sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Para lembrar Carlos Alberto


Carlos Alberto, José Cabral e 
José Ramos Filho numa tertúlia 
das tertúlias dominicais na 
grande mesa da calçada do 
Tip Top: verve, humor, cultura, 
generosidade, ciência, sabedoria 
e, de repente, tínhamos instalada 
a Inefável Universidade do Bar


Filosofia do chope

Carlos Alberto de Barros Santos

Numa dessas tardes de sábado me senti solitário e sem rumo. Não sabia aonde ir. Aí me veio à lembrança um velho botequim que freqüentei na remota mocidade. É um daqueles bares antigos que não conseguiram adaptar-se ao mundo moderno. Os garçons, como tudo o mais, são o que hoje se classifica como “caretas”. Mas, tudo bem, não sou moderno mesmo, e pra falar a verdade, sou o próprio “careta”.

As mesas estavam quase todas vazias. Assentei-me numa qualquer e pedi um chope. O garçom me atendeu vagarosamente com os seus pés cambaios – todos os garçons, andarilhos que são, têm pés cambaios – e me fez perguntas que eu não soube responder. Mesmo porque ando meio (ou totalmente?) surdo. Respondi apenas com um sorriso. Ele entendeu.

É bom beber um chope num bar deserto. Não há barulho, confusões, nem mesmo um velho amigo que o reconheça  e comece a fazer perguntas. Além disso, é acolhedora a solidão acompanhada de um copo à frente. E um copo de chope não é nada. Aí me lembrei de Raymond Aron, em 1933, no café Bec du Gaz, em Paris, dizendo a Jean-Paul Sartre: - Olha, meu amigo. Se você está empunhando este copo de conhaque, você está falando de filosofia. Sartre ficou atônito. Era o começo do Existencialismo, baseado na fenomenologia de Husserl e Kieerkegaard.

Contudo, longe de mim essa de ficar filosofando diante de um copo de bar. Resultaria em filosofia barata, ao cabo da qual, ai de mim, perambularia o fantasma de um episódio depressivo. O melhor é pensar, à maneira de Gertrude Stein, que um chope é um chope, é um chope... Apenas isso. Dentro desse pragmatismo,  bebi  o chope, pedi mais dois, afinal estavam bem gelados. Fiquei meio alegrinho e confesso que tive vontade de continuar tomando chopes. Mas, pensando bem, pra quê? É um deleite tão fugaz, com perspectiva de rebote, que achei melhor pedir a conta. Fiz isso, paguei, abri a porta do carro e, em direção à monotonia da minha vida, pensei que, por enquanto, que diabo, as coisas não andam tão ruins, dá para empurrar mais um pouco. Para que complicar? E largando Sartre de lado, solfejei os versos de Noel:

Um dia eu passo bem,  
Dois ou três eu passo mal.
Isso é muito natural...”

É bom beber um chope num bar deserto...


(*) Esta crônica saiu em O&B  no dia 9 de outubro de 2012. Volta a ser publicada agora para lembrar o saudoso Carlos Alberto de Barros Santos, grande médico e escritor colhido, por capricho da Intempestiva na Páscoa de 2013, que sempre prestigiou o blogue  com sua qualificada colaboração. (NM)




Labirintos (*)

