quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Homenagem a Vieira (*)

Clovis Salgado Gontijo

 

Nossa Senhora, Mãe Celeste,

há muitos séculos,

os peregrinos desta Terra vos invocam.

Devotos, sempre vos pedem:

uma direção,

um caminho suave,

um abrigo seguro,

o equilíbrio para não tropeçar,

a saúde para não esmorecer.

 

Nossa Senhora da Estrada

e dos amanheceres,

também sou peregrino

e recorro à vossa proteção.

Hoje, a jornada será longa.

A Lua nem sequer se recolheu

do céu esbranquiçado de Luminosa.

 

Nossa Senhora das Candeias,

despertai novamente o Sol

para iluminar de vez o mundo

e inundar o céu, por todo este dia,

com o azul intenso do vosso manto.

 

Nossa Senhora das Neves,

penso em vós neste vale frio

onde só há geadas.

E vos peço para derreter

as ações do tempo que me petrificam.

Mas, antes, aquecei minhas mãos geladas,

ó Senhora da Luz,

padroeira da cidade do meu pai.

 

Quanto a mim,

vim das bandas da Boa Viagem

e, por isso, me fizestes peregrino.

Ainda não sei para onde vou.

Por ora, meu destino não será vos encontrar,

Nossa Senhora Aparecida.

Subo as serras em busca da liberdade rarefeita nas planícies

ou, quem sabe, para me manter, como a vida,

simplesmente em movimento.

 

Já com o corpo aquecido,

dirijo a vós outra prece,

minha fiel companheira,

Senhora da Soledade.

Por favor, deixai-me bem atento

aos encantos que brotam no trajeto.

A beleza sabe amaciar as botinas.

Qual graça de imediato recebida,

observo as criaturas que me cercam.

Conheceriam e invocariam, também elas,

algum dos vossos títulos gloriosos?

 

Passeia, à minha esquerda,

um curso de águas sonoras.


Não precisa de luz, nem de guia.

Avança, de olhos fechados,

sem temer o choque das pedras,

sem temer se perder,

tornar-se

ou deixar de ser

rio.

 

Se o córrego flui assim, tão seguro,

é por vossa interseção, Maria da Fé.

Volta e meia, vejo um pássaro

pousado no arame de uma cerca.

Não depende de estradas para seus percursos,

mas roga por bons ventos

e, depois de um voo penoso,

espera por Vós ser atendido,

Nossa Senhora do Bom Repouso.

 

Nos pontos mais altos,

as araucárias preenchem a paisagem.

Fora suas raízes profundas,

nada mais as liga à terra dos homens.

Não se preocupam com o bom sucesso,

nem com a boa morte.

Desafiando a gravidade,

voltam aos céus os longos ramos,

em adoração constante,

em total e mudo abandono,

à imagem da Senhora do Silêncio.

 

A trilha contorna a pedra sobranceira

que atrai e intimida os viajantes.

Não carece de mais amparo

e, para ela, tanto faz o mau quanto o bom tempo.

Se, no seu topo, erigem um cruzeiro,

não se queixa,

mas implora à Senhora da Piedade –

ou seria à Senhora da Penha? –

que a livre das incisões humanas.

Nossa Senhora dos Anjos,

amada por Francisco,

talvez todas as criaturas Vos invoquem.

Mesmo aquelas sem pés e sem caminhos.

Quanto a mim,

sou peregrino

e, como desconheço esta estrada e meu destino,

não dispenso nenhum dos Vossos nomes.

 

Piranguçu, julho de 2021

 

(*)  O Clóvis andou peregrino por velhas igrejas do Sul de Minas e, em tantas encontrou devoção tão arraigada na Virgem Maria que, ao compor homenagem ao padre Antônio Vieira, desde sempre outro rendido devoto da mãe de Jesus, chegou sem muito esforço  à piedosa oração. Os tempos são difíceis por aqui e a gente tem mesmo de recorrer a toda ajuda possível. Ave Maria, esperança nossa. Salve! (nm)


domingo, 4 de julho de 2021

Uma balada e uma baladinha (só pra distrair a quarentena)

Recolhimento (*)..

