terça-feira, 12 de dezembro de 2023

De Laci, a um "pato ao tucupi"

Alto, magro e resseco, lembrando, tão esguio de compleição, um guerreiro da nação Watusi e, quem sabe, até tivesse mesmo ancestralida-de entre antigos povos da África Central: Laci alegrava torcedores do Galo no final dos anos 60 com dribles de pura magia e muitos gols. Com simplicidade genuína de jovem sem muita instrução, nem suspeitava que seu sucesso de futebolista pudesse incomodar. Qualquer iniciado na Cabala pode entender que a distância entre Belém do Pará e Belém da Judeia não é tão grande assim, menor, talvez que a malícia, o intuito de depreciar, o racismo enrustido. Não foi só por diversão que espalharam aquilo de “estou muito feliz de jogar na terra onde o Menino Jesus nasceu” ou atribuíram ao craque o ter dito que “Comigo ou sem migo, ganha o Galo”.

Esse tema não viria à tona, nem mesmo neste sempre ocioso O&B, não fosse uma questão pronominal prosaica, mas sempre é preciso defender a Língua Pátria. Foi suscitada em juízo por ex-juiz que virou senador da República: “O valor não corresponde aos gastos feitos especificamente com mim (sic)”; “abrangem outros indivíduos que não só mim”? Ufa! Parece tratar-se de um idioma próprio, pessoal, exclusivo, idioleto cujo léxico já registra o substantivo “conjo”, forma meio esquisita, mas até elegante de ”cônjuge”, quem não se lembra? Aqui, vemo-lo como se ao  influxo da linguagem dos pele-vermelhas de gibi, embora hoje em dia nem nos quadrinhos índio adulto use mais, só criança, piá, curumim...

Para o blog ocioso, de repente esse impulso de expressar na nova nomenclatura o repertório anedótico do Laci: “Com mim ou sem mim, cara-pálida, pato bom é ao tucupim”. (nm)

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Olavo Romano, sempre bom da gente lembrar

Os amigos, tantos que nem dá pra contar, compareceram à sede da Academia Mineira de Letras para se despedirem do Olavo Romano, arrimo e amparo da arte, tão cara em Minas Gerais, de contar histórias, histórias e mais histórias, que ouviu em sua casa, em sua infância, ou colhidas nas andanças por este mundo. Muitas ele mesmo inventou, porque inspiração nunca lhe faltou. O grande contar de histórias foi-se embora sem maiores prosopopeias, simplesmente foi indo, foi indo... Que perda, a do Olavo Romano! Mas será que foi mesmo tanta? Tantas são as lembranças dele, de suas histórias, de sua conversa sempre bem-humorada, de sua prosa (Que conversador magnífico o Olavo!) que a sua presença não é dessas que se desfazem assim, sem mais. Não é a perpetuidade dos afetos que eterniza os homens bons?

Bom. Sua irmã Alcéa mandou “banner” que compôs para lembrar seu irmão, lembrança boa, alegre, comme il faut , em se tratando de Olavo, e este O&B se alegra em o texto e foto para homenagear o querido amigo que foi embora. (nm)






Olavo Romano

✱06/09/1938

✟16/11/2023



Olavo contou caso novo,

e de novo, inovou.

Falou do tio, da mãe, do avô.

Dos netos e dos filhos do senhor Nonô.

Do tempo, da vida,

da graça, da praça, do povo, da Vila.

E o semblante de todos abrandou.

As palavras, as letras, a fala, abraçou,

Buscou, perguntou,

conversou, se entregou.

Recebeu, agradeceu, repartiu,

ofereceu este dom como prece.

Buscou nas estrelas,

o que aqui não encontrou.

Partiu pra mais longe.

No plano Divino,

foi refazer sua história.

E nós aqui, coração batendo

e guardando o Olavo na memória.

(Alcéa Romano)


domingo, 10 de setembro de 2023

Bares, bares, bares e sempre-vivas

É. Belô não tem mar. Não tem não. Mas tem bar, muito bar, tanto bar que só cê ven`, pra todo gosto, em todo lugar. A gente precisa escolher, definir preferência de antemão pra não ficar confuso. Estabelecer exclusividades é ocioso, mas é bom considerar a questão a partir de uma lista mais restrita antes de seguir adiante. Bares, os melhores, são entidades vivas, com as quais as interações afetivas são naturais e inevitáveis, determinadas, no mais das vezes pelos garçons. No antigo Jangadeiro, na Rua da Bahia, pontificou, em seu tempo, o excelente Protásio; na esquina de Sergipe com Timbiras o nome do estabelecimento foi vencido pela solicitude e gentileza do garçom e ficou mesmo Bar do Chico; a Cantina do Lucas, na galeria do Edifício Maletta ainda guarda memória viva do seu Olímpio, mitológico garçom. Na Savassi, Ivan e Jorge dão o tom ameno e cordial do Gujoreba; Márcio, o maitre, faz as honras no Redentor.

