sexta-feira, 28 de maio de 2021

O salto

O Lélio Fabiano dos Santos resolveu contar histórias. Uma que caiu na rede de O&B o blogueiro ocioso resolveu postar.

 - Posso?

 - Claro que pode, anuiu de pronto o velho amigo.

 Então, o blog, alegremente, compartilha “O salto”, pequeno lavor de ourivesaria do Lélio, que anda meio sumido na bruma ingrata desses mares pandêicos, mas vocês podem ver pela foto que ele  mantem-se firme no curso, sobrepujando as vagas com a galhardia e altivez de sempre, quarentenado e vacinado, longe, longe, a Peste e outras procelas. (nm) 


O sol de fim de outono e do começo do inverno no hemisfério sul deveria ser festejado como nas antigas civilizações, com datas para celebrar e reverenciar os astros da galáxia que se enleavam à multiplicidade de seus deuses. Nosso planeta era mais cósmico e parecia relacionar-se melhor com aquela penca de estrelas que nos são apresentadas desde os milhares de séculos até onde os estudos e a imaginação alcançam e que nos iluminam há tantas e quânticas eras.

                      A linda manhã outonal animou Carlos ao passeio naquela tarde, como vinha se prometendo fazia tempo. Ziguezagueou por algumas ruas do bairro em direção da comprida avenida que integra a zona sul da cidade ao centro, que hospedava os primeiros prédios de escritórios e de variado comércio em andares térreos, estendendo-se por galerias, esquinas e casas resistentes ao desordenado crescimento urbano.

                      Tendo percorrido uns dez quarteirões da artéria e já no coração da cidade, deteve-se ante a vitrine da principal loja de departamentos que abrigava marcas nacionais e estrangeiras de moda masculina e feminina no prédio de nove andares. O centro comercial fazia esquina com a igreja ao meio do quarteirão ajardinado amenizando a paisagem e atraindo transeuntes em busca de paz e perdões.

                     Mal começara a passar as vistas pelas tabuletas dos preços dos artigos masculinos afixadas nas peças, escutou a exclamação feminina de seu nome ali bem próxima. Virando-se defrontou a dona da voz. Os olhos nos olhos de um e de outro foram só um pouco mais rápidos do que suas falas:

                      - Caco?

                      - Isa?

                       As reapresentações cederam logo às relembranças de tempos e amores idos, estes possivelmente nem tanto idos quanto aqueles. Lugares morados e ocupações, casamentos e separações, descendências e emoções, alegrias e decepções. Tudo o que na calçada não dava mais para seguir com as reciprocidades levou-os para dentro, até ao elevador e para o terraço da loja de magazines, onde o restaurante panorâmico serviu de cenário para o reencontro dos amantes de antanho.

           Isabel e Carlos juraram nunca mais se separarem nem deixar a cidade que um dia desunira as alianças prometidas, ali na igreja ajardinada ao lado. Pactuaram juntar-se e juntar tudo. Fechadas as contas da mesa e do passado, dirigiram-se para a sacada do prédio. O sol se preparava para o cair da tarde e na cidade acendiam-se as primeiras luzes.

           Carlos e Isabel aguardaram o anoitecer e começaram a contar estrelas, admirando-as. Deram-se um beijo, as mãos e saltaram na direção delas.

           Como eram lindas. Vênus, Marte, Saturno e Júpiter, Zeus de todos os céus.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

A quarentena de Fiammetta, Pampineia, Filomena, Nefile...


(...) tínhamos atingido, já o ano bem farto da Encarnação do Filho de Deus, de mil trezentos e quarenta e oito, quando, na mui excelsa cidade de Florença, cuja beleza supera a de qualquer outra da Itália, sobreveio a mortífera pestilência. Por capricho do Céu ou em razão de nossas iniquidades, a peste que recaiu sobre os homens como justa manifestação da cólera divina, começara havia alguns anos nas regiões orientais, ceifando muitas vidas antes de, incansável, estender-se para o Ocidente.

De nada valeram em Florença quaisquer medidas de precaução. (...) A cidade tratou de limpar a muita sujeira das ruas e proibiu a entrada de pessoas enfermas. Não adiantaram os conselhos sobre medidas de higiene nem as súplicas dos humildes, em grandes grupos, às vezes em grandes procissões, às vezes apenas devotos isolados. (...) a Peste, de extrema violência, atingia os sãos a partir dos doentes sempre que estivessem juntos.