A quarentena da lepra, dos homens, das roupas e da casa é de sete dias, a critério do levita (Levítico). Para encontrar-se consigo mesmo, tanto para o Filho de Deus quanto para os filhos dos homens, são necessários quarenta dias contados, na solidão do deserto de cada um. Para, daí, abrir passo até a Terra da Promissão, quarenta anos podem ser suficientes.

(*) Heptaédricas – 2017

 

Há séculos, a Lepra e a Peste, de vez em quando, impõem quarentenas como, agora, o vírus insidioso, ameaçador, letal. Não adianta reclamar. É chato sujeitar-se ao recolhimento forçado, renunciar ao convívio e à conversa fiada dos botequins da vida, sobretudo quando tarda, e tarda muito, a vacina que trará de volta nossa liberdade. Por enquanto, vale o refrão de Gilbert de Carvalho: “Quando no terreiro, // faz noite de luar // e vem a saudade // pra atormentar // eu me vingo dela // tocando viola // de papo pro ar”. Revolver uma pilha de discos de vinil, escolher um e ligar a velha vitrola também vale, pra quem nem sabe tocar viola.

Quando vem a voz inconfundível de Edith Piaf, quase sem o discreto chiado que, indefectível, acompanha esse processo de reprodução sonora, porque o disco, tocado pouquíssimas vezes, está “novinho”, manifesta-se a circularidade do Tempo. Tudo poderia virar “presente” nas notas de La vie en rose ou Hymne a l`amour, mas La goualante de pauvre Jean, sem maiores prosopopeias, tem o condão de restaurar magias e alegrias da infância, curiosamente atadas, não à balada de Marquerite Monnot e René Rouzaud, mas à versão que andou em voga no Brasil, na década de 50. Ela nem foi propriamente leal ao original, a começar pelo título, que deveria ter sido A balada do pobre João. Veio “Os pobres de Paris”, mas a gente gostou assim mesmo.


Voltemos à balada, ou a La Goualante du Pauvre Jean (*):

Esgourdez rien qu'un instant
La goualante du pauvre Jean
Que les femmes n'aimaient pas
Mais n'oubliez pas
Dans la vie y a qu`une morale
Qu'on soit riche ou sans un sou
Sans amour on n'est rien du tout

Il vivait au jour le jour
Dans la soie et le velours
Il pionçait dans de beaux draps
Mais n'oubliez pas
Dans la vie on est peau de balle
Quand notre coeur est au clou
Sans amour on n`est rien du tout

(...)

Et voilà mes braves gens
La goualante du pauvre Jean
Qui vous dit en vous quittant
Aimez-vous....


(*) A balada do pobre João

Escutem por um instante
A balada do pobre João
Que as mulheres não amam mais
Mas esquecer, nãos esquecem.
Existe apenas uma moral na vida,
Ricos ou sem um tostão
Sem amor não somos nada

Ele vivia o dia-a-dia
Entre sedas e veludos,
lençóis, os mais finos.
Mas não esqueça,
Na vida nada valemos
Quando nosso coração está em farrapos.
Sem amor não somos nada

(...)

Eis aí, brava gente
A balada do pobre João
Que lhes diz ao vos deixar,
O negócio é amar...


Baladinha do Hospício
 
Nicolau czar, duques, condes, generais
Clero demais, muita ortodoxia,
Revolução? Não, só agitação.
1901, notícia pela ferrovia, de pasmar
O Leão (Davidovich): outro Leão,
Nikolaieivitch Tolstói, excomungado,
Por tergiversar, diziam,
Sobre a Imaculada Conceição,
Mas, alguém acha um prisma bom:
 
“Não dá pra perder para um hospício desses”.
 
Demorou, mas acabou.
Acabou? Não, nunca acaba.
2021, pandemia, novas cepas,
novas idiossincrasias.
Mandam tomar cloroquina,
Ou estricnina, formicida Tatu,
BHC com creolina,
Bom pra chato e carrapato,
Lombriga e ameba, talvez.
Pode também rezar, o freguês,
Pra Santa Felizbina, para a imperatriz
Catarina, pra princesa Leopoldina...
 
“Não dá pra perder para um hospício desses”.
 
