quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Candelabro


(VI)

Moisés recebeu as instruções que recebeu sobre a fábrica do candelabro do preceito, o Menorah: sete braços, sete açucenas, sete lâmpadas de ouro, que haveriam de luzir em cada pomo (Exodus). A Tradição contempla em sua forma uma representação da Árvore Cósmica, cujas inflorescências desabrocharão no coração dos homens puros e seus frutos serão o alimento deles, no deserto do Sinai ou onde quer que estejam.


(VII) Recolhimento 

A quarentena da lepra dos homens, das roupas e da casa é de sete dias, a critério do levita (Levítico). Para encontrar-se consigo mesmo, tanto para o Filho de Deus quanto para os filhos dos homens, são necessários quarenta dias contados na solidão do deserto de cada um. Para abrir passo daí até a Terra da Promissão, quarenta anos podem ser suficientes, mas talvez não.

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"Heptaédricas" continua na próxima quarta


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Sete-Estrelo

(V) O Touro vem chegando devagar, zodiacal campina adentro, muito esplendor! Brilha sobretudo sua fronte poderosa, exaltando o negror e a força. Sob uma pálida Lua Nova de abril, serra acima, Inácio solta de vez a rédea frouxa da besta e tira do bolso o maço amarelo de cigarros Beverly. Acende um e tira funda baforada. Pode imaginar as espirais de fumo subindo na direção do céu constelado, mesmo sem poder vê-las. Já é um milagre que Dulcineia, sua mulinha rosilha, ande com firmeza pelo caminho acidentado e pedregoso.

As sombras são tão espessas que realçam até a passagem coruscante de um pirilampo ínfimo. Mais que uma visão noturna poderosa, ela tem o instinto e a memória de sua estirpe asinina. E, simplesmente, sabe onde pisa no trajeto tão familiar: estão voltando para casa. Às vezes, o pisca-piscar de uma estrela rebate tenuemente na piçarra de um barranco, o que, nem ao animal nem ao caboclo passa despercebido. Não podem perder qualquer lampejo aqui embaixo, por mínimo que seja, nessas ocasiões em que a Lua Nova acende os luzeiros no céu, mas apaga o chão.

Erguendo os olhos para acompanhar a fumaça invisível que subia, Inácio defronta-se com a constelação Erguendo os olhos para acompanhar a fumaça invisível que subia, Inácio defronta-se com a constelação do Touro, que mal reconheceu na noite estrelada, fixando-se nas Plêiades. Maia, Electra, Taígeta, Asteropo, Mérope, Alcione e Celeno cobrem com diáfanos véus de fina névoa a fingida pudicícia. Puxou outra baforada funda do Beverly, espevitando a brasa, que virou um pequeno farol no meio de tanta escuridão. Com o ar frio da noite na serra a arder-lhe nas narinas, confidenciou à mulinha: – Dulcineia, sabe que eu tô pensando na Isaura?

– E pensando o que? – indagou a mulinha, mostrando interesse na conversa.

– Não paro de pensar como ela anda bonita e como é bom ficar perto dela. Respondeu com a boa disposição com que, às vezes, conversava durante horas com Dulcineia, em longas jornadas solitárias deles dois.

– Bom, mas isso de caboclo gostar de cabocla é mais antigo do que a Serra da Canastra, ponderou a mulinha, quase entediada, mas, em seguida, preocupou-se e acrescentou:

– Está bem, mas é melhor não desassossegar, não perder o controle. Trate de guardar o siso, homem.

– Mas a lembrança da Isaura tá me sufocando, apertando, apertando. Bem aqui, ó...

E Inácio pressionou contra o peito o punho fechado da mão direita, segurando entre os dedos o toco de Berverly ainda queimando. Então os olhos do caboclo relutando ante a ideia de que pudesse estar apaixonado ergueram-se de novo na direção do céu alto, perscrutando, buscando, até achar de novo as Plêiades. Num arroubo de lirismo do qual nem se supunha capaz, disse à mulinha:

– Dulcineia, se eu pudesse, ia lá em cima e trazia o Sete Estrelo pra Isaura pendurar na corrente do pescoço. Tá vendo ele lá? Não é uma beleza?

Dulcineia pôs-se pragmática e ponderou: – E se você desse uma passadinha na oficina do Melquíades. Encomenda, que ele faz um sete-estrelo de pedrinhas...

– Mas se o Melquíades nem é ourives, é relojoeiro, e aí já vem você... só porque ele tem aquelas ferramentinhas miúdas, uma lente esquisita, de um olho só! – quis ponderar.

Mas a prosaica sugestão da mulinha amuara o caboclo, reduzindo a nada sua expansão lírica. Pra lá de macambúzio Inácio resmungou:

– Pra pagar uma encomenda dessas eu precisava vender os arreios, a badana, as esporas, a guaiaca, o chapéu, a cabeçada... E vender você, Dulcineia!  

Era a parte mais repugnante da perspectiva. Irritado e decidido, encerrou o assunto:

– Que sete-estrelo que nada!