Do grimório de São Cipriano

Aqui, uma digressão breve:  os florentinos acendiam velas, queimavam incenso e rezavam com fervor para tudo quanto era santo e, certamente, teriam recorrido a feitiços e bruxarias de suas antigas tradições pagãs que, na hora de sobreviver, heresia também vale. É provável que, naqueles meados do Século XIV, conhecessem o grimório de São Cipriano, com as orações infalíveis do seu receituário para prevenir ou curar nossos males de corpo, alma e coração, mas não há registro, não no Decamerão, de que a elas tenham recorrido para enfrentar a Peste. 

Tem aquela poderosa invocação a São Pedro para fechar, com as chaves do céu, o corpo e qualquer espírito desvalido a Todo o Mal, áscaris lumbricoide, mordida de cobra e de cachorro doido, coice de mula, lepra e sífilis, phthirius púbis, bicho-de-pé e chulé, bactérias e vírus em geral, o escambau. Em tese, o Demônio – tudo que é ruim, prejudicial, ofensivo, aborrecido, chato, desleal, asqueroso – não poderia penetrar na criatura que a reza do bispo de Antioquia estivesse a fim de defender. “O Demônio não pode mais entrar neste corpo, templo do Espírito Santo. Amém.” Estas palavras concluem a invocação, que deve ser feita à luz de uma vela e, após, o invocador tem de escrever numa folha de papel sete nomes do Maligno: Belzebu, Baal, Belgefor, Astarot, Set do Egito e o Cão da Moléstia. Queimar o papel com o fogo da vela e já está.

Esconjuro, cáspite, vade retro! Para trás, Satanás!

Se funciona contra grandes, médias e pequenas gripes, afecções respiratórias e Covides em geral é mais uma questão de fé, mas, ao fim e ao cabo, mesmo se não funcionar ainda é melhor que cloroquina, porque não tem efeitos colaterais nem quaisquer contraindicações. Viva São Cipriano, viva!

Histórias para distrair a Parca

Giovanni Boccaccio compara a propagação da Peste à do fogo, que “passa às coisas secas, ou untadas, estando elas muito próximas. (...) não apenas o conversar e o cuidar de enfermos contagiavam os sãos: o simples ato de mexer nas roupas ou em qualquer outra coisa que tivesse sido tocada ou utilizada pelos enfermos parecia transferir a Peste.“ O afã de resguardarem-se do contágio impôs todo tipo de quarentena, jejuando e rezando, uns, outros bebendo  e comendo desbragadamente. Mas a mortandade ia assumindo, cada vez mais, proporções apocalípticas. Então, não poucos florentinos preferiam entregar-se a boas práticas de luxúria.

Boccaccio conta, vocês se lembram, como, em clara manhã de terça-feira, na Igreja de Santa Maria Novela quase deserta, o acaso reuniu sete florentinas, Pampineia, Fiammetta, Filomena, Emília, Laurinha, Nefile e Elisa, todas jovens, todas belas. Incontinenti, elas começaram a conversar, a Peste, claro, determinando os rumos da conversa. De repente, surgiram Pânfilo, Filóstrato e Dioneio, rapazes de bom parecer, índole e espíritos os mais excelentes, que aquiesceram em refugiar-se com elas em confortável casa de campo nos arredores de Florença, para não terem de ficar o tempo todo encarando a Implacável.

Como é sabido e consabido, haveriam de entreter-se contando histórias, histórias que o gênio de Boccaccio reuniu no Decamerão, as quais, decorridos mais de setecentos anos, ainda nos confortam e consolam na miséria covidiana de nossa quarentena. Ah, Fiammetta, Pampineia, Nefile!...
Uma demasia de dias santos

A gente abre ao acaso o Decamerão e vêm aquelas histórias saborosas, em que, por exemplo, um folgado se finge de surdo-mudo para ter acesso privilegiado a um convento de mulheres; noutra, uma mulher de muita presença esconde o jovem amante num tonel e livra seu marido do constrangimento de um flagrante de adultério... Bálsamo para o espírito reler a décima novela da segunda jornada do grande livro de Giovanni Boccaccio, em que a doce Filomena conta como Ricardo da Quinzica, pisano podre de rico, porém velho, teve sua jovem esposa, Bartolomeia, sequestrada por um pirata.