 O Tip Top anunciou que sairá de seu tradicional endereço na Rua Rio de Janeiro, expulso pela especulação imobiliária, uma pena, mas outras portas abrem-se para velhas confrarias que cultivam e cultuam grandes e pequenas celebrações etílicas, em libações que sustentam a sempre inconclusiva e interminável conversa fiada, fonte de alegria e saber, sal da vida. O recém-aberto Esquina Santê (Divinópolis com Silvianópolis) tem o clima de Santa Tereza, muito acolhimento e aconchego. E tem Mirtes, cantora, e Sílvio Scalioni, líder do Boca de Sino, banda prestigiosa e querida, o repertório de final dos 60, 70, 80 etc: 

Menina linda eu lhe adoro, ah,

Menina pura como a flor, oh, oh, oh,

Sua boneca vai quebrar, ah, ah, ah,

E tem o Bar do João, na Rua Tomé de Souza, entre Pernambuco e Getúlio Vargas, que virou malhadouro dos velhos jornalistas que afluem às mesas enfileiradas em sua calçada nas noites da primeira segunda-feira de cada mês. Às vezes, até uma ou outra história de jornalismo na conversa, que é fluida e variada ao longo da noite. João, o dono do bar, é natural de Diamantina, a estrela mais brilhante do Espinhaço, o que impõe certas obrigações, como a de distribuir pequenos feixes de sempre-vivas às damas que prestigiam a tertúlia. Isso pode suscitar reminiscências antigas, como as que remetem a um jovem que achou de exorcismar amargor de amor com umas redondilhas toscas, tola impaciência. Era preciso esperar, esperar o rodar do mundo e do tempo: podia ser nas patas do cavalo do vaqueiro de Geraldo Vandré ou na roda viva do Chico Buarque, mas rodar, rodar, enfim, rodar...

O disco solar plasma no tédio sideral do final das eras, acetato cósmico, a setenta e oito rotações por minuto, um tango daqueles mais doloridos ou uma canção de Antônio Maria, que também dói. (nm)


CAMPO DE MINAS


fui passear com meu amor 

num lindo campo de minas.

doce é rolar na grama

com a mulher que se ama.

cantarolando ária alegre,

foi colhendo sempre vivas,

 

as cores, todas, do espectro,

levando em mãos de menina,

as formas caleidoscópicas

davam-lhe ares de ninfa.

nos longos cabelos negros,

brilhando, gérbra amarela.

 

erguido feito uma tocha,

o bouquet resplandecia

ao sol e ao sorriso dela.

veio, então, a explosão:

BUMMMM!!!!

chuva de pétlas, miúda.

 

Rib. Preto/68 (nm)

quinta-feira, 9 de março de 2023

Panta Rei, o rio de Heráclito e os nossos rios

Noite de muita chuva. No Sudoeste do mundo, manhã cinzenta, céu indeciso: mostrar uma nesga de sol, desandar em chuvarada... Contemplar o alto despojado! Monotonia sem fim. Onde, as cores do dia?  Algum mistério há, talvez muitos, desde a sombra ausente de um pé de embiruçu despido da folhagem exuberante e das flores esplêndidas. A tempestade veio cruel no começo da estação. Sobrou uma garatuja de galhos secos projetada contra o firmamento plúmbeo, traços pretos em caótico desalinho, como runas de misterioso significado contra a abóbada embaçada.

Alarido alegre, de risco em risco, silhuetas aladas maritaqueiam. Hieróglifos em movimento, vivos, à espera de algum champolion que os decifre, quem sabe uma cigana experimentada para extrair deles o que nos reserva o futuro. Não sabeis? Os textos fluidos revelam ritmos que a roda do Tempo caprichosamente esconde, escancaram correspondências que o Universo às vezes só mostra aos profetas e a um ou outro poeta: Panta Rei, o rio de Heráclito, o Rio de São Francisco (corre de noite e de dia), o córrego da nossa infância que, de vez em quando, ainda rumoreja no coração. Tudo flui.

Fluem a lua, as estrelas, a Noite não cessa nunca. O Cosmo flui, desabrido, em todas as direções, e será deste modo até esvair-se na grande escuridão dos tempos: inscrições nas tumbas dos faraós, Ramsés; oráculos devastadores, Omar Khayyam, Baudelaire... Fluem as sombras escuras dos galhos de uma árvore morta. Irrequietos psitacídeos agarram seu fragmento ínfimo de eternidade e, por um momento, incorporam o Estro universal e convertem-se num pequeno poema elegíaco por um mundo que, para sempre, está sendo deixado para trás ou, apenas, indo embora depressa.