O céu esplendente pesou sobre os dois enquanto seguiam serra acima, sem mais palavras. (nm)

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Continua na próxima quarta-feira

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

O dia sétimo

(III) Depois de criada a luz e de separada das trevas; da criação da terra, do céu, aves e estrelas; de criados o Homem e sua Companheira e o que vive no mundo, foi o dia sétimo (Genesis), ou o primeiro, a contar do momento em que tudo ficou pronto. Pode-se imaginar, ainda que por diversão, que a Criação, de fato, teria sido principalmente a criação do movimento, porque, desde que se cumpriu, o mundo não parou de girar nem o homem jamais ficou quieto.

(...) porque o Senhor fez em seis dias o Céu e a Terra e no sétimo descansou (...) trabalhareis seis dias, mas o dia sétimo‚ o sábado é o do descanso consagrado ao Senhor. O ano sétimo é o sábado da terra, que em seu transcurso não será semeada nem ceifada nem a vinha será podada. O ano seguinte ao sétimo ano sabático, conforme foi prescrito no Sinai a Moisés e ao seu povo, é o do Jubileu, para publicação do perdão das dívidas e de Liberdade para todos sobre a terra. (Levítico)

É a mais generosa das prescrições ao Profeta.

(IV) Sonhos

Uma, duas, três vaquinhas... quatro, cinco, seis...  em cada sonho de Faraó, sete vaquinhas. No primeiro sonho, luzidias, pingues, felizes, no segundo, esqueléticas, esquálidas, tristes. Conforme está escrito no Livro, havia sete vaquinhas em cada sonho de Faraó (Genesis)...

José (*), casto filho de Jacó e da serrana Raquel, Champollion do onírico, decifrava os hieróglifos dos sonhos de Faraó: sete anos de fartura, outros tantos de amargura, seca, seca, seca, escassez sem fim, quanta fome, meu Deus do céu! Porém, um pacto com Jeová, seu Deus e sua boa estrela, não permitia que traduzisse as lúbricas fantasias da mulher de Putifar, Zenóbia pérfida e bela...

(*) Remissões, interações, reciprocidades: a mesma história ou o mesmo sonho estarem contados em outro Livro antigo apenas os sublima, também quando o poeta Mahmoud Dardwich (**), amado das Musas, interage com uma “sura” corânica para contextualizar: Eu sou José, meu pai. O que eu fiz, meu pai, e por que eu? Você me chamou de José e eles me empurraram no poço, e culparam o lobo, mas o lobo é mais complacente comigo do que meus irmãos... Cananeu, no poema “Onze astros no último céu andaluzino”, lamenta o desterro da Palestina, mas também o de Granada: “Sou o Adão de dois paraísos que perdi pela segunda vez. // Então expulsem-me devagar // e matem-me rápido. // Debaixo da minha oliveira. // Com Lorca”.

(**) “Onze Astros”, tradução de Michel Sleiman - Editora Tabla

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Continua na próxima quarta-feira. De Cinzas?

Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris. Maior de setenta anos, cara rosada, cabelos brancos de algodão, lentes grossas numa armadura de tartaruga, perdida a oportunidade de saber como é que aquele holandês achou de virar pároco nos confins do Sudoeste de Minas, resta lembrar o padre Geraldo van Keke com simpatia. A advertência, tremenda, ao proceder à imposição das cinzas nessas endoenças não assustava ninguém, menos pela língua incompreensível do que pelo tom benigno com que a pronunciava. O padre Geraldo tinha o semblante sempre sério e quase triste em seu desterro. Mas gostava demais dos pequenos circos que apareciam por ali de vez em quando e não perdia espetáculo. Sentado na primeira fila, batina preta, chapéu redondo com uma espécie de borla achatada no alto, coisa de padre, aplaudia com entusiasmo palhaços, trapezistas, mágicos, malabaristas, a cada apresentação. E ria, ria muito, ria com gosto. Era o suficiente para que os meninos da aldeia o reconhecessem “como um dos nossos”.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Heptaédricas, capa, epígrafe, o prólogo etc...

Na Sétima Hora:

A mulher, que é neta e avó de Deus,

Foi gerada pela vontade do homem puro,

O encantador de serpentes,

O que abre todas as portas,

E nasceu só para ser amado

 Nuctemeron  (Poema Místico das Horas) Tânio 


Edições C.L.A. – Clube do Livro Aberto, e, 2001, então bastante ativa, publicou uma tiragem de sete exemplares de “Heptaédricas”, iniciativa dessas que só na ociosidade se sustentam, embora talvez tenha sido uma imposição das próprias notas de leitura e registros mnemônicos, textos fragmentários, que compõem o pequeno volume. Vez por outra, sempre, estavam se assomando à janela da memória para perturbar uma vigília, assombrar uma insônia, essas coisas. O jeito foi publicar, pra ver se sossegavam. Agora é diferente: o “folhetim” é uma tentativa de compartilhá-los com os amigos e leitores de O&B, que a gente espera que funcione.