E o faceiro do reclame?
Ele quase morreu de bronquite,
Salvou-o o rum creosotado.
E passa, passa, Talco Ross,
quero ver passar. Vacina?
Nem pensar.  O negócio
É deixar a abobra alastrar:
Uma vez morto o rebanho
Não haverá mais pandemia,
Nem ninguém pra se lembrar
Que, um dia, existiu uma “Tabacaria”.

 
“Não dá pra perder para um hospício desses”.

(NM)


 


sábado, 5 de junho de 2021

Tempo de cantar

Quem pôde ouvir a voz de Paulo Autran declamando “Da Profissão de Poeta”, de Geir Campos, em vivenciou, naquele idos de 1965, quando o regime militar ainda não tinha alcançado a plenitude de suas pretensões, um happening inesquecível. O contexto? “Liberdade Liberdade”, de Flávio Rangel e Millor Fernandes. Foi como se o próprio Zeus Tonante quisesse expandir até as esferas altas uma exaltação tão tremenda que tocasse o coração das Musas, mas era puro louvor, louvor apaixonado, à liberdade.

Foi um pouco assim, lembram-se?

(...) Fui chamado a cantar e para tanto há um mar de som no búzio do meu canto.      (...) Se há mais quem cante, cantaremos juntos (**)                                                                                                            

(...) Não canto onde não seja a boca livre. // Onde não haja ouvidos limpos e almas // afeitas a escutar sem preconceito. // Para enganar o tempo – ou distrair criaturas já de si tal mal atentas, // não canto... Canto apenas quando dança. // nos olhos dos que me ouvem, a esperança.

(**) Numa canção que andou em voga em seu momento e em seu lugar, o violeiro Carreirinho cantou que “A moda de um triste assunto // não adianta cantar junto” (...)

Pra que serve o bom e velho Livro da Cabala, senão pra contextualizar incongruências? O que está acima, está embaixo, o que está dentro está fora e por aí vai. Um canta, todos cantam, E pluribus unum. E a Dolores Duran, hem? Pura exaltação do Amor que, como nenhuma outra entidade, potencializa a Liberdade, e vice-versa. “Hoje, eu quero a rosa mais linda que houver // E a primeira estrela que vier // para enfeitar a noite do meu bem”.

Porém, isso de cantar, às vezes, muitas vezes, enfastia, e o sujeito precisa sucumbir ao chamado da Poesia para não perder a perspectiva brechtiana: Nos tempos sombrios, // Se cantará também? // Também se cantará // Sobre os tempos sombrios. (nm)

 Clóvis Salgado Gontijo (*) sucumbe à Poesia, às vezes cáustica, mas asi és la vida Federico:

 

Não dou o braço a ninguém.

Ralentar meu passo para apoiar o velho alquebrado?

Jamais.

Torço o punho e acelero.

Acompanhe-me quem puder.

No meu exército só entram machos.

Aqui os fracos não têm vez.

Tomem suas motocicletas e sigam-me.

Estou farto de frescuras.

Não cubram o rosto, nem sequer com capacetes.

Deem às máscaras outra serventia:

Tampem com elas suas placas,

pois nem todos os meus súditos desligaram

os ferrugentos radares deste império.

Não acreditem, ordeno, que haja algo a temer.

Se ouvirem tossem, gemidos, prantos, sirenes,

aumentem o ronco do motor.

Sejam invencíveis como eu,

como minha prole que reina na garupa,

enquanto ainda me refestelo no trono.

No fundo, sei que meu tempo há de passar.

Assim, que seja profundo o rastro desta devastação!

Deixem-me voar,

deixem-me gozar,

senão da dor alheia,

das divisões que logrei semear.

Eis a minha única conquista.

Acelerem comigo, vestidos de verde e amarelo,

confesso que tenho medo de fraquejar.

A velocidade sobre duas rodas

mascara meu andar trôpego em outros caminhos.

Como todos os homens,

também preciso de um braço,

mas o meu, não o darei a torcer.

Aceleremos juntos,

Sem abraços, sem toques.

Preciso prevenir a solidariedade.

Na comitiva da virulência

É cada um por si

E Deus por todos.

Sim, Deus me livre de omitir,

ao fim de um discurso,

o seu nome acima de todos,

no qual custaria a acreditar

se hoje eu não estivesse acima de tantos.