(NM)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Tânio e Paulinho Camargo, o Nuctemeron

Quando a torrente do Tempo se desata, o melhor é deixar rolar. O blogueiro queria só enviar um exemplar de “Asas de Bolero”, pequeno volume que publicou há dois ou três anos, para Litai, filho do companheiro de juventude intensamente compartilhada no agito da Ribeirão Preto da segunda metade dos anos 60, o poeta Tânio Cintra e Oliveira, que preferia firmar seus poemas com o descansado pseudônimo de “Marcos Tranqüilo. Fossem quais fossem as vicissitudes de sua vida às vezes tumultuosa, não se exasperava. Foi-se embora no começo dos anos 70, num acidente banal de automóvel.  

O blogueiro conheceu o Litai e seus irmãos quando eles eram crianças, a Cidinha, mãe deles, muito jovem, na casa da Rua Constantino Spiropoulos, no Bairro dos Campos Elíseos. Seu nome remete ao de Li Tai Pó, o grande poeta chinês que, no arroubo de um tremendo porre, tentou alcançar, em noite clara, a Lua no espelho de um lago. Afogou-se, como a Ismália de Alphonsus Guimaraens, que deixou-se cair de sua torre na água, quando enlouqueceu. Seu irmão Camilo, como aquele Cienfuegos de quem ganhou o nome, morreu precocemente. Inaê, Tassiane, Nikê e Lorelai, suas irmãs: vivo louvor, águas, venerandas entidades. Litai mora em Franca, Noroeste de São Paulo, e foi o Paulo Sérgio, que exerce Medicina na cidade, quem mandou seu endereço eletrônico, a primeira possibilidade em mais de cinquenta anos sem qualquer contato.

Ele acolheu o livro, com as referências afetivas ao Tânio e à rapaziada, às moças também, que a confraria do Varal congregava à sombra de duas grandes figueiras na Praça XV, em Ribeirão Preto: o grande Leopoldo Limas esticava o arame em que pendurava suas pirogravuras. O bulício que formava vinha por conta própria. Litai pediu fotos do Tânio. O blogueiro não tinha. Então pediu ao Edinho (Edson José de Senne) também poeta do círculo do Varal que mora em Ribeirão Preto. Ele recorreu ao Fernando Braga, que é da paróquia, e ele mandou uma foto ótima, que chegou sábado à noite, por e-mail, muito bem-postos, da esquerda para a direita, Paulinho Camargo, Luís Leme Franco, Tânio e Laudelino Pires.

Na manhã de domingo o Edinho telefonou para dar a notícia da morte do Paulinho Camargo, presença querida e constante no Varal, onde começara a construir sua trajetória de grande pintor. Ô, meu irmão! Muita saudade.

Em 1967, sentado num banco de granito da Praça XV, à sombra dos grandes fícus que
sustentavam o arame, o Tânio acabara de compor o NUCTEMERON
(Poema Místico das Horas), que se atem a analogias e imagens do próprio poeta, não é remissão de verdade à obra do filósofo capadócio Apolônio de Tiana, o que o título poderia sugerir. Ali mesmo, tratou de transpô-lo para uma grande lâmina de cartolina, usando uma reles caneta esferográfica que o Paulinho Camargo ilustrou a bico de pena, praticamente num único transe. Depois, deu o poema ilustrado de presente ao blogueiro, que o guardou como pôde, mas a cartolina não aguentou os anos (muita chuva, sereno demais) e praticamente se esfarelou, mas o Ricardo Crepaldi fez um pequeno milagre e temos uma cópia.

Em 2013 este O&B postou o NUCTEMERON, no afã de registrar um momento bom do Varal. Agora, em homenagem ao Tânio e ao Paulinho Camargo.

 

O Nuctemeron - (Poema místico das Horas)

 

Na Primeira Hora:

 

Há possibilidade de todos os demônios

E os feiticeiros também,

Depois da terceira pinga,

Virem cantar cantigas de ninar

Com a voz plena de verbenas,

Para adormecer o recém-nascido

Ou empinar papagaios

No céu azul de Mitilene.

 

Na Segunda Hora:

 

Sisera e Torvatus são amigos e se prostram

Sob os grandes pés de Baglis, o Equilíbrio,

E de Hizarbim, gênio dos Mares,

Porque de duas mãos e dois pés,

De olhos em número de dois,

É a Harmonia

As serpentes estão em colóquio amoroso

Com os peixes do signo zodiacal

E, sobretudo, há um homem e uma mulher.

 

Na Terceira Hora:

 

A tríplice güela do Mastim de Hades

Faz saltar o fogo da vida,

Embora a morte que ronda a parturiente.

O temor é esguichado como o sangue

Que foge de suas entranhas

E, morto Zaroby,

Fica definitivamente constituída

A Santíssima Trindade.

