quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Dois sonetos mais ou menos ornitológicos

Que se emplee el que es discreto
En hacer un buen soneto,
Bien puede ser;
Mas que un menguado no sea
El que en hacer dos se emplee,
No puede ser.

Don Luis de Góngora y Argote


Um jovem Yantl inexperto em aves,
Que um dia quis, rendidas, submeter
Plumas e voz de um pássaro-mulher,
Pediu a um ancião Yantl as chaves

De ornitófilas artes, e os arcanos.
– Alenta-lhe com beijos, disse o velho,
A voltívola alma. E a tal conselho
Juntou ciência de idades e dos anos:

– “Beijos nas asas, sim, mas também pô-los
Em mãos e coração, que mais dilatam
As almas fêmeas do que versos tolos,

E em deixá-los, sobretudo, esmera,
À mulher-pássaro, onde desatam
Os cânticos e os dons da primavera”.



Ave Maria, ave de arribação!
Se tratas de escapar, assim, aos frios
Primeiros do outono de um coração
Antigo, feito ao seu destino, um rio,

Resigno-me ao teu lúcido alvedrio,
Que deixes para trás uma estação
Sombria e gélida, o plúmbeo vazio,
Pelas auroras cálidas de verão!

Guiem-te, lépidas, mulher-hirundina,
As mais gentis e mais suaves correntes,
A enseada azul de águas transparentes.

Tuas claras manhãs, ave peregrina,
Saúdem, cordiais, delfins reverentes:
– “Tenhas um lindo dia, ave-menina!”

(Rib. Preto/1967)
Pode ser que o primeiro texto tenha sido postado neste O&B, mas já faz tempo. A nova postagem é mais pra não perder a oportunidade da epígrafe de Góngora. No mesmo jogo de oportunismo, o blogueiro achou uma jóia barroca do poeta cordobês no magnífico livro “Góngora y el Polifemo”, de Damaso Alonso. Aí, a refinada ourivesaria e a ornitologia mais sutil, embora em brevíssima referência, ao rouxinol, no caso, o primor das imagens, exerceram influxo irresistível para que se impusesse nesta nota. Os versos são de 1609, mas O&B nunca teve conceitos muito claros de atualidade e, no fim das contas, poesia é assim mesmo. Passemos ao rouxinol de Góngora:

“prodígio dulce que corona el viento,
en unas mismas plumas escondido
el músico, la musa, el instrumento.”     

Não sei de quem é a foto da andorinha; a da coruja é do Daniel Esser, que acaba de voltar de Afonso Cláudio, Espírito Santo, ande andou fotografando passarinho:


(NM)

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O tempo valioso de Mário de Andrade

Começou num botequim dos botequins de BH uma discussão ociosa sobre a fama que São Paulo tem, de exportar desastres políticos, uma grande bobagem, pois não teria pra onde exportar, dada a total auto-suficiência  quanto a esse item, em qualquer parte do território compreendido entre o Oiapoque e o Chuí. Isso pode ter origem na desastrosa experiência do janismo, alentada pela recorrência de natéis, malufes, quércias, pitas, fleurises, o delegado e o outro, etc. Mas a conversa começara, mesmo, foi com a fórmula “roubo, mas faço”, que se atribui ao governador paulista Adhemar de Barros, uma síntese do mais que perfeito cinismo universal.

Mas esse é o lado tenebroso de uma realidade que tem facetas muito mais relevantes, facetas esplêndidas, diga-se. Para um blogueiro que viveu a gala da juventude em Ribeirão Preto, muito acima da mesquinharia dos políticos paulistas e de quaisquer outras partes do Brasil, é fácil contrapor a humanidade e a arte de Euclydes, Portinari, Adoniram, da turma da Semana de Arte Moderna e de tantos outros que nos alegram e enriquecem.

Posto aqui um texto do grande Mário de Andrade (1893 – 1945), só pelo prazer de lembrar e desfrutar  do humanismo profundo, da generosidade e sabedoria de um brasileiro, de São Paulo, no caso, que nos deu a todos a referência essencial de “Macunaíma”.

O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS

Mário de Andrade


Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.

Tenho muito mais passado do que futuro.

Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.

As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.

Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.

'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...

Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,

O essencial faz a vida valer a pena.

E para mim, basta o essencial!

sábado, 27 de julho de 2013

De repente, um tapume pintado de azul

                             
                              “Cada tauba que caía //
                                     doía no coração (...)”
                              (Saudosa Maloca - Adoniram Barbosa)


Bastaram dois dias para que um enorme gafanhoto mecânico dotado de muitas manhas hidráu-licas, colossais dentes de metal, pusesse abaixo todo o conjunto de edificações que, heterogêneo, se sustentou, desde antes de adquirir os privilegiados, e especulados, foros do Bairro da Savassi, por décadas e décadas, com muita dignidade, na esquina de Fernandes Tourinho com Rua da Bahia. Quem pôde observar aquele estranho inseto desincumbindo-se da tarefa de demolir tudo que se erguia na área de 1.200 metros quadrados, sei lá, também pôde achar que, de fato, os dois dias foram o tempo que o monstro gastou para devorar telhados, alicerces, tubulações, telhas, assoalhos, ferragens,  rede elétrica, de águas e toda a alvenaria do grande sobrado mais ou menos arruinado, mas firme em suas fundações e paredes, e das casas e lojas ao redor, incluindo uma de construção mais ou menos recente, com um lindo pé de pitanga no terreiro, muitas rolinhas e bem-te-vis, bicos-de-lacre, algum sabiá.

Era um conjunto de edificações vivo, pulsante. Muitas pessoas nasceram, trabalharam, viveram nele, abrigados, protegidos como pássaros, abelhas, borboletas, num grande pé de jatobá, coisas pequenas, insignificantes, que o madeireiro jamais considera ao derrubar uma árvore. É assim de simples, embora no espaço urbano a construtora que elevará no local mais uma torre de concreto tenha precisado de uns quantos meses, algum dinheiro e, claro, de advogados, até que todos se conformassem em deixar o que, para qualquer empresa, era um espaço para construir, para eles o lar, doce lar, o local de trabalho, de ganhar o pão da vida.

Não tem jeito. A especulação imobiliária é poderosa e voraz. Paulatinamente foram desalojados o barbeiro, o relojoeiro, a lavanderia, o salão de cabeleireiro e manicure, a pequena oficina do eletricista, a do bombeiro; o pequeno restaurante, à hora do almoço, exalava olores e odores da cozinha mineira, frango com quiabo, vaca atolada, rabada com agrião e angu; costelinhas de por porco bem fritinhas, sempre; no galpão com teto de estrutura metálica, um “sacolão” oferecia frutas e hortaliças frescas à vizinhança; a colchoaria funcionou no local desde quando a Rua da Bahia nem chegava à altura do Minas Tênis Clube que, aliás, nem existia, além da loja e oficina do estofador...  O artesão das palhinhas preferia trabalhar na calçada, à porta de entrada do sobrado, tecendo assentos e espaldares de cadeiras e canapés.

O “mercado” é assim mesmo. Pessoas não contam, não entram em sua contabilidade nem fazem parte de sua lógica. Pode-se argumentar que o novo espigão será ocupado por outras pessoas, centenas de pessoas. É aí que está o busilis. Com tanta gente, tudo fica impessoal, não haverá mais qualquer termo de convivência, aquilo de você por o pé na Rua da Bahia e já ir dizendo “bom dia Fred”, “olá, Margarida”, “ô, Moreira, meu relógio já está andando?” Nada, nada. Sem nome nem alma, a multidão que vem traz tédio, muito, e muita solidão.