(*)  Clóvis é professor assistente da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), com dupla formação em Música e Filosofia: cursou bacharelado em Música pela Faculdade Santa Marcelina, SP, e em Filosofia pela FAJE; mestrado em Música pela TCU, EUA e doutorado em Estética pela Universidade do Chile. Entre outras obras, é autor de “Ressonâncias Noturnas”


domingo, 30 de maio de 2021

O entendimento da Natureza.

 (José Daniel Machado)*

Todos os entendimentos que os homens têm da Natureza podem ser agrupados em dois campos distintos e inconciliáveis: 

    No campo A encontram-se aqueles que acreditam na existência de um (ou vários) sujeitos da criação transcendental que, do lado de fora, num dado momento, criou livremente a Natureza e todos os seres que estão nela, visando uma finalidade. Esse criador possui poderes absolutos e, quase sempre, tem forma e sentimentos humanos - é antropomórfico. Senhor dos destinos, ele pode modificar, se quiser, aquilo que ele mesmo criou - milagres. Nesta criação o homem é o centro da Natureza, dotado de livre-arbítrio para uns e/ou é predeterminado pelo criador para outros. Criador e criatura têm relacionamento transcendente. 

    No campo B encontram-se aqueles que entendem que a Natureza é causa de si e causa imanente de todos os seres que estão nela. Neste caso, não existe sujeito da criação. A Natureza se  autoproduz numa ordem necessária segundo as suas próprias leis eternas, gerando, concomitantemente, os seres finitos e singulares que dela participam expressivamente. Estes seres - os homens, por exemplo - têm com a Natureza um relacionamento imanente. 

    Os adeptos do campo A são amplamente majoritários, dele fazem parte filósofos, profetas, teólogos, religiosos e quase a totalidade do vulgo. O campo B é minoritário, sendo constituído de filósofos e cientistas naturalistas, além de poucos elementos do vulgo. Dentro de cada lado, principalmente no campo A, existem inúmeros subgrupos proselitistas que, frenquentemente, entram em conflito sangrento por intolerância, em defesa dos seus dogmas e/ou pelo poder. 

    No campo A a verdade é revelada pelas Sagradas Escrituras e no campo B é buscada pela luz natural - razão. Para os adeptos do campo A a Natureza tem início, fim e, por óbvio, possui um antes, depois e lado de fora da existência. Para os situados no campo B, infinitude e eternidade são propriedades da Natureza; portanto, não há antes, depois e lado de fora. Para o campo A, o homem está no tempo e entra na eternidade ao morrer. Para o campo B, o homem está na eternidade e sai quando morre. Bem e mal são absolutos, substanciais e não se misturam, para os adeptos do campo A. Por outro lado, os do campo B entendem que são relativos; o que é bem para uns pode ser mal para outros. O campo A depende de fé ativa; o campo B depende de entendimento progressivo. 

    Muitos se reconhecem incapazes de distinguir os dois campos e se declaram céticos; por isto suspendem o juízo (decisão). Acham impossível entender plenamente a essência última das coisas. Para grande parte, os dois campos lhes parecem imbricados e, inseguros, colocam um pé em cada canoa. Poucos conseguem fincar os dois pés no mesmo campo. 

    Os adeptos do campo A se sustentam na esperança de encontrar felicidade após a morte junto ao criador, depois de uma vida ascética, piedosa, virtuosa e repleta de orações. Os adeptos do campo B buscam a felicidade no entendimento progressivo da Natureza, da natureza das coisas, principalmente, da humanidade, e da natureza de si mesmo.

Qual o seu campo? 

* José Daniel Machado é economista de ofício, mas é desses cuja compreensão dos fenômenos da Economia e da vida vai muito além do que podem informar as ordenadas e abcissas do diagrama cartesiano e se ele esbarra, verbi gratia,  com a classificação períódica dos  elementos, não se deixar encabular ante tantas valências e possibilidades em meio às desconcertantes disposições de Mendelejev. Agora ele resolveu passear por veredas dialéticas (de Aristóteles), talvez um pouco por aquelas celestiais campinas de Santo Agostinho. Ora, bolsas! Quem conhece o Daniel sabe que ele pode ir a qualquer lugar e voltar com segurança. (nm)

sexta-feira, 28 de maio de 2021

O salto

O Lélio Fabiano dos Santos resolveu contar histórias. Uma que caiu na rede de O&B o blogueiro ocioso resolveu postar.