 

Na Quarta Hora:

 

A Perfeição chega e toma forma:

É a figura humana em cruz,

Com quatro pontos cardeais.

Deus a envolve num círculo

E amarra em cada ponta

Um pedaço do destino.

No Norte está preso o Juízo,

No Oeste a Fornicação,

Do outro lado, quatro damas do baralho,

Cada qual de um naipe diferente

E, no Sul de tudo isso,

Ele calça com sandálias franciscanas

Seus pés muito brancos e bonitos.

 

Na Quinta Hora:

 

As Grandes águas se unem

E, dos passos de Suphalatus

Erguem-se o pó e a Liberdade

Que, com cinco copos de veneno,

Faz morrer quem a bebeu.

 

Na Sexta Hora:

 

O espírito fica imóvel e sem temor

E os monstros infernais

Mordem a quintessência,

Pois Haatan escondeu os tesouros

De Zaren, gênio vingador

E Adão faz desfilar os animais paramentados,

E a cada um dá um nome de batismo         

 

Na Sétima Hora:

 

A mulher, que é neta e avó de Deus,

Foi gerada pela vontade do homem puro,

O encantador de serpentes,

O que abre todas as portas,

E nasceu só para ser amado.

 

Na Oitava Hora:

 

Amarradas estão as pontas de uma estrela a outra

E desta, a outra, assim, num grande círculo.

O Sol tem em seu colo uma andorinha

E lhe fala ternamente, às vezes concupiscente.

Os tesouros, as escrituras e os mistérios

Podem ser comprados por qualquer mago

Ao Sr. Zoroastro, da venda da esquina,

Por um dólar americano e 25 cents.

Adão e Eva vão para a "suite" presidencial.

São dois quando se deitam

E quando se levantam são quatro.

Na porta ficou o cartaz: "Don't disturb".

Dentro, as baratas voam no quarto escuro.

Ao pé do elevador, 8 filhos os esperam,

Pois inflação tem dessas coisas.

 

Na Nona Hora:

 

Três vezes três,

Os mistérios do número nove

Não devem ser revelados.

E escolha é irrevogável,

Pois o fogo queimará a língua dos ladrões.

 

Na Décima Hora:

 

A Kabala nos fala

Do movimento circular da vida dos homens

E, separado o zero da unidade espoliada,

Fica o nada ou a morte.

As cortesãs da Pedra de ônix

Amam, nesta hora, os sacrifícios de crianças

Com a cupidez dos cães e dos profanos.

 

Na Undécima Hora:

 

As asas dos gênios se agitam.

Eles voam de uma esfera a outra

Com um ruído muito esquisito,

Levando pentáculos e simpatias,

Condenados que foram ao trabalho

Pelo Hierofante, que muda em talismã

Os gorjeios dos oráculos.

 

Na Duodécima Hora:

 

As formigas roem o mundo cadavérico

E os pingos da torneira furam o ferro.

Tarab, gênio da Concussão,

Bebe vodka nos vasos sagrados;

Misram, gênio da Perseguição,

Se enfada nas mesas do rei Édipo;

Labus, gênio da Inquisição,

Corre atrás do favor dos grandes.

Mas, há um Libertador prometido,

E se realizarão, pelo fogo,

As obras da eterna luz.

 

   Rib. Preto, agosto 67

    Marcos Tranqüilo

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Roteiro lírico, geográfico e sentimental da estante do Ismael Antuña

 O Clube do Livro Aberto – CLA sofreu baixas irreparáveis neste ano de 2022, a mais recente, do Flávio Friche, que foi embora no começo deste mês. Em meados de agosto já nos havia deixado Ismael Barreto Antuña, depois de haver enfrentado insidiosa enfermidade com sua habitual bravura. Enquanto ele esteve conosco cultivou com apreço e generosidade as melhores possibilidades da nossa confraria etílico-literária, cujas tertúlias sempre acolheu com alegria e entusiasmo em sua casa, no espaço cultural “No Pasarán”, assim batizado em homenagem a Dolores Ibarruri, a Pasionária, onde os convivas do CLA, em mais de uma ocasião, foram privilegiados também por muitos refinamentos gastronômicos de Denise. 

Quem viveu as sessões do CLA, intermináveis, teve oportunidade de desfrutar da conversa rica, bem-humorada, alegre, que seu espírito superior jamais sonegou a quem quer que fosse. Sonegar, mesmo, ele sonegou seus escritos, que ainda estariam guardados se seu filho mais velho, também Ismael, não tivesse repassado a este O&B o poema “Roteiro lírico, geográfico e sentimental da minha estante” e umas confissões/revelações que ele consignou como “Algumas notas sobre o autor, que ocupa o honorífico e bem remunerado cargo de Primeiro Ministro Permanente do Clube do Livro Aberto”. O título pomposo foi-lhe outorgado pela autoridade do Flávio Friche e, por pura diversão, ele incorporou. Excelente a remuneração do CLA ao ministro, porém, meramente afetiva.