PRÓLOGO

Número, “conjunto de todos os conjuntos equivalentes a um conjunto dado”, definição parca para uma relação inefável, metafórico flertar de estrelas pisca-piscando incansáveis pela noite sem-fim das galáxias; entidade abstrata sem razão de ser quando não houver mais uma alma humana que a possa intuir, embora a contingência de corresponder, sempre, a alguma característica mensurável das coisas! Onde, então, a pluralidade, falange, legião, contidas num número qualquer, mesmo na mais prosaica unidade, que a ciência dos matemáticos contempla, a intuição dos poetas perscruta e desvela a das mulheres e profetas?   

Diante do irrespondível, o número sete, representativo dos conjuntos de sete elementos, desfaz-se em impossibilidade: quantidade, grandeza, intensidade, mistérios, enigmas, sortilégios, bruxedos? Não. Talvez uma improvável jangada flutuando no oceano intangível do tempo e da memória, atada a um fio de Ariadne que permitisse a qualquer Teseu retornar de labirintos das mais pretéritas eternidades, romper a finíssima lâmina do presente e alçar-se para além da Via Láctea onde, presumivelmente, abrir-se-ia o futuro, feito abrem-se as peônias e outras flores impudicas.

Haveria, mas não necessariamente, algo de supersticioso em capturar seqüências e conjuntos de sete elementos, acomodá-los na lembrança e remetê-los, com toda a luz que possam carregar, de esferas iluminadas da consciência para algum recôndito sombrio ou mesmo para a escuridão mais espessa. Ao fim e ao cabo, tudo não passa de exercício lúdico, ocioso e gratuito, de apreender e lembrar, viver e lembrar, jogo mnemônico.

Como formas exacerbadas de lirismo, o mágico e o lúdico podem sustentar apropriações que encareçam possibilidades do número sete, que teogonias antigas celebraram em Hermes, Chakmol, Exu ou que nome tenham dado a esse tipo de mensageiro, intermediário entre os homens e os deuses, entre o mundo e o infra mundo. É o condutor da palavra de um mundo a outro mundo, dos vivos aos mortos, das trevas subterrâneas às altas fontes de luz, da eternidade que passou para a que ainda escorrega nas ampulhetas, muito acima e além de quaisquer determinismos vãos ou mesmo totalmente plenos, tal qual, em seu dia sétimo, uma lua de Semana Santa.

Chegada a hora de lembrar, seqüências banais, palavras, expandem-se feito cachos maduros na parra e, um pouco, então, é como naquele “tempo de colher” que refere o Eclesiastes. A gente colhe uma aqui, outra ali, uma frase, um verso, ou apenas recupera a nota de leitura exatamente como foi anotada. A magia, ou o lirismo, emerge em desígnio caprichoso do número 7, que se desdobra em fragmentos caóticos em busca de compreensão. Ah, o prazer dionisíaco da vindima!

Materializam-se a conversa possível entre um caboclo e a mula que cavalga, embora não alcance, não por culpa da besta ou do cavaleiro, as alturas de um diálogo de Juan Ramón com seu burrinho Platero, um breve romance de cordel,  reminiscências de bordel, alguma de Isaías, outra do Livro das Revelações... Vêm com o 7, às vezes, um soneto de Gôngora, um de Camões, versos de Rubén Dario, de Geir Campos,  Murilo Mendes, Stecchetti e, de repente, eleva-se um espírito a uma discreta contemplação do firmamento estrelado. (nm)

(I) À sombra de Sephirot

A Árvore da Vida esparge eflúvios sobre a Cabala. Recolhem-nos os ramos ávidos de Iggdrasil, alimento de Hatrun e benfazeja sombra para ases e guerreiros nórdicos. É quando a Estrela Polar e o Nascente se tocam por uns momentos breves de devaneio que homens bons não ousam perturbar com indagações tolas nem perplexidade demais. Com seus sete faróis acesos, a Pequena Ursa indica ao cauto nauta as frias regiões setentrionais que o vento Norte, ao mesmo tempo em que fustiga, protege de profanações dos não iniciados.     

O Sétimo Ramo da Grande Árvore, Netzach, a Sétima Sephirat, descobre-se na imagem inocente de Eva ostentando a espada do arcanjo Haniel, libertadora do instinto puro e de toda paixão genuína. E anunciadora da Vitória conquistada na batalha.

A Rosa da Intuição e do Desejo, vale dizer, da percepção direta da verdade, dispensa, por divina, intermediações onerosas, deixando ao largo as minguadas possibilidades do só imaginar. Por seu turno, desejo é anseio, necessidade, o que faz a serpente andar. E o Sétimo Caminho, no final das contas, é o da Inteligência Oculta.

O número Sete, cardinal dos conjuntos equivalentes a um conjunto de sete membros, pertence à ideia da perfeição e, como nenhum outro, carrega a sugestão da Divindade. Tanto pela ideia em si, quanto pelo perfeito que encarece, Platão o declara o número bem-amado de Deus, desamparando, porém, de toda possibilidade de compreensão esse torvelinho da emoção absoluta.