 - Posso?

 - Claro que pode, anuiu de pronto o velho amigo.

 Então, o blog, alegremente, compartilha “O salto”, pequeno lavor de ourivesaria do Lélio, que anda meio sumido na bruma ingrata desses mares pandêicos, mas vocês podem ver pela foto que ele  mantem-se firme no curso, sobrepujando as vagas com a galhardia e altivez de sempre, quarentenado e vacinado, longe, longe, a Peste e outras procelas. (nm) 


O sol de fim de outono e do começo do inverno no hemisfério sul deveria ser festejado como nas antigas civilizações, com datas para celebrar e reverenciar os astros da galáxia que se enleavam à multiplicidade de seus deuses. Nosso planeta era mais cósmico e parecia relacionar-se melhor com aquela penca de estrelas que nos são apresentadas desde os milhares de séculos até onde os estudos e a imaginação alcançam e que nos iluminam há tantas e quânticas eras.

                      A linda manhã outonal animou Carlos ao passeio naquela tarde, como vinha se prometendo fazia tempo. Ziguezagueou por algumas ruas do bairro em direção da comprida avenida que integra a zona sul da cidade ao centro, que hospedava os primeiros prédios de escritórios e de variado comércio em andares térreos, estendendo-se por galerias, esquinas e casas resistentes ao desordenado crescimento urbano.

                      Tendo percorrido uns dez quarteirões da artéria e já no coração da cidade, deteve-se ante a vitrine da principal loja de departamentos que abrigava marcas nacionais e estrangeiras de moda masculina e feminina no prédio de nove andares. O centro comercial fazia esquina com a igreja ao meio do quarteirão ajardinado amenizando a paisagem e atraindo transeuntes em busca de paz e perdões.

                     Mal começara a passar as vistas pelas tabuletas dos preços dos artigos masculinos afixadas nas peças, escutou a exclamação feminina de seu nome ali bem próxima. Virando-se defrontou a dona da voz. Os olhos nos olhos de um e de outro foram só um pouco mais rápidos do que suas falas:

                      - Caco?

                      - Isa?

                       As reapresentações cederam logo às relembranças de tempos e amores idos, estes possivelmente nem tanto idos quanto aqueles. Lugares morados e ocupações, casamentos e separações, descendências e emoções, alegrias e decepções. Tudo o que na calçada não dava mais para seguir com as reciprocidades levou-os para dentro, até ao elevador e para o terraço da loja de magazines, onde o restaurante panorâmico serviu de cenário para o reencontro dos amantes de antanho.

           Isabel e Carlos juraram nunca mais se separarem nem deixar a cidade que um dia desunira as alianças prometidas, ali na igreja ajardinada ao lado. Pactuaram juntar-se e juntar tudo. Fechadas as contas da mesa e do passado, dirigiram-se para a sacada do prédio. O sol se preparava para o cair da tarde e na cidade acendiam-se as primeiras luzes.

           Carlos e Isabel aguardaram o anoitecer e começaram a contar estrelas, admirando-as. Deram-se um beijo, as mãos e saltaram na direção delas.

           Como eram lindas. Vênus, Marte, Saturno e Júpiter, Zeus de todos os céus.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

A quarentena de Fiammetta, Pampineia, Filomena, Nefile...


(...) tínhamos atingido, já o ano bem farto da Encarnação do Filho de Deus, de mil trezentos e quarenta e oito, quando, na mui excelsa cidade de Florença, cuja beleza supera a de qualquer outra da Itália, sobreveio a mortífera pestilência. Por capricho do Céu ou em razão de nossas iniquidades, a peste que recaiu sobre os homens como justa manifestação da cólera divina, começara havia alguns anos nas regiões orientais, ceifando muitas vidas antes de, incansável, estender-se para o Ocidente.

De nada valeram em Florença quaisquer medidas de precaução. (...) A cidade tratou de limpar a muita sujeira das ruas e proibiu a entrada de pessoas enfermas. Não adiantaram os conselhos sobre medidas de higiene nem as súplicas dos humildes, em grandes grupos, às vezes em grandes procissões, às vezes apenas devotos isolados. (...) a Peste, de extrema violência, atingia os sãos a partir dos doentes sempre que estivessem juntos.