Depois de tudo derrubado, o material da demolição foi posto em caminhões e levado não se sabe pra onde, tudo em não mais do que dois dias. Nesse ínterim, foi construído o tapume, estacas e placas de aglomerado de madeira, uma base de tijolos, para proteger a obra prestes a começar. Do lado da Rua Fernandes Tourinho um grafiteiro anônimo registrou com letras grandes no tapume novinho a sua bronca: “BH, cidade sem memória”.

Não dá pra saber se foi por isso que, rapidinho, os donos do tapume fizeram-no pintar de azul, um azul-petróleo até bonito, contraponto pálido, porém, ao esplendor sem nuvens dessas tardes de julho de luminosidade incomparável. No ar fresco e transparente, o azul se expande desconcertante, profundo, em todas as direções. O grafite agora é um palimpsesto, enquanto, pretensioso, o tapume alça-se com suas tintas para o céu alto. É muita demasia, contudo, achar que possa realizar-se “nel blu dipinto di blu”, como na canção de Modugno. Calma, meus amigos. Isso é só metagoge ociosa e fora de propósito, a primeira. Outra, também ociosa, increpa com afeto a cidade do coração:

– BH, BH, que ingrata, pensares que a gente nem te liga! Liga sim. Liga demais.


(NM)

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Sônia Galastro conta mais de seu Planeta África

“Saímos de Doko, na República Democrática do Congo, num monomotor de doze lugares com destino a Bunia. A parada nesta cidade é para um segundo controle de passaporte e do vôo (com algo relacionado a espaço aéreo). A pista de pouso em Doko é uma pequena faixa de terra que agora foi aumentada em seu comprimento para que haja mais tempo para a freada dos aviões.

Ao subir na balança (devido ao tamanho da aeronave é preciso pesar mala e passageiro!) fui logo comentando que eu havia engordado muito ali no Congo, para gargalhada geral. É que no meu francês enferrujado troquei a palavra "grossir" por "grossesse" (ou algo assim) ou seja, eu havia dito que tinha me engravidado ao invés de ter engordado! Foi um senhor (belga ou francês) que veio em meu socorro com toda a sua franqueza. E foi este mesmo homem que me ajudou uma segunda vez com a tradução quando, já em Bunia, eu quis saber sobre uma aglomeração de pessoas, entre elas muitas mulheres, padres e alguns guardas (e quase todos usando uma camiseta cuja estampa era um rosto de mulher) no aeroporto asfaltado da cidade, onde também havia vários helicópteros das Nações Unidas.

O segurança já havia me dito que eles aguardavam um cadáver que estava para chegar. Mas foi o senhor franco-belga (?) que se ofereceu para ir colher mais informações para a minha mente inquieta. "Foi a mulher do arcebispo que faleceu. Por isso há vários padres aqui", disse ele. Pouco depois chegou uma caminhonete repleta de mulheres batendo palmas e cantando em suas roupas muito coloridas. Mas era o amarelo que predominava. 

Não pude ficar para ver o que se sucederia porque já estava na hora de embarcar. E, de volta no monomotor, sobrevoamos o lago Albert até o lago Victoria, em Entebbe (Uganda) num vôo de uma hora. Cruzando-se o lago Albert (também chamado de Mobutu Sese Seko, o ditador congolês) que pertence aos dois países, se cruza  também uma fronteira.

De Entebbe iríamos direto para Kampala, a capital, mas uma de minhas malas só viria no vôo seguinte e, assim tivemos que fazer uso da pousada da companhia em Entebbe até que a mala chegasse. Cometi o erro de colocar a bagagem de mão dentro da mala para ter de carregar apenas um volume, e isso causou excesso de peso. Só fomos saber disso quando já tínhamos aterrissado! Aproveitamos então para descansar e comer um "ugali" (angu branco) com molho de tomate e pimentão.

O fuso horário na Uganda é de uma hora na frente do Congo (RDC) e seis horas na frente do Brasil. Já era tarde quando chegamos a Kampala depois de uma viagem praticamente em linha reta numa estrada boa, mas de tráfego bastante intenso.
Quando chegamos ao hotel tivemos a grata surpresa de que nos seria dada uma suíte ao invés do "standard" reservado, pelo fato de o hotel estar lotado devido a uma visita dos presidentes da Tanzânia e de Rwanda, com suas comitivas, àquele país. Mas porque haveria uma suíte disponível para nós? Não compreendemos, mas aceitamos de bom grado aquilo que faria a celebração de nossos vinte e cinco anos de relacionamento bem mais prazerosa!

Já no bar do hotel, Benson ao piano nos homenageava. Depois veio dividir um drink e uma prosa conosco assentados ao scotch-bar. Na tevê ligada sem o som, as imagens me diziam que Nelson Mandela não iria esperar o nosso retorno à África do Sul. Senti um aperto no coração. Em Kampala visitamos o Museu Nacional, que tem uma boa gama de instrumentos musicais, depois o local onde os reis da etnia buganda são enterrados (Kasubi Tombs) e, finalmente, o palácio - residência real de Kabaka, rei buganda. Buganda é um grupo minoritário, semi-independente, com população de uns 2 milhões de pessoas. O rei buganda é uma figura símbolo na Uganda porém com poderes limitados.

Dentro da região do palácio (que não está em funcionamento), mas afastadas do prédio, estão as câmaras de tortura usadas por Idi Amim durante seu reino de terror. Causaram-me arrepios e indignação. Mensagens de desespero escritas com fezes ou sangue nas paredes são testemunhos das atrocidades da época. Mais de 300 mil pessoas morreram durante a ditadura. O governo atual está no poder há quase trinta anos. Conversei com muitas pessoas e todas querem mudanças, mas as coisas não são tão fáceis assim. A história do país é carregada, pesada, muito embora o dia a dia das pessoas não o denote.

No dia 27 de junho, Sam (cujo nome africano é Kazibwe) - nosso guia e motorista - veio nos apanhar no hotel para uma longa viagem que atravessaria inclusive a linha do equador. Na estrada, Sam nos distraía com conversas e palavras em Luganda: matooke = banana (na estrada havia bananeiras e bananas a perderem de vista e que, segundo Sam, foram importadas do Brasil primeiro, pela Ásia e, depois pela África); mwengue/muganga = cerveja local feita de banana; bulamo = vida e asssim por diante. As cobras são animais satânicos e o "Crested Crane" é o pássaro nacional.

Grandes mamíferos, os primatas de Bwindi

A infinidade de motocicletas, fabricadas e importadas da Índia, são chamadas de "Boda Boda" e carregam vários passageiros, quando não uma família inteira. Em uma delas cheguei a ver um neném dentro da jaqueta (na parte das costas) do motorista. A necessidade leva as pessoas às mais diversas formas de criatividade. Gastamos umas sete horas e meia de viagem de Kampala até o Parque Nacional Rainha Elizabeth (Sam e eu fizemos um pouco de "poko poko" ou seja, fofoca: porque é que esses "benditos" governantes não trocam o nome deste parque e de outros lugares que cheiram a colonialismo? Certos governantes não gostam de escutar essas coisas.)
Ainda na estrada pudemos avistar de um ponto mais alto o grande vale Rift de uma beleza sem igual, e por onde passearíamos em ocasião seguinte. Também passearíamos de barco pelo canal de Kazinga, onde avistaríamos búfalos, elefantes e hipopótamos em seu habitat natural. Embrafustaríamos mata adentro na reserva de Kyambura numa caminhada de três horas, na tentativa de vermos alguns chimpanzés. No meio da savana, que só se vê em filmes, avistaríamos os famosos leões que sobem em árvores.