...quando as flechas são disparadas para o nada, nada há a ser feito a não ser recomeçar, recomeçar sempre, recomeçar do nada, o que parece pouco, mas não é bem assim, postos o caráter absoluto da negação não contaminada por injunções  adverbiais e a carga necessariamente positiva da dialética dos recomeços, uma vez tenhamos mais ou menos aceite que nem tudo são flores neste vale de lágrimas e de águas claras, porém de pouca profundidade, fina lâmina de cristal líqüido, tímidas gambevas passeando em silêncio na rasura, à flor das pedras, discreto contraponto ao arrulhar profundo das palmeiras surpreendido numa canção do Caribe, referendando manifestações mais apropriadas à excitação do vento passando morno entre as palmas trêmulas do que a rolinhas fogo-apagou aninhadas lá naqueles altos  balouçantes, mas ao mesmo tempo impugnando pretensões descabidas da Lua Nova, cujo lúbrico influxo repuxa a maré como se fosse um imenso  prepúcio das ilhas, exibindo a ereção múltipla do arquipélago, para escândalo das estrelinhas mais pudicas que, se algo dissessem, diriam oh! sobretudo ante as orgásticas pirotecnias de algum vulcão mais ativo, em total desconsideração para com incinerados instintos de acasalamento do passaredo afeito a florestas tropicais dessas terras insulares que sonhos imprecisos de marinheiros habitam, mortos todos há tanto tempo, no afã de achar tesouros que, ao fim e ao cabo, talvez nunca tivessem existido senão na imaginação de meninos ávidos por histórias contadas à sombra de uns enormes tonéis, presumivelmente repletos de vapores densos, mas voláteis, fina flor da moderna alquimia que, entre uma baforada e outra, um velho ia desfiando incansável, embora ele já pudesse ser dado como morto, não fosse, precisamente, aquela mania que tinha de ir  contando casos sem fim, um depois do outro, desde que alguém se dispusesse a ouvi-los, mesmo que se tratasse de crianças, o que ele até preferia, pela reconhecida capacidade que elas têm de elaborar  sobre premissas fantásticas, como as que soem sustentar as pequenas e mesmo as maiores  aventuras no mar, sem menoscabo da verdade, uma quimera sempre pronta a nascer no meio da espuma, esplendente, linda, como a própria Vênus Citereia, isso até o dia aziago em que o ancião falador deixou de respirar, liberando o espírito, que já andava mesmo de saco cheio, sem, contudo, parar de falar, nem quando um fedelho abelhudo inteirou-se de sua condição totalmente cadavérica e, com um empurrão leve, dissimulado, lançou nas águas do canal salobro e poluído aquele de cujus que já não tinha por que permanecer sentado sobre as grandes pranchas do ancoradouro, pouco importando que continuasse contando suas histórias intermináveis com a voz roufenha de fumante que, apenas, de repente embargara inaudível, afogada pelas circunstâncias, enquanto seus pecados, que nem seriam assim tantos, iam-no devorando por dentro, no mesmo ritmo frenético com que siris vorazes e outros pequenos predadores das águas fétidas consumiam-lhe por fora a carcaça, a essas alturas parca, mas enfim uma pitança, o que tem muito de especulação despicienda, dessas que só fazem assanhar os céticos apetites dos incréus, sem embargo do fato de que uma boa história terá, sempre, o laivo de sinceridade que torna um homem bom, isso  quando não descarrila feito um trem entediado, despencando colina abaixo, vagão após vagão, que tristeza, as galinhas, quanta galinha, assustadas, tomadas do mais completo pavor, em meio à ferragem retorcida e fumegante, ao clarão pálido de uma aurora prestes a entregar-se a apoteótica explosão de luz, indiferente a vicissitudes que, temos de reconhecer, pertencem exclusivamente ao inconsciente das locomotivas, mesmo que possam levar a um desastre, afinal de contas libertador de almas que bem poderiam ser anjos, levando-se em conta apenas a plumagem brilhante, inferência essa porém totalmente desautorizada pelo modo algo convulsivo com que ainda cacarejavam seu espanto, compartilhado por equipes de salvamento que se esfalfavam entre aqueles restos de desastre  e pela moça que operava o telégrafo e recebeu a notícia em primeira mão, na terceira estação mais adiante, sobre quem pesava mais, naquele momento de comoção para a gente ferroviária, uma angústia mais própria de seu peito de donzela esperando, esperando com umas  incoercíveis ânsias cada trem que chegava,  confiante, certa de que numa tarde dessas, depois do silvar estrídulo, saltaria da plataforma direto para seus braços, que eram acolhida só, mais nada, o cavalheiro da sua redenção, aquele que