O sujeito submetera a mulher a um complexo calendário de festividades religiosas, às quais acrescentou muitas sextas-feiras, sábados, domingos do Senhor, a quaresma inteira, em que homem e mulher deveriam abster-se de qualquer tipo de contato um com outro. Ele descobriu para onde o pirata a levara e foi ao resgate disposto a pagar qualquer quantia. Paganino da Mare, o pirata, recebeu-o com cordialidade e aceitou devolver Bartolomeia sem cobrar nada, desde que ela quisesse ir com ele. Ela não quis de jeito nenhum e ironizou o grande conhecimento de dias santos, jejuns e vigílias de seu antigo marido: – Se os trabalhadores das suas terras observarem tantos feriados como os que impunha ao cultivo do meu pequeno jardim, o senhor não haveria de ter um único grão de colheita.

Aí ela tripudiou de vez: – Daquela porta para dentro, neste quarto, não tem isso de sexta-feira, nem vigília, têmporas ou quaresma. Dia e noite, aqui se trabalha e a lã se fia (...)

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Resistir na Arte


Rosa Antuña

Como foi que comecei?
Hummm! Ouvindo Clara Nunes quando era bebê (Obrigada, mãe!). Depois ouvindo aqueles disquinhos de histórias infantis (na hora de dormir), cheios de bom português e músicas excelentes! “Banana” foi a primeira palavra que escrevi, após ter aprendido a ler sozinha, movida pela angústia de pensar que havia coisas à minha volta, combinadas em códigos que eu não compreendia! Desde então, escrevia sem parar. Mas antes de escrever já coloria, desenhava, pintava. Sim. Foi aí que comecei.

Cores no papel. Depois palavras. Depois as histórias criadas com os brinquedos, com toda uma dramaturgia. Depois os teatrinhos onde eu era atriz e era diretora. Só então veio a dança, aos seis anos, e ocupou quase tudo. Estudava ballet clássico, mas, em casa, imitava Michael Jackson dançando. Com catorze anos os poemas vieram reivindicar seu lugar. A música veio aos vinte e dois: maracatu, coco. Com vinte e três a pintura voltou com força total. A Dança sempre.

Mas os textos, poemas, pintura e música iam-se revezando em períodos. Veio a primeira coreografia aos 26 anos. E assim estou até hoje. Dança, Teatro, Música, Poesia, Canto, Dramaturgia, Pandeiro, Coreografia, Pintura. Por aí vou seguindo a vida.

Por que estou falando isso?

Porque Arte é resistência. 

O cachorro e a Fonte


Era uma vez um cachorro maltês que, em manhã de domingo, ensolarada, insólita manhã, buscou refresco e amparo em Fonte clara, no burburinho da Savassi. Ante brancura tão nívea, confundiu-o com Narciso, a clara Fonte, e mimou-o com prendas ternas de águas transparentes, seus frescores, os melhores.
– Não vou deixar que morra outra vez.

Feito o cigano do romance de Lorca, o cachorro portou-se como o maltês que era. Só não dá pra saber se não terá cismado se não era casada a Fonte que o mimava. Apenas bebeu. (nm)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Flores, flores, e rios de dor e desolação


Não é longo o trajeto a percorrer desde a Rua da Bahia, pela Rua Antônio de Albuquerque, até a Rua Paraíba, passando pelo cruzamento mágico de ruas e avenidas que os mapas da cidade assinalam como “Praça Diogo de Vasconcelos”, para a gente de BH, apenas de Savassi, nome de antiga padaria que existiu por ali. Quatro ou cinco quadras não são muita coisa, mas a expectativa do chope gelado e bem cortado do Café Três Corações ou do Gujoreba, do pescado do Baiana do Acarajé, entre outras possibilidades daquele entorno, dá uma medida da intensidade dessa passagem feliz. No entanto, o passeante deve manter o espírito, senão atento, pelo menos aberto à poesia circunstante. Florada de muitos tons nas quaresmeiras dos passeios; nas floreiras do calçadão isento de tráfego dos quarteirões fechados, inflorescências de um azul tão suave que enternece o próprio céu e o verão. Na branda contemplação, a memória acolhe, fácil, uns delicados florais de Juan Ramon:

Hoy que se abrieron esta tarde // las rosas de tu rerraza (...)