Tudo isso era uma prévia para a finalidade principal da viagem: ver os gorilas das montanhas! Mas estes não vivem no "parque da rainha" e sim na impenetrável floresta de Bwindi, o que fez com que levássemos mais meio dia de estrada. Bwindi, na verdade significa "impenetrável", "escuridão". E o parque onde vivem - patrimônio da Unesco - chama-se "Bwindi Impenetrable Forest National Park", situado na parte oeste da Uganda. O parque possui metade da população mundial de gorilas, ou seja, por volta de 350, além de outros animais, entre eles chimpanzés. A Uganda tem a maior concentração de primatas no continente.

Nossa pousada, de frente para a impenetrável floresta, tem doze quartos e foi quase toda construída utilizando-se matéria prima local como cipó, sisal e pedra ardósia cor de rosa. Nos anos 90 os pigmeus Batwa foram retirados da floresta e transferidos para áreas nas cercanias da comunidade de Bwindi. Tivemos oportunidade de visitar uma das famílias de pigmeus, que atualmente precisam do turismo para a sobrevivência. E em 1994, a floresta foi declarada patrimônio da humanidade.
Da pousada eu ouvia um tocar de tambores constante, mas só no dia seguinte, quando fui dar um passeio pela comunidade com Sam, é que descobri que os tambores eram tocados por uns meninos que fazem parte do grupo de órfãos (257) da região. As crianças dançaram para mim, espectadora única, enquanto uma rápida tempestade desceu dos céus. Foi a conta de Sam arranjar uma sombrinha e a chuva passar como se nos ignorasse.

O dia 30, um domingo, foi realmente o grande dia. Da pousada Sam nos levou para a entrada do parque Bwindi onde os funcionários (guias e ajudantes) nos ensinam sobre os gorilas e a floresta e depois nos dividem em grupos. São três grupos de oito pessoas por dia, com apenas uma hora para ver os gorilas a partir do momento em que os encontramos. Alguns guias com GPS os localizam anteriormente à saída dos grupos. Podemos caminhar quarenta minutos como foi o caso do nosso grupo, ou levar um dia inteiro, como no caso de um casal de alemães, para chegar aos primatas. Cada grupo é selecionado para visitar uma das três famílias de gorilas da região. Confesso que foi uma experiência muito emocionante ficar quase que cara a cara com aqueles animais que dividem conosco (humanos) 95 ou 98% dos seus gens. E como eles são dóceis! Há tanto o que aprender com a natureza!

Bonito, sim, mas tudo longe demais

Já a viagem de volta a Entebbe, sem passar por Kampala, durou doze horas e meia de automóvel, sendo que Sam parou para descansarmos e almoçarmos numa cidade chamada Mbarara. Pouco antes dessa cidade há uma central de um campo de refugiados. Aqui eles são recebidos, vindos de outros países fronteiriços, e depois distribuídos para outros campos, de acordo com suas nacionalidades. Passamos também por uma fábrica de remédios que usa as ervas locais. [Quando visitei os pigmeus adquiri um livreto sobre as plantas medicinais que eles usavam (creio que não usam mais porque foram retirados da floresta) e que foram catalogadas por alguns estudiosos.]

Minha imaginação se perdeu nessas tantas horas de viagem, em meio a observações atentas, com olhos bem abertos, de tudo aquilo que passava caminho afora. Desde gigantescos e pontudos chifres de bois ou as intermináveis plantações de bananas até os cenários de esculpidas belezas naturais coloridas, às vezes, pela densa poeira levantada nas estradas.

Um sol vermelho e fulgurante sobre as águas do canal de Kazinga ainda estava preso na memória,  qual um amanhecer que não findasse. Nas montanhas e na alma restava o frescor vivo da floresta impenetrável. E a imagem daqueles robustos e dóceis primatas se assentava de maneira delicada no pensamento que apenas recordava. Cinesia e estagnação perfuravam vivamente  minhas retinas ávidas e maravilhadas, enquanto eu pensava em como a Mãe África é realmente abençoada. Seja através das pequenas gentilezas do gerente Mordecai ou do canto sincero dos órfãos de Bwindi. Terra e gente confundem-se, se mesclam, e me inundam de uma sensibilidade tão profunda de quase atropelar o coração. No ar há algo de misericordioso. E criancinhas acenam, sorriem e correm paralelas às rodas do carro que pulsa lentamente no curso árduo e sinuoso da estrada.

Era já início de noite quando atingimos a margem do lago Victoria para o atravessarmos em um ferryboat do governo. Na outra margem estava Entebbe. Porém, a poucos metros do ferryboat, nosso carro pede arreglo. Um ajuste de contas justo para uma viagem longa e penosa. Sam fica desolado por não conseguir amenizar o cansaço do automóvel. Nós apaziguamos os ânimos dele, sugerindo pegar um dos barcos de madeira motorizados disponíveis também para o transporte até a outra margem. Sam deixa de sorrir. O incidente esvaiu-lhe as forças e a alegria.
Tiramos malas e mochilas do carro e as carregamos até o barco. Colocamos umas sujas e surradas jaquetas salva-vidas e, em poucos minutos, atravessamos esta parte estreita do lago. O carro, empurrado por uma dúzia de mãos, fica lá num canto aguardando a solução e o retorno de Sam. Ainda transtornado, Sam negocia um carro parado na margem de Entebbe para nos levar até a pousada. Carro brilhante de polido em meio a todo tipo de coisas e pessoas a serem desembarcadas ou embarcadas no ferryboat: bananas, cabritos, sacolas cheias, crianças...

Tão logo o carro parte, observo que o ponteiro da gasolina está na reserva e a luz está acesa no painel. Comento minha observação com Bruce, que apenas esboça um sorriso. E assim esperamos que o automóvel nos leve até a pousada para um merecido descanso. Essas coisas acontecem, dizemos um ao outro. E recostamos a cabeça no encosto do carro até que, finalmente chegamos à pousada. Já é noite. Mas estamos felizes, satisfeitos. Com um grande aperto de mão nós nos despedimos de nosso guia e companheiro de jornada. Adeus, Mr. Kazibwe. Até uma próxima volta, com certeza.

Abraços saudosos,


Sônia”

sábado, 29 de junho de 2013

Collage parisienne

O que se diz é que os anos trazem sabedoria, experiên-
cia, essas coisas. Que nada! Eles vêm para surrupiar, espoliar, reduzir possibili-
dades, principalmente as que mais graça dão à vida. Aceitá-los, por inexo-
ráveis, requer doses cada vez mais altas e concentradas de humor, sem as quais nem daria pra gente ir levando. Um blogueiro se aborrece com o coro de cigarras que invade suas insônias, como um discreto chiado, às vezes, às vezes como manifesto zumbido de enxame que, se chega associado a uma boa enxaqueca, pode transformar-se em estrídulo trilar de muitos grilos.

Sem levar em conta, por insidiosa, asserção segundo a qual mineiro de Minas Gerais não fica doido, mas pode piorar, a lembrança de um sujeito lá do Sudoeste,
 “vem mesmo a calhar”, como aquelas cordas que surgiam do nada nas histórias em quadrinhos. Ele só resolveu enlouquecer depois que começaram a retinir dentro de sua cabeça os sinos de Notre Dame.

Tinha desses fumos, Europa, cultura francesa, Faubourg Saint Honoré, Rive Gauche, Quartier Latin, Montmartre, Montparnasse, Brigitte Bardot, la Deneuve, Le ça ira, ça ira, ça ira  Piaf, Piaf, Le ciel bleu sur nous peut s´enffrondrer // Et la terre peut bien s`ecrouler // Peu m`importe si tu m`aimes // Je me fous du monde entier...