Desde a Rua Antônio de Albuquerque, entre Levindo Lopes e Sergipe, Savassi, Belô, eleva copa magnífica gigantesco pau mulato (Calycophyllum spruceanum), dando a impressão de pretender alcançar prados luminosos da constelação do Touro, Aldebarã, Aldebarã! Parece ambição demais, mesmo para árvore tão alta, mas, se ela nem se importa, apenas variando os encantados tons metálicos do tronco esguio e elegante ao sabor das estações! Lá em cima ostenta o diadema de puro verdor que a qualifica como potestade vegetal. Suave epifania, sua presença na Savassi, de alguma forma materializa poderosa entidade protetora da cidade, como um grande totem: avatar da Árvore do Conhecimento, manifestação universal da Árvore da Vida? (nm)

(II) Patuá do Caboclo Sete-Flechas

“Vou andando em desamparo, sem canivete ou baralho nem rosário. Amuleto de fechar ao frio, à chuva e a pontas de flecha, a facas, balas, a olho gordo etc. o corpo, deixei no colo perfumado de uma moça gentil que me estendeu os braços lânguidos em noite de morna solidão. Prata baça de zinabre, madeira escura: era assim o patuá, mas foi-lhe grato aos olhos mansos, verdosos e, quem sabe, ao seu meigo coração.

Embora só encarecesse por bravata e picardia as talismânicas virtudes, já havia tocado recônditos de sombra em sua alma de mulher. Com ares de fingida ausência ela perguntou se não funcionariam, digamos, contraceptivamente.

Não falei sim nem que não, que é melindrosa a questão e, em campo assim, precário, juízo de varão é falho. Ia eu lá responder missa em femininas paróquias! Achasse as certezas próprias por sua própria conta e risco”. (nm)

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(Continua na próxima quinta-feira)

sábado, 6 de janeiro de 2024

Pedro, Gaspar, Belchior e Baltazar

 Antes de sua vida desandar, e andou desandando demais, ele era “Pedro Gonçalves da Costa”, nome de fidalgo português, de desembargador da República Velha, quem sabe, o primeiro que perdeu, junto com sua mulinha nova e bem arreada, “pantaneiro”, rédeas bem trançadas, coxinilho, chapéu novo.... E foi logo na primeira vez que apareceu na corrutela. Umas boas talagadas de cachaça e achou de visitar o acampamento de ciganos num pequeno pasto, na saída do arraial, já perto do córrego. Voltou montado num cavalo velho, a arreata desfalcada de alguns itens de prestígio, como os estribos de alpaca.

– O que que é isso, Pedro! Os ciganos lhe passaram a perna.

Naquele mesmo sábado esteve várias vezes naquele acampamento, sempre depois de umas talagadas, o que favorecia os ciganos, afeitos a qualquer tipo de escambo: “Se anima, gadjó, tenho boa proposta pela montaria”; “Gostei da guaiaca, paisano”; “Chapéu bonito, mas a fita parece de mulher”. Começavam os negócios mais ou menos assim, aqueles mestres das trocas improváveis. Fácil para eles conseguir dar uma mula velha por um cavalo novo. O que ninguém viu? A cor do dinheiro de qualquer um deles.

Prejuízo e prestígio a recuperar e, a cada “trama”, pior. Antes de acabar o sábado, cabisbaixo, na maior ressaca, puxava, por uma corda a égua manca e cega de um olho, em pelo, o que sobrara de sua mulinha nova muito bem arreada. Aí, velho, a crueldade implacável dos botequins: Pedro Gonçalves da Costa virou “Pedro Égua”.

De mais novo, tinha andado em muita folia Reis, o que rendia camaradagem e assunto entre ele e o Crisoste, antigo capitão de prestigiosa companhia. Pedro veio se aproximando em passo de velho, devagar. Tinha, então, uns quarenta e poucos anos, mas aparentava sessenta ou mais: cabelos brancos, a cara enrugada, o andar trôpego.

 –  Bom dia Crisoste. Trerreissan tá co`cê, tá?

 – Tá sim, Pedro. Todos os treis, Gaspar, Belchior e Baltazar...

Com a mão direita espalmada, bateu três vezes no lado esquerdo do peito. Pedro repetiu o gesto e estendeu a mão para receber do outro o troco para uma cachaça ou duas, implícito em seu cumprimento devoto e, em seguida, rumou, andando devagar, para o boteco mais próximo.

Tantas perdas, a mula bem arreada, sua riqueza, o nome de certa pompa, sem perder a jovialidade e a alegria que, às vezes, se assomava rutilante em seus olhos azuis! Crisoste gostava do Pedro, seu espírito alegre, ânimo bom. E o tinha em grande conta como cantador. Voz grave, afinada, cantava ou ajudava a cantar nas folias de Reis os temas específicos, nos botecos, modas de viola, com uma prosódia muito pessoal, mas, quem ligava? Só o Ivomar, parceiro eventual de cantoria do Pedro, que aparecia de vez em quando, de férias ou qualquer tipo de folga na faculdade de medicina onde estudava, em Ribeirão Preto. Encampava as “licenças poéticas” do cantador e assumia com gosto as distorções das letras naquela sempre deliciosa prosódia do Sudoeste de Minas, o Pedro na segunda, ele na primeira voz:

Eu nasci numa data feliz // bem dispois do dia dizessêss // por eu ser um menino sem pai // fui criado com o titio Inêss // O titio era cuiabano // no rejume eu tamém me criei // o titio, criador de gado // nessa lida eu tamém costumei // (....) // tinha laço, couro de mateiro, // c`on escapava uma rezz do mangueiro // eu deixava correr trinta dia por mêss // (...)