Do grimório de São Cipriano

Aqui, uma digressão breve:  os florentinos acendiam velas, queimavam incenso e rezavam com fervor para tudo quanto era santo e, certamente, teriam recorrido a feitiços e bruxarias de suas antigas tradições pagãs que, na hora de sobreviver, heresia também vale. É provável que, naqueles meados do Século XIV, conhecessem o grimório de São Cipriano, com as orações infalíveis do seu receituário para prevenir ou curar nossos males de corpo, alma e coração, mas não há registro, não no Decamerão, de que a elas tenham recorrido para enfrentar a Peste. 

Tem aquela poderosa invocação a São Pedro para fechar, com as chaves do céu, o corpo e qualquer espírito desvalido a Todo o Mal, áscaris lumbricoide, mordida de cobra e de cachorro doido, coice de mula, lepra e sífilis, phthirius púbis, bicho-de-pé e chulé, bactérias e vírus em geral, o escambau. Em tese, o Demônio – tudo que é ruim, prejudicial, ofensivo, aborrecido, chato, desleal, asqueroso – não poderia penetrar na criatura que a reza do bispo de Antioquia estivesse a fim de defender. “O Demônio não pode mais entrar neste corpo, templo do Espírito Santo. Amém.” Estas palavras concluem a invocação, que deve ser feita à luz de uma vela e, após, o invocador tem de escrever numa folha de papel sete nomes do Maligno: Belzebu, Baal, Belgefor, Astarot, Set do Egito e o Cão da Moléstia. Queimar o papel com o fogo da vela e já está.

Esconjuro, cáspite, vade retro! Para trás, Satanás!

Se funciona contra grandes, médias e pequenas gripes, afecções respiratórias e Covides em geral é mais uma questão de fé, mas, ao fim e ao cabo, mesmo se não funcionar ainda é melhor que cloroquina, porque não tem efeitos colaterais nem quaisquer contraindicações. Viva São Cipriano, viva!

Histórias para distrair a Parca

Giovanni Boccaccio compara a propagação da Peste à do fogo, que “passa às coisas secas, ou untadas, estando elas muito próximas. (...) não apenas o conversar e o cuidar de enfermos contagiavam os sãos: o simples ato de mexer nas roupas ou em qualquer outra coisa que tivesse sido tocada ou utilizada pelos enfermos parecia transferir a Peste.“ O afã de resguardarem-se do contágio impôs todo tipo de quarentena, jejuando e rezando, uns, outros bebendo  e comendo desbragadamente. Mas a mortandade ia assumindo, cada vez mais, proporções apocalípticas. Então, não poucos florentinos preferiam entregar-se a boas práticas de luxúria.

Boccaccio conta, vocês se lembram, como, em clara manhã de terça-feira, na Igreja de Santa Maria Novela quase deserta, o acaso reuniu sete florentinas, Pampineia, Fiammetta, Filomena, Emília, Laurinha, Nefile e Elisa, todas jovens, todas belas. Incontinenti, elas começaram a conversar, a Peste, claro, determinando os rumos da conversa. De repente, surgiram Pânfilo, Filóstrato e Dioneio, rapazes de bom parecer, índole e espíritos os mais excelentes, que aquiesceram em refugiar-se com elas em confortável casa de campo nos arredores de Florença, para não terem de ficar o tempo todo encarando a Implacável.

Como é sabido e consabido, haveriam de entreter-se contando histórias, histórias que o gênio de Boccaccio reuniu no Decamerão, as quais, decorridos mais de setecentos anos, ainda nos confortam e consolam na miséria covidiana de nossa quarentena. Ah, Fiammetta, Pampineia, Nefile!...
Uma demasia de dias santos

A gente abre ao acaso o Decamerão e vêm aquelas histórias saborosas, em que, por exemplo, um folgado se finge de surdo-mudo para ter acesso privilegiado a um convento de mulheres; noutra, uma mulher de muita presença esconde o jovem amante num tonel e livra seu marido do constrangimento de um flagrante de adultério... Bálsamo para o espírito reler a décima novela da segunda jornada do grande livro de Giovanni Boccaccio, em que a doce Filomena conta como Ricardo da Quinzica, pisano podre de rico, porém velho, teve sua jovem esposa, Bartolomeia, sequestrada por um pirata.