Oh Paris! Mon coeur, mon amour, Aznavour, mon oncle, Tati, tatibitate, petit pois, petit gateau, Josephine Baker, Woody Allen, Nijinsky, Picasso, Claude Debussy, crepe suzette etceterá.  E com a mesma interjetiva e sincera admiração, Montmorency, Chenonceau, St. Aignan, Langeais, Azai-de-Rideau, Le Lude, Amboise... Oh, Loire, ces chateaux!

Tudo bem, mas se o ouvido insiste em ouvir independentemente de quaisquer estímulos externos, o jeito é consultar um especialista.

- Não se preocupe. Isso geralmente ocorre quando há alguma perda de capacidade auditiva, que sempre vem com os anos.

- Ah, bom. Então é assim. A gente vai ficando velha e surda. Aí começa a ouvir abelhas zumbindo com suas lépidas asinhas, mesmo que não existam abelhas, só o silêncio da noite estrelada!

A audiometria apenas confirma o prejuízo da percepção de algumas freqüências mais agudas.

- E aí, doutor.

Veio a prescrição, umas pastilhas que deveriam inibir a auto-estimulação do nervo ótico e, pelo menos, baixar o volume dos zumbidos, nada, pois, tão intenso ou dramático feito aquele pneumotórax do poema de Bandeira, nenhum tango argentino. As pastilhas, uns placebos ordinários. Otorrinolaringologicamente, advérbio e tanto, que fiasco! Mas ligar pra isso, pra quê?

La Marianne, ou a Liberdade (de Delacroix) conduzindo o pobo, barricadas, Gavroche, as cabeças de Danton e de Camille Desmoulins, em outra cesta a de Maria Antonieta e, suaves, as mãos de Teresinha de Lisieux, aquele olhar tão meigo vindo do seu “santinho”. E tons sombrios de Baudelaire, linhas imprecisas de Mallarmé, cores vivas de Toulouse-Lautrec; de Breton e Antonin Artaud, as desusadas formas...  Perturbar, em seus devaneios fauvistas, entendiada odalisca de Henri Matisse, nem pensar. Nem desviar de seu destino branca caravela.

Maximilien de Robespierre, Saint-Just, Jean-Paul Marat, Napoleon... Napoleon, eu? Non. Ainda non.


(NM)

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Pequeno tributo a Carlos Alberto


Carlos Alberto foi embora. Com a mesma dignidade e compostura que manteve ao longo da vida, aos 78 anos, depois de haver lutado com valor admirável contra um inimigo cruel e implacável. Recebeu a Parca sem amargura nem ressentimento, limpas, as mãos, a alma limpa, a vida exemplar até o último momento. Lutou muito pela vida, mas resignou-se estoicamente à Fatalidade, que poderia reconhecer em quaisquer circunstâncias, posto que, embora natural de Belo Horizonte, era filho de pai e mãe portugueses. Ao se aproximarem os mensageiros dela, ele os teria reconhecido, mesmo se não tivesse sido catedrático de Clínica e Cardiologia da Faculdade de Medicina da UFMG e médico dos mais qualificados. Ele tinha  a paixão da Medicina, que exerceu e dignificou como professor ou no prestigioso consultório que manteve por mais de 40 anos.

Numa manhã de domingo, dos domingos lá do Tip Top, ele contou, sem qualquer afetação ou jactância, antes com o humor refinado e sutil com que podia enriquecer qualquer conversa banal, que havia auscultado vida afora corações aos milhares, corações de jovens, de velhos, de homens, mulheres e crianças. Meticuloso, chegara a um número estimado cuja ordem de grandeza perdeu-se em desvãos da memória, mas a referência que ficou é de um número estratosférico.

Assim era o doutor Carlos Alberto, a vida a auscultar corações, o que continuou fazendo mesmo depois de fechar seu consultório de médico e mesmo sem estetoscópio. Ele auscultava, auscultava, sempre com o maior interesse humano em cada pessoa que se acercasse dele, cujas vicissitudes se esforçava em compreender e aceitar. Na manhã do Domingo de Páscoa, cercado de muito afeto, ele acolheu com serenidade a Parca que, respeitosa de sua inteligência brilhante, da lucidez cabal de homem culto e sábio, até o último instante permitiu-lhe conservar em toda inteireza.

Carlos Alberto de Barros Santos tinha, também, a paixão da literatura, que cultivou desde a juventude e, como poucos, conhecia o caminho dos poetas, vivamente conservados em sua memória de prodígio versos e mais versos, os mais candentes. Vê-lo e ouvi-lo dizer de cor textos inteiros de Shakespeare, poemas de Poe ou John Donne, de Keats, de quem gostava tanto, era parte do privilégio de sua convivência. Também podia declamar Bandeira, Drummond, Abgar Renault ou cantar, embora não fosse propriamente cantor, qualquer composição relevante de nosso cancioneiro popular. Com as letras e o idioma francês tinha a maior intimidade.

Há pouco mais de dois anos, este O&B começou a ser veiculado na rede eletrônica e, com generosidade e despojamento, Carlos Alberto iniciou a colaboração só interrompida pelas insuperáveis adversidades que, de uns meses para cá, passou a enfrentar. Foram mais de cem textos, incluindo crônicas, ensaios, um ou outro poema, cartas, artigos, comentários, tudo impregnado do mais denso e intenso humanismo, qualificado por sua grande cultura e erudição.

No dia 1.o de janeiro deste ano O&B publicou o último texto enviado por Carlos Alberto, primoroso, brilhante, que em sua brevidade oferece toda a dimensão do homem sábio, consciente do precário da existência:

Caminho de flores

– O quê vamos beber neste fim de ano? – dizia-me um amigo que já não está neste mundo.  

– O que aparecer, respondia-lhe. Não era uma resposta convencional, era pura verdade: cerveja, uísque, vinho, pinga, o que surgisse.

Pois bem, fim de ano é isso mesmo, o que for oferecido a gente manda pra dentro, e tudo, como no poema drummoniano  é “farra honesta acabando em confidência”. Afinal, se não tivesse outra importância – e acho que não tem – a passagem de um ano para outro, empanturrada de bebidas alcoólicas, serve ao menos para renovar esperanças, aquelas mesmas que começamos a cultivar no início da vida consciente, envoltos na clepsidra em que nos escoamos e – Quem sabe? –  para nos lembrar de que somos feitos de matéria perecível.

Dirão os racionalistas, entre eles eu mesmo: é somente uma data, o tempo não para nem divide nada. É verdade. Só que a marcação serve para dimensionar o lugar que nos foi imposto sem sabermos pra quê nem por quê.

Durante essa caminhada, por vezes tortuosa e agreste, convoco a todos para que procurem divisar, acima de tudo, as árvores floridas que a circundam. (Carlos Alberto)     

A contribuição de Carlos Alberto de Barros Santos deu a Ociosidades & Bagatelas, que começou como uma brincadeira, o vigor que só uma inteligência poderosa como a dele poderia ter injetado. O blogue passou a ser algo que merecia ser lido, e nossos amigos responderam com um número de acessos que já se aproxima dos 16 mil. Pois é. Na manhã do Domingo de Páscoa, Carlos Alberto foi embora. Serenamente. (NM)

quarta-feira, 13 de março de 2013

Voltando ao peixe à comodoro da Cantina do Lucas



Voltar à Cantina do Lucas, no Maletta, Avenida Augusto de Lima com Rua da Bahia – BH, depois de muitos anos e achar tudo igual! Mas as caras, poucas, na hora de pouco movimento, eram novas, irreconhecíveis. Melhor, pelo menos a quem queira povoar as mesas vazias com fantasmagorias da própria juventude, mero truque, porém eficaz, que a gente vai aprendendo à medida em que a vida se estende – Ou se encurta, sei lá! – para transformar ausências em presença e, assim inverter a roda do tempo, impor-lhe, quando  absolutamente necessário ao nosso coração, um conveniente sentido anti-horário. Isso de saudosismo é uma grande bobagem, mas é aceitável qualquer artifício para reencontrar afetos, desde que não se perca a capacidade de contemplar as estrelas altas.