A indigência irremissível haveria de chegar com um cancro duro devastador. Nem tinha trinta anos quando, no cerne da sua virilidade, conheceu, sem as lembranças ternas da muito sábia Héloise, a miséria de Abelardo, outro Pedro (Pierre de Abélard), em Saint-Denis. Pleno de conformidade, disse ao médico que o atendeu depois que nada mais havia a ser feito:

 –  Então o jeito é morrer na pinga. 

Esse tipo de escolha não era de todo estranho naquele pequeno universo de garimpeiros, gente ligada à lavoura cafeeira, pequenos comerciantes, retireiros. Sufocado pelo remorso, remorso grande, de haver tomado parte na tocaia fatal contra um amigo que o tinha na maior confiança, Franquilim da Valdomira foi à cachaça com o mesmo afã que levou o Iscariotes à figueira, tendo sido acolhido com a mesma indiferença. Sempre fora gago, mas era conversador, sem se importar com as repetições exasperantes de sílabas e fonemas. Em seus últimos tempos, porém, só o que conseguia era balbuciar:

 – Me dá um go-golim.

Com o Pedro foi outra a história. Talvez porque não tivesse remorso pra carregar ele e a Pinga não se houveram assim tão mal e, por um bom tempo, foram levando a vida juntos. A Pinga não foi apressada com o Pedro, mas a alma da cana, espírito puro, eterno, não tem como perpetuar relação com um mortal, mesmo em se tratando de um homem bom. Chega a hora em que os prazos se esgotam.  Se a Pinga, ao menos, pudesse oferecer a Pedro Gonçalves da Costa a imortalidade, feito, a Odisseu, a ninfa Calipso! Não, não. Ele também recusaria. (nm)

 P.S. Neste 6 de janeiro, O&B deseja a todos um feliz Ano Todo. Sejam convosco os melhores influxos de Gaspar, Belchior e Baltazar. Amém.

 

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

De Laci, a um "pato ao tucupi"

Alto, magro e resseco, lembrando, tão esguio de compleição, um guerreiro da nação Watusi e, quem sabe, até tivesse mesmo ancestralida-de entre antigos povos da África Central: Laci alegrava torcedores do Galo no final dos anos 60 com dribles de pura magia e muitos gols. Com simplicidade genuína de jovem sem muita instrução, nem suspeitava que seu sucesso de futebolista pudesse incomodar. Qualquer iniciado na Cabala pode entender que a distância entre Belém do Pará e Belém da Judeia não é tão grande assim, menor, talvez que a malícia, o intuito de depreciar, o racismo enrustido. Não foi só por diversão que espalharam aquilo de “estou muito feliz de jogar na terra onde o Menino Jesus nasceu” ou atribuíram ao craque o ter dito que “Comigo ou sem migo, ganha o Galo”.

Esse tema não viria à tona, nem mesmo neste sempre ocioso O&B, não fosse uma questão pronominal prosaica, mas sempre é preciso defender a Língua Pátria. Foi suscitada em juízo por ex-juiz que virou senador da República: “O valor não corresponde aos gastos feitos especificamente com mim (sic)”; “abrangem outros indivíduos que não só mim”? Ufa! Parece tratar-se de um idioma próprio, pessoal, exclusivo, idioleto cujo léxico já registra o substantivo “conjo”, forma meio esquisita, mas até elegante de ”cônjuge”, quem não se lembra? Aqui, vemo-lo como se ao  influxo da linguagem dos pele-vermelhas de gibi, embora hoje em dia nem nos quadrinhos índio adulto use mais, só criança, piá, curumim...

Para o blog ocioso, de repente esse impulso de expressar na nova nomenclatura o repertório anedótico do Laci: “Com mim ou sem mim, cara-pálida, pato bom é ao tucupim”. (nm)

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Olavo Romano, sempre bom da gente lembrar

Os amigos, tantos que nem dá pra contar, compareceram à sede da Academia Mineira de Letras para se despedirem do Olavo Romano, arrimo e amparo da arte, tão cara em Minas Gerais, de contar histórias, histórias e mais histórias, que ouviu em sua casa, em sua infância, ou colhidas nas andanças por este mundo. Muitas ele mesmo inventou, porque inspiração nunca lhe faltou. O grande contar de histórias foi-se embora sem maiores prosopopeias, simplesmente foi indo, foi indo... Que perda, a do Olavo Romano! Mas será que foi mesmo tanta? Tantas são as lembranças dele, de suas histórias, de sua conversa sempre bem-humorada, de sua prosa (Que conversador magnífico o Olavo!) que a sua presença não é dessas que se desfazem assim, sem mais. Não é a perpetuidade dos afetos que eterniza os homens bons?