O sujeito submetera a mulher a um complexo calendário de festividades religiosas, às quais acrescentou muitas sextas-feiras, sábados, domingos do Senhor, a quaresma inteira, em que homem e mulher deveriam abster-se de qualquer tipo de contato um com outro. Ele descobriu para onde o pirata a levara e foi ao resgate disposto a pagar qualquer quantia. Paganino da Mare, o pirata, recebeu-o com cordialidade e aceitou devolver Bartolomeia sem cobrar nada, desde que ela quisesse ir com ele. Ela não quis de jeito nenhum e ironizou o grande conhecimento de dias santos, jejuns e vigílias de seu antigo marido: – Se os trabalhadores das suas terras observarem tantos feriados como os que impunha ao cultivo do meu pequeno jardim, o senhor não haveria de ter um único grão de colheita.

Aí ela tripudiou de vez: – Daquela porta para dentro, neste quarto, não tem isso de sexta-feira, nem vigília, têmporas ou quaresma. Dia e noite, aqui se trabalha e a lã se fia (...)

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Resistir na Arte


Rosa Antuña

Como foi que comecei?
Hummm! Ouvindo Clara Nunes quando era bebê (Obrigada, mãe!). Depois ouvindo aqueles disquinhos de histórias infantis (na hora de dormir), cheios de bom português e músicas excelentes! “Banana” foi a primeira palavra que escrevi, após ter aprendido a ler sozinha, movida pela angústia de pensar que havia coisas à minha volta, combinadas em códigos que eu não compreendia! Desde então, escrevia sem parar. Mas antes de escrever já coloria, desenhava, pintava. Sim. Foi aí que comecei.

Cores no papel. Depois palavras. Depois as histórias criadas com os brinquedos, com toda uma dramaturgia. Depois os teatrinhos onde eu era atriz e era diretora. Só então veio a dança, aos seis anos, e ocupou quase tudo. Estudava ballet clássico, mas, em casa, imitava Michael Jackson dançando. Com catorze anos os poemas vieram reivindicar seu lugar. A música veio aos vinte e dois: maracatu, coco. Com vinte e três a pintura voltou com força total. A Dança sempre.

Mas os textos, poemas, pintura e música iam-se revezando em períodos. Veio a primeira coreografia aos 26 anos. E assim estou até hoje. Dança, Teatro, Música, Poesia, Canto, Dramaturgia, Pandeiro, Coreografia, Pintura. Por aí vou seguindo a vida.

Por que estou falando isso?

Porque Arte é resistência. 

O cachorro e a Fonte


Era uma vez um cachorro maltês que, em manhã de domingo, ensolarada, insólita manhã, buscou refresco e amparo em Fonte clara, no burburinho da Savassi. Ante brancura tão nívea, confundiu-o com Narciso, a clara Fonte, e mimou-o com prendas ternas de águas transparentes, seus frescores, os melhores.
Não vou deixar que morra outra vez.

Feito o cigano do romance de Lorca, o cachorro portou-se como o maltês que era. Só não dá pra saber se não terá cismado se não era casada a Fonte que o mimava. Apenas bebeu. (nm)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Flores, flores, e rios de dor e desolação


Não é longo o trajeto a percorrer desde a Rua da Bahia, pela Rua Antônio de Albuquerque, até a Rua Paraíba, passando pelo cruzamento mágico de ruas e avenidas que os mapas da cidade assinalam como “Praça Diogo de Vasconcelos”, para a gente de BH, apenas de Savassi, nome de antiga padaria que existiu por ali. Quatro ou cinco quadras não são muita coisa, mas a expectativa do chope gelado e bem cortado do Café Três Corações ou do Gujoreba, do pescado do Baiana do Acarajé, entre outras possibilidades daquele entorno, dá uma medida da intensidade dessa passagem feliz. No entanto, o passeante deve manter o espírito, senão atento, pelo menos aberto à poesia circunstante. Florada de muitos tons nas quaresmeiras dos passeios; nas floreiras do calçadão isento de tráfego dos quarteirões fechados, inflorescências de um azul tão suave que enternece o próprio céu e o verão. Na branda contemplação, a memória acolhe, fácil, uns delicados florais de Juan Ramon:

Hoy que se abrieron esta tarde // las rosas de tu rerraza (...)

