência do conversar fiado é a gratuidade, que permite a agregação de contribuições a uma anedota ou a uma história qualquer, de papagaio, pescador, de padre, de garimpeiros, caçadores, pícaros, valentões, e histórias de amor e sedução...  Essas histórias, às vezes, transbordam das comunidades em que foram engendradas e, em alguns casos, o continuo processo de aprimoramento as eleva à dignidade de patrimônio de toda a Humanidade. Jorge Luís Borges atribui aos “mentideros” do Oriente, cujo cerne é a conversa fiada sem meias nem peias, boa parte da gestação do Livro das Mil e Uma Noites, livro de todos nós. Fora isso, numa boa conversa fiada ninguém ganha nada, mas, também, não perde.

Afã de companhia, espairecimento ou diversão, lazer, sei lá! O prazer ancestral de  conversar fiado é um modo universal de convivência, por metonímia, a própria convivência, cujas origens perdem-se no tempo em que grandes primatas começavam a articular as primeiras palavras na recôndita escuridão das cavernas. E vem, desde então, renovando-se, adaptando-se a peculiaridades geográficas, de clima, ambiente, cultura. Nômades dos desertos do mundo, pastores das estepes ou das montanhas, caçadores, pescadores  polinésios e baianos cultuaram, sempre, a conversa fiada, em volta de uma fogueira, na praia, à sombra de uma grande castanheira num pequeno passeio, ou de um pé de jatobá antigo, numa praça antiga... É conversar, contar e ouvir histórias, rirem juntos, ou até chorar, a instâncias de um relato comovente de peripécias que a condição humana imponha. Mulheres reunidas junto à fonte, enquanto esperam a vez de encher seus cântaros, conversam, conversam. Na beira do rio, as que lavam roupa, se não estão cantando, também conversam... As coisas mudam, mas nem tanto. Se a chuva não passa, e enquanto a Peste não vai embora, como nos tempos de Boccaccio, o jeito é contar história.

Mas, e o botequim?

Em esquinas e praças de cidades grandes e pequenas, em velórios, vendas de secos e molhados, portas de igreja, feiras, mercados, salões de beleza e de barbeiro, salões de sinuca, pontos de táxi, bordéis, é a conversa fiada que nutre a convivência. Admitamos, porém, que a catedral onde se celebram seus grandes e pequenos mistérios, gozosos e gloriosos, uns, outros nem tanto, é mesmo o botequim, onde tudo reverbera: Saúde!  (NM)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Paráfrases






No livro Estas muitas Minas, Angela Leite de Souza, entre muitas surpresas, oferece a paráfrase delicada e sutil:

Se eu me chamasse
Raimundo, o mundo
seria meu eco?




Só pelo prazer de repetir a mais conhecida e repetida estância do “Poema de Sete Faces”, de Carlos Drummond de Andrade:

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Amado Nervo e Alfredo Le Pera

El dia que me quieras,  gala da poesia de Amado Nervo, o grande poeta mexicano, chegou a todos os quadrantes da Terra e, provavelmente, ter-se-á expandido até os confins da Via Láctea na paráfrase de Alfredo Le Pera, que Carlos Gardel musicou e cantou como só ele poderia ter cantado. A “frase” de Amado Nervo:

El día que me quieras tendrá más luz que junio;
la noche que me quieras será de plenilunio,
con notas de Beethoven vibrando en cada rayo
sus inefables cosas,
y habrá juntas más rosas
que en todo el mes de mayo. 
Las fuentes cristalinas
irán por las laderas
saltando cristalinas
el día que me quieras. 
 (...)
Cogidas de la mano cual rubias hermanitas,
luciendo golas cándidas, irán las margaritas
por montes y praderas,
delante de tus pasos, el día que me quieras...
Y si deshojas una, te dirá su inocente
postrer pétalo blanco: ¡Apasionadamente!

Al reventar el alba del día que me quieras,
tendrán todos los tréboles cuatro hojas agoreras,
y en el estanque, nido de gérmenes ignotos,
florecerán las místicas corolas de los lotos.
El día que me quieras será cada celaje
ala maravillosa; cada arrebol, miraje
de "Las Mil y una Noches"; cada brisa un cantar,
cada árbol una lira, cada monte un altar.
El día que me quieras, para nosotros dos
cabrá en un solo beso la beatitud de Dios.

A paráfrase de Le Pera que, em 1935, Gardel transformou na canção que emociona até hoje e que, em seu momento, foi tema de filme homônimo:

Acaricia mi ensueño
el suave murmullo
de tu suspirar.
Cómo ríe la vida
si tus ojos negros
me quieren mirar.
Y si es mío el amparo
de tu risa leve
que es como un cantar,
ella aquieta mi herida,
todo todo se olvida.
El día que me quieras, la rosa que engalana
se vestirá de fiesta, con su mejor color.
Y al viento las campanas, dirán que ya eres mía,
y locas las fontanas, se contarán su amor.
(...)
La noche que me quieras, desde el azul del cielo,
las estrellas celosas, nos mirarán pasar.
Y un rayo misterioso, hará nido en tu pelo.
Luciérnaga curiosa que verás, que eres mi consuelo.

Interativa

A “frase”, uns versos de Antonio Machado, é assim: Españolito que vienes al mundo // te guarde Diós. // Una de las dos Españas // ha de helarte el corazón.

A paráfrase pode ser a gosto de cada leitor deste blogue ocioso, pela  simples substituição do nome do país, com o respectivo patronímico. Por exemplo: Liechstensteinianinho que vens ao mundo, / que Deus te guarde. // Um dos dois Liechtensteins há de gelar-te o coração. (NM)