Bom. Sua irmã Alcéa mandou “banner” que compôs para lembrar seu irmão, lembrança boa, alegre, comme il faut , em se tratando de Olavo, e este O&B se alegra em o texto e foto para homenagear o querido amigo que foi embora. (nm)






Olavo Romano

✱06/09/1938

✟16/11/2023



Olavo contou caso novo,

e de novo, inovou.

Falou do tio, da mãe, do avô.

Dos netos e dos filhos do senhor Nonô.

Do tempo, da vida,

da graça, da praça, do povo, da Vila.

E o semblante de todos abrandou.

As palavras, as letras, a fala, abraçou,

Buscou, perguntou,

conversou, se entregou.

Recebeu, agradeceu, repartiu,

ofereceu este dom como prece.

Buscou nas estrelas,

o que aqui não encontrou.

Partiu pra mais longe.

No plano Divino,

foi refazer sua história.

E nós aqui, coração batendo

e guardando o Olavo na memória.

(Alcéa Romano)


domingo, 10 de setembro de 2023

Bares, bares, bares e sempre-vivas

É. Belô não tem mar. Não tem não. Mas tem bar, muito bar, tanto bar que só cê ven`, pra todo gosto, em todo lugar. A gente precisa escolher, definir preferência de antemão pra não ficar confuso. Estabelecer exclusividades é ocioso, mas é bom considerar a questão a partir de uma lista mais restrita antes de seguir adiante. Bares, os melhores, são entidades vivas, com as quais as interações afetivas são naturais e inevitáveis, determinadas, no mais das vezes pelos garçons. No antigo Jangadeiro, na Rua da Bahia, pontificou, em seu tempo, o excelente Protásio; na esquina de Sergipe com Timbiras o nome do estabelecimento foi vencido pela solicitude e gentileza do garçom e ficou mesmo Bar do Chico; a Cantina do Lucas, na galeria do Edifício Maletta ainda guarda memória viva do seu Olímpio, mitológico garçom. Na Savassi, Ivan e Jorge dão o tom ameno e cordial do Gujoreba; Márcio, o maitre, faz as honras no Redentor.

 O Tip Top anunciou que sairá de seu tradicional endereço na Rua Rio de Janeiro, expulso pela especulação imobiliária, uma pena, mas outras portas abrem-se para velhas confrarias que cultivam e cultuam grandes e pequenas celebrações etílicas, em libações que sustentam a sempre inconclusiva e interminável conversa fiada, fonte de alegria e saber, sal da vida. O recém-aberto Esquina Santê (Divinópolis com Silvianópolis) tem o clima de Santa Tereza, muito acolhimento e aconchego. E tem Mirtes, cantora, e Sílvio Scalioni, líder do Boca de Sino, banda prestigiosa e querida, o repertório de final dos 60, 70, 80 etc: 

Menina linda eu lhe adoro, ah,

Menina pura como a flor, oh, oh, oh,

Sua boneca vai quebrar, ah, ah, ah,

E tem o Bar do João, na Rua Tomé de Souza, entre Pernambuco e Getúlio Vargas, que virou malhadouro dos velhos jornalistas que afluem às mesas enfileiradas em sua calçada nas noites da primeira segunda-feira de cada mês. Às vezes, até uma ou outra história de jornalismo na conversa, que é fluida e variada ao longo da noite. João, o dono do bar, é natural de Diamantina, a estrela mais brilhante do Espinhaço, o que impõe certas obrigações, como a de distribuir pequenos feixes de sempre-vivas às damas que prestigiam a tertúlia. Isso pode suscitar reminiscências antigas, como as que remetem a um jovem que achou de exorcismar amargor de amor com umas redondilhas toscas, tola impaciência. Era preciso esperar, esperar o rodar do mundo e do tempo: podia ser nas patas do cavalo do vaqueiro de Geraldo Vandré ou na roda viva do Chico Buarque, mas rodar, rodar, enfim, rodar...

O disco solar plasma no tédio sideral do final das eras, acetato cósmico, a setenta e oito rotações por minuto, um tango daqueles mais doloridos ou uma canção de Antônio Maria, que também dói. (nm)


CAMPO DE MINAS


fui passear com meu amor 

num lindo campo de minas.

doce é rolar na grama

com a mulher que se ama.

cantarolando ária alegre,

foi colhendo sempre vivas,

 

as cores, todas, do espectro,

levando em mãos de menina,

as formas caleidoscópicas

davam-lhe ares de ninfa.

nos longos cabelos negros,

brilhando, gérbra amarela.

 

erguido feito uma tocha,

o bouquet resplandecia

ao sol e ao sorriso dela.

veio, então, a explosão:

BUMMMM!!!!

chuva de pétlas, miúda.