Foi chegar lá, bem na entrada da Augusto de Lima do Edifício Archangelo Maletta, à esquerda, e deparar com fantasmas, muitos e muito queridos. Não dá pra enumerar a todos, por isso de chegarem em turbilhão. Mas sempre é possível nomear os que chegam de mansinho, como o espírito generoso e sábio do prof. Moacir Latterza, cuja  voz pausada e clara fazia eco a Jacques Maritain e a Alceu de Amoroso Lima, mas ensinava que a invenção do tambor e a descoberta de suas possibilidades essenciais por algum primata ancestral, precede o milagre da palavra articulada. E veio a aura tranqüila e gentil de seu Olímpio, o mítico garçom, com seu sorriso calmo e a genuína alegria de receber e atender os amigos da casa. E “ouvir” Geraldo Magalhães compartilhando entusiasmo e emoção sobre a arte de Fellini, que tanto amava, “Dolce Vita”, “Oito e Meio”, e “Amarcord”, então em exibição em cinemas da cidade.

Você reacende um circuito de lembranças que, de repente, devolve a entrada do Lincoln Gonçalves e do Délio Rocha, compenetrados e decididos em direção ao fundo da galeria para, certamente, pararem no Lua Nova, onde haveriam de refrescar o começo da noite numa cerveja, desfrutarem seu convívio de velhos amigos e a conversa sempre inconclusa de jornalista. Também sem alarde, vem a lembrança de Achilles Reis, cronista de turfe e de outras coisas mais, ativo, quase irrequieto, disposição excelente, o humor sempre refinado e vivo, aproximando-se na companhia do Rogério Carnevalli, com quem ainda se pode tomar um chope ou outro lá no Tip Top. – E então. Você tem uma “barbada” pra mim?

Ele retruca com solicitude: – Sábado tem bons páreos. Mas não sei se dá pra encarar. Uma pule? Difícil. Talvez um placê.  

Pois é. Mas não eram os cavalos o que nos aproximava, e sim os tangos, o tango, outra paixão do Achilles,mas ele misturava as duas coisas. Conheceu nos hipódromos da vida o lendário Irineo Leguisamo, jocquey preferido de Carlos Galdel, de quem mereceu “Leguisamo solo”, tango com letra de Alfredo Le Pera, e que mais de uma vez disputou e venceu o Grande Prêmio Brasil. O papo com Achilles não acabava antes da gente cantarolar “La Cumparsita”, “Mano a mano”, “Esta noche me emboracho” e, claro, “Por uma cabeza”: ...que al jurar sonriendo // el amor que está mentiendo // quema en uma hoguera // todo mi querer...   Isso, na Cantina do Lucas ou onde quer que a gente se encontrasse.

Assim, de um jeito quase mediúnico, reencontrei na mesa do Lucas onde a gente celebrou a apresentação de Jesus Cristo Superstar em BH, no início dos anos 70, Tadeu, que atuava na peça, Tânio, Gilberto Naldi, Belmiro Arruda, que também atuou no espetáculo, Estêvão, sujeito miudinho, que nem chegava ao metro e sessenta, porém um barítono desses de coro de igreja ortodoxa.

Da pequena “varanda” que se debruça sobre a rampa de acesso a gente tem uma visão ampla da galeria. Às vezes, lá no fundo, duas mesas deslocadas do Lua Nova até o outro lado do grande corredor de acesso, próximo à escada rolante, acolhiam, uma, o Geraldo Magalhães, o Zé Nava, irmão do grande memorialista, e Amélia. Bebiam devagar a cerveja e conversavam, conversavam. Literatura e cinema, naturalmente. Na outra, a gente podia ver, de vez em quando, o Luiz Fernando Perez e o Chico Brant, da sucursal mineira do Estadão/Jornal da Tarde. Em uma ou outra ocasião, Carlos Pereira, também jornalista, juntava-se a eles. Lua Nova não tem mais, mas se essa trinca querida se dispuser a voltar ao Maletta, poderia ser no Lucas ou num dos novos botequins das recém recuperadas (agora dizem “revitalizadas”) varandas da sobreloja, de frente para a Rua da Bahia, eu bem que topava. Ninguém precisa ir de paletó nem gravata, seria só pra espairecer um final de edição imaginário, sabe como é.

Agora o seguinte: a gente encontra no cardápio do Lucas algumas das mesmas preciosidades do tempo em que jovens estudantes das sólidas repúblicas do Maletta, uma ou outra “sereníssima”, feito a de Gênova, se aboletavam ruidosamente para desfrutar o melhor talharim parisiense da cidade ou o peixe à Comodoro, que continua ótimo, mas já não vem com os dois talos de aspargos espetados na crosta gratinada sobre o molho, que sugeriam mastros de caravela. Ainda estão no prato, mas cortadinhos, embutidos, lá dentro.

Mas essa é uma remissão a um tempo diferente da Cantina do Lucas, anterior, em que nem tudo era bulício. Podem perguntar ao Paulo (Faleiros), ao Wagner Issa, ao Júlio, ao Mané Coco, a qualquer um dos Tonhões, ao doido ou ao outro, ao Jonas Moses e a tantos mais, à Sônia, a Maria Izabel, a Marlene, à Silvinha... A conversa cáustica, áspera, contra a ditadura sufocante era murmurada entre dentes, porque os delatores estavam por toda parte e também na cantina, mas sempre havia o sussurro brando de palavras amorosas, só para os ouvidos da namorada. (NM)

terça-feira, 3 de julho de 2012

Já ninguém se chama Guiomar

Desde uma mesa de lanchonete, foi possível observar um rapaz chegar de mansinho e puxar conversa com a moça que, solitária, ocupava a mesa ao lado. – Olá, posso sentar um pouquinho? Ela assentiu, tímida, apenas balançando a cabeça. Mais desenvolto, ele disse: – Linda! Você é linda. Como é que você se chama? – Guiomar. Meu nome é Guiomar, repetiu. Fingindo perplexidade, ele retrucou: – Quê que é isso? Ninguém mais se chama “Guiomar”.

Ficou nisso,

porque o garçom chegou com a conta, e a atenção foi para ele, mas a asserção bizarra não se esvaeceu. Mas foi fácil comprovar que, embora não se trate mais de um nome da moda –  meninas hoje são batizadas de “Luísa”, “Isabela”, “Ana Carolina”, “Ana Letícia”, por aí – não está totalmente fora de linha como, por exemplo, “Urraca”, que tantas damas portuguesas e castelhanas levaram orgulhosamente em séculos, digamos, “mais pretéritos”. Ainda tem muita “Guiomar”. Só na lista telefônica de BH elas são 98.

Melhor que consultar catálogos, foi aceitar a sugestão de uma “visita”, ainda que breve, à poesia vital, eterna, de Antonio Machado, de voltar àqueles versos de seus Provérbios y cantares XXIX, em Campos de Castilla, que o cantor Joan Manuel Serrat, com voz poderosa, expandiu até os limites do Universo:

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
Se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.