Entre Levindo Lopes e Sergipe, ergue-se elegante e majestoso pau ferro na direção do céu alto, como se disposto a tocar com sua ramagem verde-escuro, lá em cima, o azul dipinto di blu. Deferência da flora, dignar-se uma árvore dessas a enfrentar conosco as vicissitudes de nossa cidade. Antes que alcancemos a praça propriamente dita, outro monumento, o gigantesco cedro “sete barbas” que sombreia o bronze em tamanho natural do escritor Roberto Drummond contemplando, comprazido, buliçosos ires e vires. Poema vegetal, catedral? Por pura implicância, há alguns anos, a árvore teria sido posta abaixo, não a tivessem defendido bravamente. Ela continua lá, exuberante, impávida, colosso(?), para sempre. Valeu a indignação. Irrelevância? Não sei não. Potencializada a uma escala apropriada, a mesma indignação pode, quem sabe, salvar os rios que estão morrendo e mesmo os que já estão mortos, à espera de uma chance para ressuscitar, e as florestas, o cerrado e tudo o mais.

Flávio Friche, meu irmão! Desistir de nossos rios, abandoná-los? Não. Eis livrá-los de toda lama tóxica, o Rio Doce, o São Francisco, o Paraopeba, e Mariana, o Brumado e, quem sabe, ó, esplendor de ouro e prata, o sonho de piracema em águas ligeiras, límpidas, se escapando do Fecho do Funil! A hora é de espanto e desolação. Como nos versos premonitórios de Eliot (*), anteriores aos massacres de Nanquim, a Guernica, ao Gueto de Varsóvia, a Auschwits, à bomba atômica, aos bombardeios de  Hanói e Haiphong, anteriores, também, é claro, ao descaso, indiferença e ganância da mineração devastadora.  Deixar para traz a planície devastada, o travo de absinto, não tem jeito: “A Ponte de Londres está caindo caindo // Poi s`ascose nel foco gli affina // Quando fiam chelidon – Ó andorinha andorinha (...) com fragmentos tais foi que escorei minhas ruinas (...) Shantih shantih”  (nm)

(*) “A Terra Desolada” (The Waste Land) - 1922

"ESTAS MUITAS MINAS"


Num sábado de sorte, na Rua Antônio de Albuquerque, a gente esbarra por acaso com a poeta Angela  Leite de Souza, autografando os versos de “ESTAS MUITAS MINAS” (Prêmio Casa de las Américas, Havana, 1997), que que acaba de relançar em requintada edição da Miguilim, no calçadão da Livraria da Rua. Para quem estava atrasado para o chope concertado com amigos, foi só cumprimentá-la de longe, porque a fila era grande. Na volta, ao passar pela livraria, o calçadão estava vazio, todos tinham ido embora.

Decorridos uns dias, porém, o correio  Inspiração e sensibilidade mais admirável habilidade e engenho na realização dos poemas sem, em momento algum, escorregar pela ladeira fácil dos estereótipos.  A leitura não pode ser mais prazerosa: emoção, sim, porém com muito comedimento; a graça, muita, é só pra sorrir, nada de gargalhadas, e as tristezas, na poesia de Angela, vêm como um travo discreto, sem exasperações nem exacerbações desesperadas. Cada poema, perfeita metonímia desse estado de espírito esquisito, misterioso, enigmático, indecifrável, não para Angela, chamado Minas Gerais.

generoso trouxe o livro. Isso de receber poesia em domicílio é bom demais. Aí, foi reler com gosto cada poema, apreciar a ourivesaria sutil com que Angela captura nuances recônditas, intangíveis, da alma de Minas (?).

Só pra compartilhar, num poema saboroso a ideia de que embarcar numa estação mineira não é tão simples quanto parece. É bom que a gente não se esqueça de que um trem é uma coisa e vice-versa:   

Perdi o trem
e o medo
de perder,

Perdi o trem
e o medo
de perder
trens.

Perdi o trem
e o medo
de te perder.

Perdi o trem
e o medo
de te perder,
trem!