 

Rib. Preto/68 (nm)

quinta-feira, 9 de março de 2023

Panta Rei, o rio de Heráclito e os nossos rios

Noite de muita chuva. No Sudoeste do mundo, manhã cinzenta, céu indeciso: mostrar uma nesga de sol, desandar em chuvarada... Contemplar o alto despojado! Monotonia sem fim. Onde, as cores do dia?  Algum mistério há, talvez muitos, desde a sombra ausente de um pé de embiruçu despido da folhagem exuberante e das flores esplêndidas. A tempestade veio cruel no começo da estação. Sobrou uma garatuja de galhos secos projetada contra o firmamento plúmbeo, traços pretos em caótico desalinho, como runas de misterioso significado contra a abóbada embaçada.

Alarido alegre, de risco em risco, silhuetas aladas maritaqueiam. Hieróglifos em movimento, vivos, à espera de algum champolion que os decifre, quem sabe uma cigana experimentada para extrair deles o que nos reserva o futuro. Não sabeis? Os textos fluidos revelam ritmos que a roda do Tempo caprichosamente esconde, escancaram correspondências que o Universo às vezes só mostra aos profetas e a um ou outro poeta: Panta Rei, o rio de Heráclito, o Rio de São Francisco (corre de noite e de dia), o córrego da nossa infância que, de vez em quando, ainda rumoreja no coração. Tudo flui.

Fluem a lua, as estrelas, a Noite não cessa nunca. O Cosmo flui, desabrido, em todas as direções, e será deste modo até esvair-se na grande escuridão dos tempos: inscrições nas tumbas dos faraós, Ramsés; oráculos devastadores, Omar Khayyam, Baudelaire... Fluem as sombras escuras dos galhos de uma árvore morta. Irrequietos psitacídeos agarram seu fragmento ínfimo de eternidade e, por um momento, incorporam o Estro universal e convertem-se num pequeno poema elegíaco por um mundo que, para sempre, está sendo deixado para trás ou, apenas, indo embora depressa.

(NM)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Tânio e Paulinho Camargo, o Nuctemeron

Quando a torrente do Tempo se desata, o melhor é deixar rolar. O blogueiro queria só enviar um exemplar de “Asas de Bolero”, pequeno volume que publicou há dois ou três anos, para Litai, filho do companheiro de juventude intensamente compartilhada no agito da Ribeirão Preto da segunda metade dos anos 60, o poeta Tânio Cintra e Oliveira, que preferia firmar seus poemas com o descansado pseudônimo de “Marcos Tranqüilo. Fossem quais fossem as vicissitudes de sua vida às vezes tumultuosa, não se exasperava. Foi-se embora no começo dos anos 70, num acidente banal de automóvel.  

O blogueiro conheceu o Litai e seus irmãos quando eles eram crianças, a Cidinha, mãe deles, muito jovem, na casa da Rua Constantino Spiropoulos, no Bairro dos Campos Elíseos. Seu nome remete ao de Li Tai Pó, o grande poeta chinês que, no arroubo de um tremendo porre, tentou alcançar, em noite clara, a Lua no espelho de um lago. Afogou-se, como a Ismália de Alphonsus Guimaraens, que deixou-se cair de sua torre na água, quando enlouqueceu. Seu irmão Camilo, como aquele Cienfuegos de quem ganhou o nome, morreu precocemente. Inaê, Tassiane, Nikê e Lorelai, suas irmãs: vivo louvor, águas, venerandas entidades. Litai mora em Franca, Noroeste de São Paulo, e foi o Paulo Sérgio, que exerce Medicina na cidade, quem mandou seu endereço eletrônico, a primeira possibilidade em mais de cinquenta anos sem qualquer contato.

Ele acolheu o livro, com as referências afetivas ao Tânio e à rapaziada, às moças também, que a confraria do Varal congregava à sombra de duas grandes figueiras na Praça XV, em Ribeirão Preto: o grande Leopoldo Limas esticava o arame em que pendurava suas pirogravuras. O bulício que formava vinha por conta própria. Litai pediu fotos do Tânio. O blogueiro não tinha. Então pediu ao Edinho (Edson José de Senne) também poeta do círculo do Varal que mora em Ribeirão Preto. Ele recorreu ao Fernando Braga, que é da paróquia, e ele mandou uma foto ótima, que chegou sábado à noite, por e-mail, muito bem-postos, da esquerda para a direita, Paulinho Camargo, Luís Leme Franco, Tânio e Laudelino Pires.

Na manhã de domingo o Edinho telefonou para dar a notícia da morte do Paulinho Camargo, presença querida e constante no Varal, onde começara a construir sua trajetória de grande pintor. Ô, meu irmão! Muita saudade.