Entre Levindo Lopes e Sergipe, ergue-se elegante e majestoso pau ferro na direção do céu alto, como se disposto a tocar com sua ramagem verde-escuro, lá em cima, o azul dipinto di blu. Deferência da flora, dignar-se uma árvore dessas a enfrentar conosco as vicissitudes de nossa cidade. Antes que alcancemos a praça propriamente dita, outro monumento, o gigantesco cedro “sete barbas” que sombreia o bronze em tamanho natural do escritor Roberto Drummond contemplando, comprazido, buliçosos ires e vires. Poema vegetal, catedral? Por pura implicância, há alguns anos, a árvore teria sido posta abaixo, não a tivessem defendido bravamente. Ela continua lá, exuberante, impávida, colosso(?), para sempre. Valeu a indignação. Irrelevância? Não sei não. Potencializada a uma escala apropriada, a mesma indignação pode, quem sabe, salvar os rios que estão morrendo e mesmo os que já estão mortos, à espera de uma chance para ressuscitar, e as florestas, o cerrado e tudo o mais.

Flávio Friche, meu irmão! Desistir de nossos rios, abandoná-los? Não. Eis livrá-los de toda lama tóxica, o Rio Doce, o São Francisco, o Paraopeba, e Mariana, o Brumado e, quem sabe, ó, esplendor de ouro e prata, o sonho de piracema em águas ligeiras, límpidas, se escapando do Fecho do Funil! A hora é de espanto e desolação. Como nos versos premonitórios de Eliot (*), anteriores aos massacres de Nanquim, a Guernica, ao Gueto de Varsóvia, a Auschwits, à bomba atômica, aos bombardeios de  Hanói e Haiphong, anteriores, também, é claro, ao descaso, indiferença e ganância da mineração devastadora.  Deixar para traz a planície devastada, o travo de absinto, não tem jeito: “A Ponte de Londres está caindo caindo // Poi s`ascose nel foco gli affina // Quando fiam chelidon – Ó andorinha andorinha (...) com fragmentos tais foi que escorei minhas ruinas (...) Shantih shantih”  (nm)

(*) “A Terra Desolada” (The Waste Land) - 1922

"ESTAS MUITAS MINAS"


Num sábado de sorte, na Rua Antônio de Albuquerque, a gente esbarra por acaso com a poeta Angela  Leite de Souza, autografando os versos de “ESTAS MUITAS MINAS” (Prêmio Casa de las Américas, Havana, 1997), que que acaba de relançar em requintada edição da Miguilim, no calçadão da Livraria da Rua. Para quem estava atrasado para o chope concertado com amigos, foi só cumprimentá-la de longe, porque a fila era grande. Na volta, ao passar pela livraria, o calçadão estava vazio, todos tinham ido embora.

Decorridos uns dias, porém, o correio  Inspiração e sensibilidade mais admirável habilidade e engenho na realização dos poemas sem, em momento algum, escorregar pela ladeira fácil dos estereótipos.  A leitura não pode ser mais prazerosa: emoção, sim, porém com muito comedimento; a graça, muita, é só pra sorrir, nada de gargalhadas, e as tristezas, na poesia de Angela, vêm como um travo discreto, sem exasperações nem exacerbações desesperadas. Cada poema, perfeita metonímia desse estado de espírito esquisito, misterioso, enigmático, indecifrável, não para Angela, chamado Minas Gerais.

generoso trouxe o livro. Isso de receber poesia em domicílio é bom demais. Aí, foi reler com gosto cada poema, apreciar a ourivesaria sutil com que Angela captura nuances recônditas, intangíveis, da alma de Minas (?).

Só pra compartilhar, num poema saboroso a ideia de que embarcar numa estação mineira não é tão simples quanto parece. É bom que a gente não se esqueça de que um trem é uma coisa e vice-versa:   

Perdi o trem
e o medo
de perder,

Perdi o trem
e o medo
de perder
trens.

Perdi o trem
e o medo
de te perder.

Perdi o trem
e o medo
de te perder,
trem!

Perdi o trem
de medo
de te perder.
(nm)