Perdi o trem
de medo
de te perder.
(nm)

domingo, 2 de dezembro de 2018

Tempo de colégio

Dois colégios, os dois na cidade vizinha, que ali não tinha nenhum. A “jardineira” amarela e marrom feito bem-te-vi levava os estudantes todas as manhãs, cerca de uma hora nos vinte quilômetros de estradinha poeirenta, ou lamacenta, conforme a estação, e os trazia de volta. Os rapazes estudavam no “São Gabriel”, dirigido por religiosos italianos. Haviam chegado em meados dos anos 50 com suas cicatrizes da guerra, que mal acabara; alguns traziam feridas abertas. Discretos em política, celebraram a visita do presidente Giovanni Groncchi ao Brasil com genuína empolgação democrata-cristã.


Sem maior impacto na vida do colégio, surgiu, não se sabe de onde, uma entidade que se propunha a “conscientizar e mobilizar os jovens católicos contra o comunismo ateu”. A EAC dava carteirinhas aos acólitos, prestigiava novenas, ladainhas e ave-marias em geral,  ”momentos de oração” e “cursilhos de cristandade”. Os “irmãos” estimularam a participação dos alunos, mas só Eduardo “Gafanhoto” – pernas compridas e arqueadas, cabeça pequena – doido pra ser líder de alguma coisa, encampou a causa com entusiasmo. As adesões, contudo,  foram mínimas, e ele teve de conformar-se em ser líder dele mesmo. Comunista pra merecer beligerância não havia nenhum, mas o desinteresse pela EAC também tinha outros fundamentos, como o sugerido de modo enviesado em comentário do Márcio Gerep, do quarto ano:

– Esse “Gafanhoto” já chegou aqui como o chato mais phthírico do colégio.

Em manhã ensolarada de radioso abril, o “teaser” misterioso, Oh! não só no pátio e nos muros do colégio, mas em tudo quanto é poste, barranco, calçada, pavimentos de paralelepípedos, por toda a cidade, três enormes e intrigantes letras a cal: UBG, uma comoção. Nos dias subsequentes, a pichação continuou, só para aprofundar o enigma: “O que será UBG?”, “A UBG está chegando!”, “Cuidado com a UBG!”

Enfim, o inimigo à vista. “Gafanhoto” exultava ao convocar sua militância para a pugna inevitável: “Isso só pode ser coisa comunista. Eia, sus, avante, à luta!”

Passados uns dias, novas pichações deram extensão à sigla: União dos Bocorongos Guarititas, outros mais e Zé Cássio e Nêta, os dois do terceiro ano, assumiram a invenção da história, “um trabalho do cão”, mas se divertiram. Era tudo ficção: não havia “união” alguma, “bocorongos” não existem, “guarititas” muito menos. E Zé Cássio, impiedoso: – A UBG é tão fantasmagórica quanto a EAC.

Decepção grande, “Gafanhoto” quase soluçando: –  Ele não podia, não podia dizer uma coisa dessas.

Os “irmãos”

Menos de trinta anos, Irmão Giovanni lecionava francês. Irritadiço, tenso, o tempo todo parecia prestes a um ataque nervoso. A guerra ainda sangrava nele: na penúltima semana antes de acabar na Itália, brincava com outras crianças em escombros de sua vizinhança. Veio o ronco dos aviões americanos, o estrondo, bombas. Correu para casa e não havia mais casa, nem pai, nem mãe, irmãos, cachorro, nada ...   

Baixo, atarracado, quase calvo, tez morena, que traía sua origem meridional, Irmão Wenceslau, quarenta e poucos anos, era o diretor de fato, porque o titular, Irmão Angélico, andava com problemas de saúde e passava recolhido a maior parte do tempo. Impressionava por sua cultura que, aos olhos de seus jovens alunos, abarcava todos os campos do conhecimento. Em situações de emergência, substituía qualquer professor, de qualquer disciplina, inclusive Português. Entrava na sala e perguntava: – Onde paramos?

Numa dessas atuações eventuais ele ofereceu, pela primeira vez, a um bando de adolescentes desatentos, uma dimensão palpável de Camões e de “Os Lusíadas”: –  Sua epopeia está no mesmo nível da “Eneida”, de Virgílio, ou da “Jerusaleme”, do Tasso. É uma glória do Ocidente, coluna do templo da Língua Portuguesa.