Em 1967, sentado num banco de granito da Praça XV, à sombra dos grandes fícus que
sustentavam o arame, o Tânio acabara de compor o NUCTEMERON
(Poema Místico das Horas), que se atem a analogias e imagens do próprio poeta, não é remissão de verdade à obra do filósofo capadócio Apolônio de Tiana, o que o título poderia sugerir. Ali mesmo, tratou de transpô-lo para uma grande lâmina de cartolina, usando uma reles caneta esferográfica que o Paulinho Camargo ilustrou a bico de pena, praticamente num único transe. Depois, deu o poema ilustrado de presente ao blogueiro, que o guardou como pôde, mas a cartolina não aguentou os anos (muita chuva, sereno demais) e praticamente se esfarelou, mas o Ricardo Crepaldi fez um pequeno milagre e temos uma cópia.

Em 2013 este O&B postou o NUCTEMERON, no afã de registrar um momento bom do Varal. Agora, em homenagem ao Tânio e ao Paulinho Camargo.

 

O Nuctemeron - (Poema místico das Horas)

 

Na Primeira Hora:

 

Há possibilidade de todos os demônios

E os feiticeiros também,

Depois da terceira pinga,

Virem cantar cantigas de ninar

Com a voz plena de verbenas,

Para adormecer o recém-nascido

Ou empinar papagaios

No céu azul de Mitilene.

 

Na Segunda Hora:

 

Sisera e Torvatus são amigos e se prostram

Sob os grandes pés de Baglis, o Equilíbrio,

E de Hizarbim, gênio dos Mares,

Porque de duas mãos e dois pés,

De olhos em número de dois,

É a Harmonia

As serpentes estão em colóquio amoroso

Com os peixes do signo zodiacal

E, sobretudo, há um homem e uma mulher.

 

Na Terceira Hora:

 

A tríplice güela do Mastim de Hades

Faz saltar o fogo da vida,

Embora a morte que ronda a parturiente.

O temor é esguichado como o sangue

Que foge de suas entranhas

E, morto Zaroby,

Fica definitivamente constituída

A Santíssima Trindade.

 

Na Quarta Hora:

 

A Perfeição chega e toma forma:

É a figura humana em cruz,

Com quatro pontos cardeais.

Deus a envolve num círculo

E amarra em cada ponta

Um pedaço do destino.

No Norte está preso o Juízo,

No Oeste a Fornicação,

Do outro lado, quatro damas do baralho,

Cada qual de um naipe diferente

E, no Sul de tudo isso,

Ele calça com sandálias franciscanas

Seus pés muito brancos e bonitos.

 

Na Quinta Hora:

 

As Grandes águas se unem

E, dos passos de Suphalatus

Erguem-se o pó e a Liberdade

Que, com cinco copos de veneno,

Faz morrer quem a bebeu.

 

Na Sexta Hora:

 

O espírito fica imóvel e sem temor

E os monstros infernais

Mordem a quintessência,

Pois Haatan escondeu os tesouros

De Zaren, gênio vingador

E Adão faz desfilar os animais paramentados,

E a cada um dá um nome de batismo         

 

Na Sétima Hora:

 

A mulher, que é neta e avó de Deus,

Foi gerada pela vontade do homem puro,

O encantador de serpentes,

O que abre todas as portas,

E nasceu só para ser amado.

 

Na Oitava Hora:

 

Amarradas estão as pontas de uma estrela a outra

E desta, a outra, assim, num grande círculo.

O Sol tem em seu colo uma andorinha

E lhe fala ternamente, às vezes concupiscente.

Os tesouros, as escrituras e os mistérios

Podem ser comprados por qualquer mago

Ao Sr. Zoroastro, da venda da esquina,

Por um dólar americano e 25 cents.

Adão e Eva vão para a "suite" presidencial.

São dois quando se deitam

E quando se levantam são quatro.

Na porta ficou o cartaz: "Don't disturb".

Dentro, as baratas voam no quarto escuro.

Ao pé do elevador, 8 filhos os esperam,

Pois inflação tem dessas coisas.

 

Na Nona Hora:

 

Três vezes três,

Os mistérios do número nove

Não devem ser revelados.

E escolha é irrevogável,

Pois o fogo queimará a língua dos ladrões.

 

Na Décima Hora:

 

A Kabala nos fala

Do movimento circular da vida dos homens

E, separado o zero da unidade espoliada,

Fica o nada ou a morte.

As cortesãs da Pedra de ônix

Amam, nesta hora, os sacrifícios de crianças

Com a cupidez dos cães e dos profanos.

 

Na Undécima Hora:

 

As asas dos gênios se agitam.

Eles voam de uma esfera a outra

Com um ruído muito esquisito,

Levando pentáculos e simpatias,

Condenados que foram ao trabalho

Pelo Hierofante, que muda em talismã

Os gorjeios dos oráculos.

 

Na Duodécima Hora:

 

As formigas roem o mundo cadavérico

E os pingos da torneira furam o ferro.

Tarab, gênio da Concussão,

Bebe vodka nos vasos sagrados;

Misram, gênio da Perseguição,

Se enfada nas mesas do rei Édipo;

Labus, gênio da Inquisição,

Corre atrás do favor dos grandes.

Mas, há um Libertador prometido,

E se realizarão, pelo fogo,

As obras da eterna luz.

 

   Rib. Preto, agosto 67

    Marcos Tranqüilo