ESTANTE (I)

Na minha estante só habitam

Santos e Indignados

España em Llamas

Rua da Bahia 884.

Guarda também mapas das ruas das cidades do mundo,

da República Socialista Popular de Belo Horizonte,

dos Estados Unidos da América do Norte,

das Europas y

Astúrias.

Oviedo, Detroit, Amsterdam

e de Madrid.

Aonde vais José?

José Ribamar Ferreira Gullar vomita seu poema sujo de azul

e cavalga los caballos del pueblo:

“A galopar, a galopar,

hasta enterrarlos en el mar”

Uma garrafa de vinho vazia compõe a natureza morta

em minha estante.

ESTANTE (II)

Pela manhã é a melhor hora para se arrumar a estante.

O livro sendo tocado,

trocado de lugar.

E também aqueles pequenos objetos espalhados pelos vãos:

O touro de veludo

(todo corazón arriba!);

O avião de plástico

(que bom! de asa quebrada);

a bandeira.

Afasto um santo de barro da frente de Drummond

(que suspira aliviado)

Arrumação feita,

agora Vinicius conversa com Neruda,

que conversa com Federico,

que conversa com Emílio,

que conversa com Machado,

que conversa com Vinicius.

Drummond me manda uma banana.

Algumas notas sobre o autor, que ocupa o honorífico e bem remunerado cargo de Primeiro Ministro Permanente do Clube do Livro Aberto

Montanhês, nascido em Belo Horizonte, no bairro Bonfim, filho da Rua da Bahia com a Imprensa Oficial.

Ali passou a infância, na fronteira com a Lagoinha, e também na rua Guajajaras, cercanias do Mercado Central. Cursou o primário na Escola de Aperfeiçoamento (entra burro e sai jumento). Antes, aprendeu a colorir com a D. Alice Santiago.

Mais tarde, a família migrou para a Barroca. Foi aluno do Colégio Marconi, do ginásio ao científico, onde punha fogo (literalmente) em salas de aula, nadava e jogava futebol.

Apaixonadíssimo, namorou uma moça (por codinome Denise) durante dez anos. Namorava no centro da cidade – quadrilátero formado pelas ruas Carijós, Curitiba, Tamoios e Av. Paraná – em meio a bondes, transeuntes, procissões, vãos e desvãos de prédios e vitrines, compondo, sem saber, uma lírica e singela poesia urbana.

Casou e gostou. Tanto é, que está casado até hoje. Mas continua namorando a Creusa Denise.
Tudo o que sabe, o que não é muito, mas também não é pouco, aprendeu no balcão da Charutaria Flor de Minas e lendo Monteiro Lobato.

Tido por muitos como advogado, por outros como coronel (da reserva), e por alguns como professor (de matemática e de línguas), até por pastor (de almas), no entanto é engenheiro diplomado. A Cemig pode confirmar.

Na realidade, o que ele queria mesmo ser era engenheiro naval, talvez influenciado pela Emilinha Borba cantando “Cisne Branco” (Qual cisne branco em noite de lua, vou navegando por mar azul...) ou mesmo por sempre ter sido chegado a um risoto de camarão, lulas en su tinte, paellas marineras e que tais.

Passou os cinco anos do curso de engenharia em amenas conversas com diletos e irresponsáveis colegas, entre eles, Nelson Bochechinha, Marcus Vinicius Lopes e Adailton de Alcântara Ferraz – o Francês, conversas sobre cálculo matricial, futebol, política, graças femininas, geometria descritiva, cinema, literatura, pintura, hipérboles e parábolas, pelos diversos bares e cafés da cidade – Paxá, Gruta OK, Elite Velha, Tip-Top. É desse tempo a questão – sem resposta até hoje – “Paralelas se encontram no infinito. E corações aflitos, muito aflitos?” Saudade – como diria Pedro Nava.

Já foi gago, mesário em eleições federais, estaduais e municipais. Pedro I em teatrinho escolar, aluno de piano. Sem traumas.

Fez análise freudiana, porém nunca deitou no Divã de Tamarit. Antes da análise tinha medo do anoitecer, da chamada Hora do Angelus. Hoje é louco por happy-hour. Gosta de beber, não tem importância se sozinho (que no seu caso é com uma verdadeira multidão). Naturalmente whisky (com gelo e água cristal).

Místico de carteirinha, reza e acredita em Anjos da Guarda. Aliás, acha o seu de primeiríssima qualidade.
Torce pelo Botafogo (há mais de 50 anos) e considera o fato uma de suas poucas verdades verdadeiras.
Acompanha o Partidão desde 1955, e continua acompanhando, solidário com “Seu” Olímpio e com Oscar Niemeyer.