–  Dante?

–  Bem. A “Comédia” é outra coisa. Incomparável. Alighieri, modesto, compôs assim, sob o título genérico, o poema monumental. “Divina”? Não, nunca cometeria tal petulância. Contemporâneos e pósteros é que a distinguiram com o adjetivo supremo, e ficou “Divina Comédia” para sempre.

Para quem nunca tinha ouvido falar nessas coisas, foi uma revelação. Por essas é que, quando Irmão Wenceslau falava, até as aranhas do teto ficavam quietas, escutando. De jovem, ele foi com as tropas italianas à África do Norte, justo por sua proficiência no idioma do inimigo. Não contou que experiência viveu ou presenciou, mas terá comido do pão que o diabo amassou naquelas escaldantes vastidões africanas. No colégio, dava aulas de matemática e ciências naturais. E nunca mais disse uma palavra em inglês.

Magro, alto, cabelos claros, olhos muito azuis, Irmão Angélico estava perto dos setenta anos.   Contavam que fora preceptor do filho do Conde Ciano, aquele genro inútil de Benito Mussolini, e também que estudara física quântica e outras complicações subatômicas com ninguém menos que o laureado Enrico Fermi. Homem carrancudo, inacessível, não dava pra gente perguntar-lhe a respeito, não dava pra perguntar nada. Poucas vezes alguém lhe ouviu a voz, praticamente não falava, mas sua autoridade de diretor era incontrastável.

Aconteceu que Irmão Gerardo, o mais jovem daqueles italianos, que sempre flertava com o mulherio, se tinha oportunidade, e sempre tinha, bem-apessoado o sujeito, dava aula de Latim e canto orfeônico. Alguém pediu que cantasse alguma coisa da época da guerra e veio uma canção de barqueiros do Rio Brenta, depois iucaidi, iucaidá.  Aí, entusiasmou-se, justo no “jingle” dos “jingles” do fascismo, mas não passou de Se tu dall'altipiano guardi il mare // Moretta che sei schiava fra gli schiavi ...

Irmão Angélico ouviu e irrompeu furioso sala adentro. Ninguém, fora o “irmão” cantor, entendeu tudo que disse em italiano áspero, só a esculhambação. Em seguida, retirou-se, e Irmão Gerardo, recomposto, continuou a aula sem Faccetta nera: escapou-se pela “Picolissima serenata”, que ainda tocava no rádio:

Mi farò pensare un soldino di sole
Perche regalare lo voglio a te
Lo potrai posare sui biondi capelli
Quella nube d'oro accarezzerò...

Questa piccolissima serenata
Con un fìl di voce si può cantar
Ogni innamorato all'innamorata
La sussurrerà, la sussurrerà

Algum tempo depois, Irmão Angélico foi-se embora pra outra cidade, outro colégio, mais antigo, base da sua congregação. A gente não sabia que levava, fundo, no estômago, um câncer devastador, o que não é coisa fácil de levar. Ah, e a tristeza de não voltar nunca mais à Itália, e essas nostalgias irremissíveis, próprias, de cada um! É de se supor que Irmão Angélico se tenha empenhado sinceramente em nunca mais ouvir aquele rataplã marcial que – colonialista, racista, machista – embalava  Il Duce em seus delírios imperiais. Mesmo assim, não dá pra conjeturar se, feito um persistente acufênio, a canção não lhe terá reboado na memória à chegada do Anjo?

Se tu dall'altipiano guardi il mare
Moretta che sei schiava fra gli schiavi ...
Vedrai come in un sogno tante navi
E un tricolore sventolar per te
Faccetta nera, bell'abissina
Aspetta e spera che già l'ora si avvicina! (....)

A “irmã”

As moças estudavam no “Helena Guerra”, da congregação das Irmãs Oblatas do Espírito Santo. Irmã Lourença, a reitora, no discurso e na práxis destoava no âmbito conservador e se esforçava para que as estudantes aprendessem a enxergar o Brasil desigual: os pobres existem e são muitos. Grandes olhos claros, sobrancelhas se encontrando com suavidade sobre a linha do nariz quase aquilino, discretamente etrusco, que traiam o louro dos cabelos recolhidos em seu hábito de freira. Na voz branda explicitava seu encantador acento toscano, conservado sem esforço. O que cultivava com diligência? Compaixão, misericórdia, sobretudo para com os “mansos e humildes de coração”.