Depois, sim, as Canciones de Guiomar, que a gente lê, relê, de novo, e não se cansa de jeito nenhum.

Nome de cancioneiro

“Guiomar” aparece com freqüência em nosso cancioneiro, inclusive em composições bastante recentes, como no “partido do meu compadre Nei Lopes”, a canção e o compadre do Zeca Pagodinho: “Num pagode no Salgueiro, conheci a Guiomar” que “Devagar, bem miudinho, me chamou pra vadiar”. Depois sumiu e deixou transtornado o pagodeiro: “Já faz tanto tempo, mas, de vez em quando // Eu acordo chorando, sem saber por que. // Ô Guiomar, Guiomar!”

A canção “Sereia Guiomar”, de Délcio Carvalho e Dona Ivone Lara, conta história de pescador: “A sereia Guiomar mora em alto mar // E como é bonito, meu Deus, // O canto dessa sereia.” O problema é que “Manoel pescador // Ouvindo um canto tão lindo // logo se apaixonou.” E, claro, se afogou.

Só pra dar mais consistência à conversa, segundo o Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, Guiomar é um prenome feminino da onomástica portuguesa, e castelhana, por supuesto, provavelmente de origem germânica, composto de wig e mar, combinação que corresponderia mais ou menos a “célebre combate”. Desde o Século XIII o nome Guiomar tem registro em nosso idioma, procedente do francês Guimard.

Admiração de Manrique

É mais do que conhecida a admiração de Antonio Machado por Don Jorge Manrique, o guerreiro e poeta que distinguiu Guiomar, sua mulher, com acrósticos e jogos de palavras complicados, de uso cortesão em seu tempo, como aquele pra lá de artificioso em que “puso el nombre de su esposa, y assimismo nombrados los linajes de los quatro costados della, que son Castañeda, Ayala, Silva, Menezes”. Também, apaixonado, dedicou-lhe esparzas, dezyres y canciones. A anotação que segue é apenas para situá-lo no tempo e no espaço: nasceu por volta de 1440 na vila de Paredes de Nava, em Palência, e morreu em batalha às portas do castelo de Garci-Muñoz, em Cuenca no ano de 1475, como valoroso capitão dos Reis Católicos.

Não por acaso, pois, o nome da mulher de Manrique virou pseudônimo de Pilar de Valderrama, segunda e última paixão na vida de Antonio Machado. Embora tivessem um envolvimento amoroso totalmente platônico, esse era um artifício necessário, já que ela era mulher casada quando se conheceram, em 1928. Assim, duplamente tangido pelos deuses, “Guiomar”, que nome mais afortunado!

Afirmação de Guiomar

Não é de estranhar que houvesse quem achasse que o romance entre Machado e Guiomar fosse ficção, pura invenção do Poeta. Hoje, porém, alegra-nos que permaneça por inteiro, vivo, para sempre, nos poemas – ela também era poeta – e na correspondência que mantiveram ao longo de sete anos. Só mesmo um evento desastroso como a Guerra Civil poderia levá-lo, como levou, à ruptura definitiva. Pensar que nunca mais eles puderam ver-se! E doloroso é lembrar que Machado morreu em 1939, entre refugiados espanhóis na fronteira da França, no coração a imensa tristeza esmagadora da queda da República e a ausência de Guiomar.

Pilar sobreviveu de muito a Machado. A morte colheu-a em 1979, aos 81 anos. Pelo menos não lhe negou a oportunidade de, em 1975, ano em que se celebrou o centenário do Poeta, escrever o livro “Si, soy Guiomar. Memorias de mi vida”,  sem quebrar a rígida discrição que sempre se impuseram. Por expressa recomendação dela, o livro só poderia ser publicado depois de sua morte e, de fato, veio a público em 1981. Pois é. Nem Pilar de Valderrama poderia guardar por toda a eternidade um segredo desses, ela, que mereceu cada verso, cada palavra, que lhe dedicou o Poeta de “Campos de Castilla”, e cada uma daquelas “Canciones de Guiomar”.

Uma canção à “Guiomar” de cada um

Manrique:

Porque estando él durmiendo le besó su amiga

Vos cometistes trayción,
pues me heristes, durmiendo,
d´una herida qu´entiendo
el desseo d´otra tal
herida como me distes,
que no la llaga ni mal
ni daño que me hezistes.

Perdono la muerte mia;
mas con tales condiciones,
que de  tales trayciones
cometáys mil cada dia
pero todas contra mi,
porque, d´aquesta manera,
no me plaze que otro muera,
pues que yo lo merescí.

          Fin

Más plazer es que pesar
herida c´otro mal sana:
quien durmiendo tanto gana
nunca deve despertar.

Machado:

Hoy escribo en mil celda de viajero,
a la hora de una cita imaginaria.
Rompe el iris al aire el aguacero,
y al monte su tristeza planetária.
Sol y campanas en la vieja torre.
¡Oh tarde viva y quieta
que opuso al “panta rhei” su “nada corre”,
tarde niña que amaba su poeta!
¡Y dia adolescente
– ojos claros y músculos morenos –,
cuando pensaste a amor, junto a la fuente,
besar tus lábios y apresar tus senos!
Todo a esta luz de abril se transparenta;
todo en el hoje de ayer, el Todavia
que en sus maduras horas
el tiempo canta y cuenta,
se funde en una sola melodia,
que es un coro de tardes y de auroras.
A ti, Guiomar, esta nostalgia mia.

Barroca presunção

Manhã e estrela; roseira e joaninha; flor do céu, ligeira andorinha; lívida ametista, flor de Minas; fada e madrinha, da noite e do dia: inscrever teu nome entre flores altas, perfumadas, nos jardins de Semíramis, ou no alabastro claro de uma coluna da rainha Nefertite? Melhor, talvez, entre as esferas altas onde cintilam a estrela da Sulamita dos Cantares e as de Laura e Beatriz, a de Maria Bonita... e reverberam, minha amiga, por artes de Manrique e Machado, as gratas sonoridades de “Guiomar”! Anseio tolo? Não. Antes, devaneio doido que o afeto instila. Estro, porém, cadê? (NM)



domingo, 18 de março de 2012

Sombras do ocaso com Bolero de Ravel

Os pessoenses admitem sem ressentimento que João Pessoa e, por extensão, a Paraíba toda, são “a sobremesa” do turismo no Nordeste. “O sujeito vai passear em Fortaleza, Natal, Recife e diz: se der tempo, dou uma passadinha na Paraíba, que está logo ali.” E assim é. E os paraibanos sabem tirar partido de seus vizinhos mais afeitos a atrair turistas, e não poupam esforços para oferecer o que têm de melhor: praias lindíssimas, muita luz, claridade, a brisa sempre branda, clima ameno, a harmonia colorida dos sobrados do centro, reminiscências dos séculos XVI e XVII em igrejas e mosteiros e outras edificações, como a que, por um tempo, abrigou o conde holandês Maurício de Nassau.

Agora o seguinte: a gente vai ver um poente sobre o rio Paraíba e espera o entardecer entre quiosques e lojas ao longo de ruazinhas encantadoras na margem oriental, tudo muito colorido, alegre, ruidoso, ruído bom, de música, canções novas e antigas, pessoas dançando, uma festa. Há muita cerveja e a linhagem das cachaças da Paraíba é inesgotável. É a hora pra quem queira provar tapioca, essa massa de farinha de mandioca, tão nordestina, que se dissolve na boca feito hóstia, com recheio doce ou salgado, ao gosto do freguês.