Por fim, diz que repetiria tudo o que fez na vida, porém com mais coração, mais Arte e menos siso.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Breve fabulação mais ou menos romântica

– O Grande Pã está morto!

– Jura?

 Do-ré-mi, do-ré-mi, do-ré-mi!!! As esferas escapando-se para a escuridão gélida de lonjuras sem fim. Do-ré-mi, do-ré-mi, retalho de harmonia, vibração ínfima lá longe entre as esferas se escapando que, nem de leve, tocará o espírito dos deuses ou os corações dos homens nem quaisquer sonhos de amor e liberdade que tenham tido. Exorbitado cometa se estrela feito ovo na frigideira contra a Lua, fragor de muitas águas, sideral clarão, prenunciando o Caos Primordial prestes a irromper. 

Em grande desorientação, as Parcas dão voltas em volta da Grande Fogueira da Desordem, mariposas em volta da lâmpada de Adoniran. É menos que metafísico, isso, mas não poderia ser mais aterradora a perspectiva: nada mais para morrer, nem homens nem deuses, nem peixes, nenhuma planta ou animal, todos os espíritos, os bons, os maus, todos mortos. Em lágrimas, elas antecipam a morte da Morte, desmanchando-se em lamentações de verônica: O vos omnes qui transitis per viam...

Nunca mais o azul, nunca mais; flores brancas e violetas dos manacás, nunca mais! Vê-se logo como se assanha o corvo de Allan Pöe. As Fiandeiras conjeturam sem grande consenso sobre o Não-Tempo que se avizinha e apenas tangenciam o Não-Nunca, assim mesmo como impossibilidade. A Parca mais velha:  – Que extravagância! Tempo, Não Tempo, disco! A roda... O Nunca e o Nada para Sempre? Nada e Não-Sempre, hem? Difícil, muito difícil, dialética mais esquisita!  Todos esses paradoxos...

Em devaneio, a mesma Parca: – Não pode ser que em alguma vastidão esquecida pra lá do Cosmo emerjam, de devastador encontro de galáxias, Tempo e Espaço em limitada circunscrição suficientes para o brando ressoar da flauta do Grande Pã? Do-ré-mi, do-ré-mi... Não, não, amigas. Pouco importa que vacile a Eternidade dos deuses se o cataclismo revelar a Grande Cona do Universo para que dê à luz a própria luz do dia, o esplendor da noite, a rubra Aurora, um Planeta azul tal qual o de Gagarin e esplêndida Lua, quatro quartos de sombra e luz, cada um com seu mistério.

Águas, mares, animais grandes, pequenos; em rios encachoeirados, cambevas escorregadias, lambaris, muito peixe em pacatas lagoas verdes; borboletas azuis no escuro de florestas que, talvez, gnomos de orelhas grandes habitem; claros jardins, rosas de muitas cores, néctar, mel, abelhas a zumbir; sanhaços e jabuticabeiras no frescor de altos pomares e, sem descanso, cigarras, o canto chiado;  tzzziiiiiiii-tzzziiii. Os homens, ah, os homens, aptos alguns a instituírem-se em demiurgos e hierofantes para, com recém adquirida consciência da morte, criar novos deuses e erigir seus templos. 

Que, então, a flauta outra vez ressone! Do-ré-mi, do-ré-mi...

Diante da roca: – Até lá, não estaremos todas mortas, de  tédio?

Lançam-se elas três na Fogueira da Desordem e se deixam incinerar.

(NM)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Intempestivo, Flávio Friche foi embora

Ao retornar de pequena viagem, no início desta semana, Danilo Andrade, amigo do blogueiro deu a notícia: – O Flávio... você está sabendo? Claro que não está. Pois é. Nem deu pra lamentar. Permaneceram em silêncio por um tempo, o da reverência, antes de poderem falar da convivência com o grande amigo. Flávio, às vezes, deixava, de propósito, passar a impressão de uma imaginação delirante, mas era de uma lucidez meridiana, que iluminava quaisquer temas que se propusesse a abordar. Como redator, impressionante: podia encher uma página standard de jornal numa única sentada diante de uma “Remington” mecânica. O livro “Escritores Famosos e Autores Anônimos”, que publicou sob o pseudônimo de “Yamanes Gorri”, é leitura edificante e prazerosa.

Como jornalista de ofício e vocação, trabalhou para grandes e pequenas publicações, sempre com
apreço à palavra e à verdade, que não descurou nem nas mais jocosas abordagens a que se permitia nas tertúlias do Clube do Livro Aberto – CLA, que ele inventou e nutriu com espírito generoso e brilhante. Éramos jovens, e Flávio sempre lúdico diante da vida: soube, desde sempre, Schoppenhauer também sabia, que a alegria é o melhor que podemos almejar e cultivou-a mesmo em situações adversas. Felicidade? Não, ele nunca pensou nisso. Contentava-se em levar a vida contente. E levou até o fim.