Tons de róseo de entardeceres de outono sobre as serranias do Sudoeste cintilavam nas maçãs do rosto dela. Se era a favor de reformas, do governo ou outras, não dá pra saber, mas o mais provável é que achasse que, como estava, não estava bom. E Irmã Lourença era muito bonita. (nm)


segunda-feira, 12 de novembro de 2018

¡Que nos quiten lo bailao!


Maria Luisa recebeu de uma amiga mexicana graciosa montagem, imagem e versos de Sor Juana Inés de La Cruz que, desde Sevilha, enviou ao blogueiro: “No me resisto a compartirla contigo. Se la voy a mandar también a Rosinha, por eso de ¡que nos quiten lo bailao!” Bom. Rosinha é bailarina de ofício, literalmente, muito baile vida afora. Dançar é sua riqueza. ¡Que nos quiten lo bailao!” é um jeito muito espanhol pra expressar uma ideia do tipo “Olha, meu chapa, você pode criticar, condenar, reclamar, o que quiser. Mas o que eu dancei está dançado e não cabe devolução nem retorno”.

O blogueiro, por sua vez, não resiste à oportunidade de compartilhá-la aqui, homenagem de O&B à grande poeta. É inacreditável que ela tenha escrito o que escreveu na cidade do México do Século XVII!

Sem referência na memória referência aos versos que aparecem na montagem, que não tinha certeza de serem da grande poeta, recorreu a Maria Luisa: – Não me lembro de tê-los lido...

Ela esclareceu –  Son de Sor Juana, por supuesto, de un soneto titulado "Escoge antes el morir..."

Ei-lo:
Escoge antes el morir que exponerse a los ultrajes de la vejez

Miró Celia una rosa que en el prado
ostentaba feliz la pompa vana,
y con afeites de carmín y grana
bañaba alegre el rostro delicado;   

y dijo: Goza sin temor del hado 
el curso breve de tu edad lozana,
pues no podrá la muerte de mañana
quitarte lo que hubieres hoy gozado.   

Y aunque llega la muerte pressurosa
y tu fragrante vida se te aleja, 
no sientas el morir tan bella y moza:   

mira que la experiencia te aconseja
que es fortuna morirte siendo hermosa
y no ver el ultraje de ser vieja.

– Sor Juana era una adelantada a su tiempo, diz Maria Luisa. Recuerda eso hombres necios que acusais // a la mujer sin razón...
“sin ver que sois la ocasión
de lo mismo que culpáis;
(...)
Opinión, ninguna gana,
pues la que más se recata,
si no os admite, es ingrata,
y si os admite, es liviana.

Siempre tan necios andáis
que, con desigual nivel,
a una culpáis por cruel
y a otra por fácil culpáis.

¿Pues como ha de estar templada
la que vuestro amor pretende?,
¿si la que es ingrata ofende,
y la que es fácil enfada?" 

Feminista avant la lettre? Não sei. Mas o baile que bailou Sor Juana Inés está bailado, bailado para sempre. Suas palavras de fogo resplendem como uma grande constelação que, em meio a jornada triste no deserto da insensatez misógina, da discriminação obtusa, da tosca intolerância, pode oferecer Norte seguro ao peregrino. (nm)

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Pontes, montes, e o DNA da Língua Portuguesa


Dois amigos queridos do blogueiro, um casal, têm o privilégio de viver na cidade encantada de Sevilha, de caminhar pelas margens do Guadalquivir em qualquer esplêndida manhã, ao entardecer, depois que o calor do verão se deixa abrandar por alguma brisa vinda não se sabe de onde, ou na noite estrelada que, sempre, tarda em escurecer nessa estação. As pontes do Guadalquivir, a de Triana em primeiro lugar: podem cruzá-las em qualquer sentido, parar no meio pra contemplar a Lua refletida nas águas mansas. As torres, claro, as torres... as da Catedral, a Giralda, camafeu que enfeita o colo da cidade amada de João Cabral, amada como se fosse uma mulher, e a Torre do Ouro, debruçada sobre o rio que, sempre embevecida, contempla. Mas tem outras, muitas outras, todas bonitas, esguias, alçando-se para o azul alto para alardear antigos foros de velhas igrejas no Casco Histórico.