De repente o Sol começa a declinar depressa do outro lado do rio. Aí entre muitas embarcações ancoradas, impõe-se à nossa visão como uma sombra do ocaso, uma pequena canoa, o piloto sentado na popa e, de pé, no meio da embarcação, a silhueta de um homem tocando um saxofone. Um dispositivo de som traz aos bares e restaurantes da orla o Bolero de Ravel, que ele toca com inspirado virtuosismo. É surreal, como surreal é a figura de Jurandir, o saxofonista, ao desembarcar vestido de branco, uma faixa amarela sobre os ombros, no ancoradouro de um restaurante. O público que se apinha nas balaustradas, por toda a orla, se entusiasma, se emociona, aplaude. Com tempo bom, o concerto de Jurandir do Sax repete-se a cada entardecer há dezesseis anos.

Hora de comer, comer

Sobre a mesa, o requinte do pescado fresco, peixes, camarões, lagostas e toda sorte de mariscos, tudo muito bem adereçado segundo padrões da tradição local, mas é possível achar receitas de outras partes do Brasil ou mesmo estrangeiras. No que concerne a carne de bode, que é como chamam os cabritos por lá, os paraibanos aferram-se a modos ancestrais, o que nos favorece tremendamente, porque vem sempre deliciosa. Bom demais. Há um jeito paraibano de preparar a “buchada” que deve ser ótimo para quem gosta do prato. O embutido de vísceras, fígado, coração, rins e o quê mais no estômago do bode é comida que demora pra ficar pronta, mas deixa de água na boca os apreciadores.

História, histórias

A Paraíba é muito rica em História e em histórias, a começar pelo nome de sua capital, fundada em 1585 como Vila de Nossa Senhora das Neves. Nos tempos em que Felipe II da Espanha reinou sobre Portugal e, por extensão, sobre o Brasil, passou a chamar-se Nossa Senhora das Neves Felipeia, nome que, ao tempo das invasões holandesas, foi mudado para “Frederica”, em homenagem a Frederico de Orange. Os holandeses, derrotados em Guararapes, foram embora, voltaram os portugueses, mas o povo paraibano, que nunca assimilara aquilo de “Cidade Frederica”, já estava afeito a chamar a antiga vila de Nossa Senhora das Neves de “Cidade da Parahyba”, nome que persistiu até 1930, quando do triunfo do movimento getulista desencadeado a partir do assassinato do então presidente da Paraíba e candidato a vice-presidente da República na chapa de oposição encabeçada por Getúlio Vargas. Para homenagear o líder assassinado e, claro, fazer propaganda do novo regime, a capital da Paraíba virou “João Pessoa”.

Luiz Gonzaga e o baião famoso

Em 1950, eleições. O Brasil está mergulhado em política, e a Paraíba também. O candidato a senador José Pereira Lira encomendou a Luiz Gonzaga um “jingle” para sua campanha. Em parceria com Humberto Teixeira, o Rei do Baião compôs “Paraíba”, que não deu a vitória ao candidato, mas transformou-se numa canção dessas que o povo brasileiro, de norte a sul, conhece, reconhece, canta e dança, um rematado “cult” nacional:

Paraíba

(Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)

Quando a lama virou pedra
E mandacaru secou
Quando a ribaçã de sede
Bateu asas e voou
Foi aí que eu vim'embora
Carregando a minha dor
Hoje mando um abraço prá ti pequenina
Paraíba masculina
Muié macho sim senhor

Êta pau-pereira
Que em Princesa já roncou
Êta paraíba
Muié macho sim senhor

Êta pau-pereira
Meu bodoque não quebrou
Hoje mando um abraço pra ti pequenina
Paraíba masculina
Muié macho sim senhor
Êta, êta
Mulher macho sim senhor


O xaxado da comadre Sebastiana

A personagem da canção de Dorival, uma vez decidido que iria pra Maracangalha, cogita “convidar Anália”, mas disposta a ir mesmo só, que nem Jó, “se Anália não quiser ir.” Mas é assim mesmo “neste Brasil lindo e trigueiro, terra de samba” e do meu compadre Jackson do Pandeiro, que conta do convite que fez à sua comadre Sebastiana “pra dançar e xaxar na Paraíba”. E conta como ela se entusiasmou, mas “veio com uma dança diferente // E pulava que só uma guariba // E gritava: a, e, i, o, u, y”

Ariano e a Pedra do Reino na Lagoa

A Paraíba dignifica e enriquece o Brasil pela presença pontifical de Ariano Suassuna, hierofante da brasilidade irrenunciável. No Parque Solon de Lucena, um dos cenários urbanos mais bonitos de João Pessoa, o monumento que o povo paraibano consagra ao Romance da Pedra do Reino e a seu autor. A mitologia criada por Ariano emerge à beira da Lagoa em cores vivas e brilhantes com graça e beleza, pura harmonia, numa composição escultórica dessas que a gente olha e diz assim: “Diacho!”
Ô Ariano. Muito obrigado. Que o teu sonho armorial não se desvaneça nunca, e que a bicha Bruzacã não te pegue não!

Tamandaré, Pedro Américo, Caixa d`Água

O povo de João Pessoa se compraz em homenagear seus próceres e artistas em bronze, mármore, essas coisas, para perpetuar sua presença. Em sua própria praça, João Pessoa de dedo em riste reitera a negação de apoio às pretensões de Júlio Prestes. De costas para o mar, na avenida que tem o seu nome, o busto do marquês de Tamandaré, a efígie corresponde à que circulou nas notas de Cr$ 1,00, cabelos desgrenhados, inclusive, ergue os olhos, desde sua herma, para a cidade, para seu Estado da Paraíba e para Brasil. E no olhar do almirante, serenidade e confiança, temor nenhum.
A gente segue av. Epitácio Pessoa até chegar ao centro e à Praça Pedro Américo, o pintor de cenas épicas do Império, “O Grito do Ipiranga”, “A Batalha do Avaí”, entre tantas outras, que tem lá herma e busto, bem imponentes. Do lado de cima da praça, ergue-se em bronze, tamanho natural, como se estivesse passeando por ali, a figura de Caixa d`Água, poeta popular e boêmio conhecido e querido das ruas do centro velho da Cidade da Paraíba, falecido há uns poucos anos.

Poeta à sombra do tamarindo

Quem também está na Praça Pedro Américo, em bronze, claro, é o poeta Augusto dos Anjos, que aos 30 anos, em 1914, morreu em Leopoldina, MG. Sua figura está recostada a um tamarindo estilizado, à sombra de um pé de oiti de verdade; na relva, ao lado, em placa de metal, os versos de “À sombra do tamarindo”, soneto muito bonito, como em geral é a poesia de “Eu”, livro essencial da literatura brasileira, único publicado pelo grande poeta.

Quando, há muito tempo, um blogueiro ocioso compôs sua própria “Tamarindagem”, não foi para comparações descabidas, plenamente consciente de que lá na parte mais alta do panteão dos poetas brasileiros onde Augusto dos Anjos está, é alto demais para ele. Uma coisa é estro, meu irmão, outra é gradação Gay-Lussac.

“Tamarindagem”

À sombra em flor do tamarindeiro, teu colo, meu amor, meu travesseiro. Um afago na face, teus olhos mansos, um estalo no pálato, um travo brando, um beijo, outro beijo, um trago, outro mais... Vida tamarinda, ê, pinga tabaroa! Rico eu não fico, meu amor, mas vou ficando à toa, à sombra em flor...
(NM)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Diamantina, Diamantina! Sonora, amável e cordial


Diamantina ainda cultiva a cordialidade e a gentileza segundo o antigo metro mineiro. A distância que conteve e, de certo modo ainda contem, a invasão dos turistas e de influências externas em geral, preserva esse traço coletivo que foi tão marcante em nossa velha província, mas anda um tanto desbotado. Querem um mineiro gentil e cordial? Busquem-no em Diamantina, que lá ainda é fácil de achar. A cidade desdobra-se em ruazinhas estreitas, algumas nem tanto, que se amoldam aos caprichos de ladeiras de puro encanto – às vezes uma ampla e ensolarada praça – que escorrem do repuxo do Espinhaço que a ampara e agasalha, e que mimou o antigo Arraial do Tijuco com suas mais brilhantes prendas: crisólitos, ametistas, turmalinas, águas marinhas e, claro, diamantes, diamantes, diamantes...