O CLA? Bom, o CLA nunca passou de uma pequena confraria de amigos a que o Flávio deu corpo e espírito com lastro na palavra escrita ou na conversa fiada. Era também muito comer e beber, senão, convenhamos, não dá pra conversar. Muitas e inesquecíveis tertúlias que Carolina Esser começou a secretariar, isto é, a ler muito compenetrada as atas em estilo macarrônico da sessão anterior, desde seus cinco anos. Geralmente escritas por seu pai, o jornalista Sérgio Esser, ou pelo próprio Flavio, às vezes pelo Carlos Pereira.  Os frequentadores habituais das sessões? Sérgio Esser, Sandra, Carlos Pereira, Célia, Gilmar Vila Nova, Nádia, Marcelo Prates, Daniel Esser, Mariana, Danilo Andrade, Flávio Valle, Juana Friche, Ismael Antuña, Denise, este blogueiro, Rosa e muitos ocasionais. O clima do CLA foi tão bom que, mesmo sem “ter piscina” teve uma longa e alegre existência. Ô, Flávio, muita saudade de todos nós.

 

Na sessão de 3 de maio de 97, na casa do blogueiro, à sua maneira encantadora, Carolina Esser leu uma crônica:

Todos os pássaros

Numa esquina das esquinas de Belô – Bahia com Antônio Albuquerque, ou seria Paraíba com Santa Rita Durão? – difícil estabelecer com precisão, mas não importa, deparei-me com o grande pássaro. Havia uma névoa fina como sede de Samarcanda vestindo a cidade naquele começo de noite. Sem atravessá-la de verdade, uma lua pálida de abril apenas a tornava brilhante, ressaltando as silhuetas dos prédios e transformando em vultos os passantes. Os postes de iluminação ficavam pisca-piscando no meio da bruma como se fossem fantasmas e, por um momento, cheguei a indagar se estava mesmo na nossa cidade amada. Bobagem. É claro que a gente estava.

O grande vulto alado e eu não nos reconhecemos de pronto, mas ele foi se aproximando e a luz fantasmagórica do poste, ajudada por uma dissipadora lufada de vento, nos pôs a conversar como velhos amigos. Ele contou que nem sabia direito por que resolveu sair de seu ninho na montanha para andar pela cidade no meio da neblina. Mas o fato, em si, não chegava a contrariar de todo seus hábitos que, ao seu próprio alvedrio, podiam ser de ave noturna, da aurora ou do dia claro, como ele mesmo admitia com benevolência. Nem me causava espanto, pois as possibilidades são várias, quando estamos diante de realidades ontológicas que estão muito além da ornitologia vã, preocupada apenas em estabelecer axiomas rígidos, em formular postulados que, na prática, atuam como camisas-de-força, justo quando a liberdade nossa repousa, precisamente, na loucura de cada um.

O grande pássaro que, há tantos anos que nem sei, aceita-me como interlocutor, é condor. Mas também é beija-flor, sabiá laranjeira e branca garça. ´, ainda, o pássaro roca, canário, gaivota, corrupião e azulão – porque não?  Ora, guardar essencialidades de cada pássaro é, de fato, ser todos os pássaros, conforme a melhor razão ontológica. Assim, ao falar com o grande pássaro que encontrei na bruma naquele começo de noite numa esquina das esquinas de Belô, sabia que estava falando com o passaredo todo.

Ele ouviu muito e pouco falou, mas esse pássaro vário, plural, todos-os-pássaros é assim mesmo. Perguntei-lhe se ele ainda busca os píncaros da Serra do Curral em noites claras para ficar assuntando, lá daquelas alturas, a azáfama e bulício da nossa cidade. Fez que sim com gesto discreto. Em seguida, pôs-se mais animado e disse que, realmente, gosta de ficar olhando as coisas desde lá de cima, não por presunção ou elitismo, mas para uma percepção de conjunto que não se alcança sem algum distanciamento. Com a visão favorecida que tem, nem um detalhe lhe escapa. Na semana anterior, por exemplo, ele se havia surpreendido com a enormidade de uma correição de formigas lava-pés no Parque Municipal, deslocando-se de um canteiro para outro numa operação tão grande complexa que até sugeria a retirada de Dunquerque.