(O postal de Sevilha é de Akiro Arrakis)

Às vezes, porém, o Sol da Andaluzia exagera, obrigando os sevilhanos a buscar refresco: um “vasito” de vinho, uma “sangria”, cerveja... Calma, gente! Também pode ser um sorvete de baunilha. Camisetas para venda aos turistas, nas calçadas perto da Catedral ou em qualquer loja de “souvenirs”, trazem consignado em bom andaluz: “!Ojú, que caló!”. O blogueiro havia registrado "Juó, que caló", mas Maria Luisa mandou a correção. Precisão linguística: O elfo da errata fez você escrever “!Juó, que caló!” quando o que você queria dizer é “Ojú, qué caló”,  onde isso “Ojú” é a deformação andaluza de “Jesus”, e também é dito “Ozú” e “Osú”.

Não dá pra todo mundo migrar pra longe do calorão. Os meus amigos, porém, podem “voar” para o Norte, feito as andorinhas, para temperaturas amenas, aprazíveis. Em plena arribação, mandam notícias:

- Hoy ya hemos entrado en Asturias, por las tierras de la Senda del Oso y las Xanas.

Dá pra adivinhar a alegria deles dois ante o verdor deslumbrante das montanhas e vales asturianos, na aragem fresca que perfuma o verão cantábrico. No inverno é diferente, mas ursos gostam muito. Ó esplendor de montes recortados contra o ocaso, silhuetas de puro encanto! Astúrias, Astúrias...  Embalada pelos sons estrídulos de gaitas de fole herdadas de celtas ancestrais, uma velha canção proclama: De la corona del cielo // una esmeralda cayó. // Esa esmeralda es Astúries.

Antes, passaram pela Galícia: monasterios románicos, naturaleza esplendorosa de verdes valles, suaves montañas, hermosas playas, impresionantes acantilados. Y temperatura deliciosa, frente a la ola de calor que agobia estos días a gran parte de España. E mandaram fotos, uma tomada na Praça Maior de Lugo, la bonita e tranquila capital de la província galega que hemos recorrido estos dias, outra, de um cartaz que adorna el paseo marítimo de Foz, otra bonita ciudad lucense. Creo que te gustará leer esas aleluyas galegas.


O blogueiro gostou demais dessas “aleluyas”, tanto  que as posta aqui, para quem não sabe nem nunca soube, ou para espevitar a memória de quem já soube, mas esqueceu: a Galícia é o berço da Língua Portuguesa; traços vivos de DNA da nossa “Última flor do Lácio” (*) ainda estão lá.


(*) Língua Portuguesa – Olavo Bilac



Tempo de incomunicação, tempo ruim

Na postagem precedente, referência ao soneto de Bilac, que O&B acolhe, como sugestão. A Língua Portuguesa pode ser muita coisa, estrela cadente, cometa ou, leviana e precária, uma caravela de luz: em tempo de intolerância, soçobra e se apaga no mar da incomunicação.

Para que, para quem, a Língua Pátria bebida no leite materno e na magia dos primeiros livros escolares? Onde o convívio amável pela palavra, a fraternidade, em tempos de aleivosia e vitupério, tempos sombrios!   

A Língua Portuguesa? Muito mais  sepultura, menos esplendor. Senhor Bom Deus dos Brasileiros, miserere nobis!

Para espairecimento, O&B posta as sonoridades de “Língua Portuguesa”, que remetem a um tempo bom, em louvor da Musa parnasiana de Bilac:

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arroio da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!" 
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho! 

domingo, 29 de abril de 2018

O encontro (*)


(*) Do livro O frágil lenho da ternura, do Edinho (Edson José de Senne), confraria do Varal, Padaria Americana, Ribeirão Preto, e outras tertúlias. A ilustração é de Waldomiro Sant`Anna.

A moça convidou o namorado
para prosear e beber cerveja
em um bar, ao luar.

Eu nunca soube se o bar seria este,
nunca soube se a lua seria aquela
e se o namorado seria eu.

Mas continuo esperando
Com a resignação dos caracóis marinhos.

Eu careço, às vezes, de conjecturas.