Com seu casario muito bem conservado perfilando sóbria e refinada elegânciacolonial, a cidade integra-se numa paisagem única que, talvez, como nenhuma outra no Brasil, guarde reminiscências telúricas tão vívidas da grande batalha que os Titãs empreenderam para a conquista do Céu a pedradas. As forças ctônicas são manifestas por toda parte, mas aquela irremissível e unânime inclinação dos rochedos do grande maciço para o norte é realmente impressionante. Dá até dá vontade de acreditar nos geólogos, que afirmam que, em tempos pangéicos, o Espinhaço esteve ligado à cordilheira do Himalaia!

Hora de cantar, cantar

Tudo é bonito na cidade alegre e colorida, cheia de sonoridades, as mais gratas, passarinho no arvoredo dos quintais, oboé, viola, violino, garota cantando na janela, o rádio meio longe tocando “Elvira escuta”... A gente pode até achar que é tudo por causa da Vesperata, evento em que dezenas de músicos se assomam às varandas dos grandes sobrados da Rua da Quitanda com seus instrumentos, atentos à regência de dois ou três maestros que se alternam sobre pequena plataforma no meio da multidão lá embaixo. É uma serenata invertida, os músicos na janela, os ouvintes na rua.

(VESPERATA)

Mas a Vesperata é apenasuma apoteótica síntese da musicalidade dos diamantinenses, que afirmam, com gosto, que em cada casa da cidade existe pelo menos um músico. Eles tocam seus instrumentos e cantam, no mínimo para cumprir seu destino de músicos, nas ruas, becos, ladeiras, bares, no Mercado - que primor de mercado! – nas praças e nas igrejas. Na Vesperata, os melhores e mais qualificados se unem para apresentar um variado e requintado repertório que inclui cancioneiro do Brasil e grandes temas internacionais: Piaf, Armstrong, Agustín Lara, Gardel e Le Pera, Manuel de Falla... O público da Vesperata, que sempre interage com a música, chega ao transe e à catarse, sobretudo com as canções tradicionais de Diamantina, “Amo-te muito”, “O Bardo” e, por inescapável remissão ao presidente JK, o mais ilustre, e o mais querido diamantinense, o “Peixe Vivo”. Todo mundo canta junto, batendo palmas: “Zum, zum, zum, lá no meio do mar...”

A Vesperata ocorre uma vez por mês, sempre num sábado, de abril a outubro, quando a possibilidade de chuva é menor. Vale a pena percorrer os trezentos e poucos quilômetros de BH a Diamantina para ver e ouvir. É uma experiência emocionante. Mas emoção, emoção boa, alegria e encantamento, é o que não falta em Diamantina, em seu entorno de penedia altiva, encachoeirado; nos distritos de Biribiri e Milho Verde; na antiga estrada empedrada pelas mãos de escravos; e um pouco longe, tem até garimpo de verdade pra quem queira ver. Se a gente sai andando daqui para ali, chega uma hora que vem uma sede danada, e fome. Então descobre cerveja boa, boa cachaça, e a rica culinária do Vale do Jequitinhonha. É comer, beber, regalar-se, como convém à melhor democracia.

Como controlar o controlador

Os diamantinenses adoram ouvir e contar histórias. Histórias de JK, de garimpeiros, escravos, uma outra história de padre. Pudera! Suas ruas, praças, igrejas, são todas cheias de histórias, as casas... Algumas têm mais, e a da Chica da Silva, que agora é museu, é toda história. Minha amiga Maria Luísa encantou-se com essa mulher inacreditável. Imagine uma mulher negra, nascida escrava nuns cafundós do Brasil do século XVIII e acumular tanto poder, simplesmente pelo fascínio que, femininamente, impôs a João Fernandes de Oliveira, o contratador de Diamantes que exercia, em nome da Coroa portuguesa, o poder absoluto no Arraial do Tijuco e tinha o controle de todo o Norte da Província das Minas Gerais. Com seu humor andaluz – Maria Luisa é de Sevilha e foi quem fez as fotos que ilustram este texto – achou simplesmente admirável que Chica da Silva tenha, em tais condições, materializado um ideal feminino universal: “Controlar o controlador, simples, não?”.

Histórias de contar pra turista

Turista também adora ouvir histórias e as agências treinam os guias, apetrechando-os de um anedotário básico, que vão repetindo a cada grupo, sempre com o mesmo desfecho, risos, uma ou outra gargalhada. Um guia jovem, dezoito, vinte anos, por aí, ia conduzindo um pequeno grupo pelo centro histórico, Rua da Quitanda acima, até onde, à direita, abre-se uma ruazinha estreita. “Aqui é o Beco do Mota que, nem faz muito tempo era a parte alegre da cidade, alegre e mal-afamada. As moças de família não podiam nem olhar para este lado, e os homens evitavam ser vistos entrando ou saindo do beco”. Todo esse “understatement” é artificioso, para turista, porque o povo do Jequitinhonha, o de Diamantina, inclusive, não tem esse tipo de frescura e, sem o treinamento, o mesmo rapaz teria dito apenas que o Beco do Mota era zona de mulherio, beco de putas, sem se escandalizar nem achar que estaria escandalizando.
Aí vem a história: “Contam – disse o rapaz – que havia um obstetra muito respeitado em Diamantina e em toda a região, o doutor Lomelino do Couto. Lá pelos anos 40 ou 50 ele veio atender um parto, altas horas da noite, aqui no beco. Foi muito complicado e só terminou com o dia já querendo amanhecer. Quando ia embora, passou em frente à Sé Diocesana, a igreja matriz, ali perto, onde um grupo de beatos e beatas formavam um círculo em torno do padre que, logo mais, celebraria a missa das seis.”
Alguém interpelou-o com certo desplante:

– O doutor pode dizer de onde é que está vindo a essas horas?

O rapaz não especulou a respeito, nem era o caso. Mas é de supor que o doutor estava cansado. Trabalhos de parto, quando a natureza não os resolve “di prima”, sobram para a parturiente e para o parteiro. E é de se supor que, mineiro de Diamantina, empenhou-se em não mostrar toda sua indignação aos guardiães da virtude. Terá respondido com inflexão comedida, comme il faut, sem ser duro demais nem deixar correr frouxo:

– Da puta que pariu!

A anedota é recorrente e qualquer pessoa razoavelmente brevetada em botequim, duzentas, trezentas horas de vôo, tê-la-á ouvido mais de uma vez, em diversos contextos, com uma ou outra variante, mas sempre funciona, e os turistas, quase todos, acharam a maior graça, riram que só você vendo. Porém, contado ali, na boca do Beco do Mota, o velho tema pôde suscitar imagens de uma cena gorkiana: Madrugada escura no beco silencioso. Moças alegres e de olhos muito tristes embalam com suaves cantigas num quartinho mal-iluminado e frio de uma casa modesta, a criança que, através da passagem estreita para a vida, as mão generosas do doutor Lomelino trouxeram em segurança a este mundo sem Deus. (NM)