Do mesmo sítio, o grande pássaro às vezes passa horas, noite adentro, olhando para o céu constelado, perscrutando as vastidões das siderais campinas. Uma vez, lobrigando por uma fresta bem acima da cabeça do Cão Maior, depois de estar muito tempo quedo, fascinado elo esplendor da grande Sirius, viu uma jovem belíssima se banhando num riacho. Todos, homens e aves reconhecem a generosidade do céu e não poupam esforços para visitar as nebulosas, as estrelas, conhecer os desvãos da Via Láctea nem que seja nessas naus que singram de u quadrante a outro os mares dos nossos sonhos. O grande pássaro, ou Todos-os-Pássaros, que encontrei na bruma sempre vai a toda parte, percorre todas as imensidões. E nem se importa se, em muitos lugares nem lhe consigam pronunciar corretamente o nome: Flávio Friche

(NM)

Ser mulher nas sociedades contemporâneas

Nesta semana de grande perda para a confraria do Clube do Livro Aberto - CLA, uma boa notícia: Carolina Esser faz, no próximo dia 15 o lançamento virtual de seu primeiro livro solo. A live acontecerá no seguinte link do youtube: LIVE - Ser mulher: autonomia cognoscitiva nas sociedades contemporâneas

Só para lembrar, a Carol, desde os seus cinco anos de idade assumiu com autoridade e firmeza as responsabilidades de secretária do CLA, no começo com algumas reclamações, todas pertinentes: “Esse clube não tem piscina?”, “Não dá pra fazer as atas sem essas palavras difíceis?”

É claro que foi muito antes dela mudar-se pra China. Aprendeu Mandarim e é a única pessoa que a gente conhece que sabe escrever com aquelas letras de casinhas: seiscentos ideogramas certificados e reconhecidos pela Academia. 

Carol, você é o maior orgulho dos remanescentes do CLA.


terça-feira, 1 de novembro de 2022

A princesa, a vaquinha, os pobres de marrais, marrais

O Natal ainda está longe, mas, vez ou outra, já se pode ouvir “gingobel, gingobel” e decorações temáticas começam a aparecer nas lojas e “shopping centers”.  Difícil saber com certeza, mas a tradição de representar o estábulo de Belém e as figuras que participaram, segundo o Evangelho, do nascimento de Cristo e as cenas que a ele se seguiram, São Francisco quem começou. Teria sido o primeiro a se dar conta do significado das cenas descrita nos Livros: a família humílima, o recém-nascido, a estrela, o anjo, a reverência de pastores, ovelhas... Também dos camelos que, através de extensos areais, chegaram com três potentados do Oriente e suas prendas de ouro, incenso e mirra para honrar a criança. Em tudo, porém, a primazia de pessoas pobres e seus rebanhos parcos.

No Brasil, presépios nas igrejas, nas casas ricas e nas mais humildes chegaram séculos antes das árvores cheias de bolas coloridas do jeito norte-americano de celebrar o Natal. Em nenhum, falta a vaca que se aproxima para aquecer a criança na manjedoura com seu hálito benigno. A vaquinha da Rua Leopoldina, Bairro de Santo Antônio, BH, parece ter saído direto de um presépio para esparzir fluidos benfazejos, como um totem venerando da cidade. Era só um mimo de artistas que, sabe-se lá por que, a fixaram-na ali, há uns quarenta anos e, desde então, ela protege e enfeita a rua com nome da princesa austríaca, imperatriz do Brasil. Dizem que, dela, da princesa, foi o “empurrãozinho” decisivo para que seu marido Pedro, “às margens plácidas do Ipiranga”, lançasse o brado libertador, independência-ou-morte etc. e tal.

Os vizinhos “vestem” a vaquinha com cores de ocasião, que ela incorpora com bonomia e resignação: carnaval, copa do mundo, festas juninas e o que mais. A cara dela é sempre de tranquilidade e gentileza. Agora ela ostenta bandeirinhas de muitas cores, que bem podem corresponder ao momento plural da brasilidade, mas, sem ostentação nem ambição, como se tivesse consciência de sua condição de pobre, pobre “de marrais, marrais, marrais”, como na cantiga de roda, sem por isso se exasperar. É como se subsistissem nela cada palavra do sermão das bem-aventuranças (Mateus 5 – 7), sem perda de poesia nem de substância: benditos os mansos e humildes de coração, benditos os pobres em espírito, porque herdarão a terra (....)

Ego sum pauper, nihil habeo et nihil dabo. Hummm!!! Feito o presépio, um dístico desses seria muito franciscano, mesmo que não tivesse chegado até nós desde a reclusão medieval dos mosteiros. Só uma curiosidade: com a malícia sutil das almas femininas, Eiddy Gorme, voz de anjo, talvez de patativa, replica em versos de Álvaro Carrillo a mesma candura: De mi vida, doy lo bueno. Soy tan pobre, que outra cosa puedo dar?

Versos? De José Marti, o “Maestro” e “Apostol” da independência de Cuba, uns “Versos Sencillos”:

Con los pobres de la tierra

Quiero yo mi suerte echar

El Arroyo de la sierra

Me complace más que el mar.

Agora, porém, é regular a marcha da caravana pelo passo do mais débil, como manda a “sura” do Profeta.

(NM)