lhe estaria prometido desde antes dos tempos,  conforme consignavam as cartas e os astros, que jamais  mentem, espadaúdo, forte, mas de voz e modos suaves, em tudo distinto da rapaziada do lugar, tão rude, interessada só em meter-lhe por sob as saias as mãos ásperas do trato com dormentes e trilhos ou das lides do campo, e ainda por cima propensos a impropérios que constringiam a  concha da sua feminilidade, tão sensível, fechando-a completamente de puro desgosto, mas não tinha importância, porque haveria de se abrir resplandecente, luminosa e fresca como um pé de alface, no dia, aquele, que o destino bem sabia qual, em que seu homem desceria do trem para os seus braços, mas a velha Maria das Dores, meio enxerida porém boa mulher, que tomava conta da cantina da estação e, às vezes, dos devaneios de Matilde, a telegrafista, pronto compreendeu a  situação e foi dizendo incontinenti acorda, Matilde, acorda, temendo que o espírito da moça se perdesse não se sabe em que desvãos de uns sonhos de amar, amar, amar que não se realizavam nunca, mas que ao menos voltavam sempre ao ponto de partida a cada apito da máquina a vapor que vinha resfolegando, resfolegando, até parar bem diante do guichê do telégrafo, de onde Matilde conferia aflita se não seria daquela vez que estaria chegando o seu prometido, mas se alguma vez passou por ali um homem como  aquele, gentil e generoso, forte, e de uma boniteza de  mocinho de cinema, de olhos azuis e tudo, não a reconheceu nem desceu na estação, mas é preciso perseverar, jamais perder a paciência nem a esperança, conquanto Das Dores tivesse boas razões para estar preocupada, temendo sobretudo que Matilde se deixasse arrebatar pela miragem de sedução, pelo fantasma que  assombrava as veredas mais recônditas dos seus próprios sentimentos, ciente a velha de que  homens maus, mesmo quando não existem de  verdade, podem fazer muito mal a uma mulher ingênua, tola, ou simplesmente apaixonada, mas  temia mais que a moça ficasse lá dentro, enleada em seu sonho e fosse se afastando, se afastando para dentro da floresta de si mesma, até que não pudesse mais ouvir silvar de trem que a trouxesse de volta à realidade, preocupava-se e se  desesperava até, gritando entre os dentes, acorda Matilde,  acorda, volta Matilde, mas gritava em vão, porque o espírito da moça já estava longe e seus olhos sempre claros, de um verdoso tão bonito, vivos, brilhantes, estavam baços, desinteressados das cores e da luz, e Das Dores sabia que naquela tarde de destroços na ribanceira não haveria resfolegar na parada nem qualquer apito salvador que chamasse a perambulante alma de Matilde das profundezas de seus labirintos, em que vagava, vagava, e então viu-se na aguda  contingência de tentar uma derradeira cartada, saindo para a plataforma da estação, sem ligar para  as caras de perplexidade das pessoas que se ajuntavam por ali para conversar sobre os acontecimentos da ferrovia, começou a sapatear, batendo com os pés  no cimento da calçada  alta para imitar o ruído do trem chegando, ampliando o som ritmado com golpes com as mãos nos próprios quadris, enquanto gritava histérica cheque-cheque, cheque-cheque, até descambar, em seguida, numa onomatopéia patética, do repique a vapor da  máquina quando estava parando, ipiiiiuuuu-iiii-ipiiiii iiiipiiiiu-piiiiiii uh uh, cheque-cheque, quando todos correram para ela achando que tinha surtado, que endoidara e, presa entre muitas mãos, ouvia vozes familiares pedindo-lhe que ficasse calma, sossega mulher, fica calma Das Dores, e ela se agitava mais e se debatia, esperneava gritando me larga, me larga, mas ninguém largava, enquanto alguém ia  dizendo que as últimas notícias do acidente eram até boas, só prejuízo material, tirando um foguista que perdeu o mindinho da mão esquerda, um vagão de galinhas destroçado, no mais foi um baita susto, então aquela mulher realista secou a fonte de suas lágrimas no peito e o rosto e os olhos na manga curta do vestido claro, de bolinhas vermelhas feito brotoejas, aceitando os fatos, pois não havia como explicar que só estava tentando lançar a meada para sua amiga no fundo do poço,  indicar-lhe o caminho da volta, a direção da luz, no que falhou redondamente, porque a única coisa que realmente se parece com um trem é um trem, e mesmo se ela pudesse contar com o apoio de uma troupe completa para realizar a pantomima, não teria conseguido mais que uma pálida sugestão do momento triunfal da chegada de um trem à estação, então tinha mesmo que se conformar, de desistir, e quando as mãos que a sujeitavam apenas começavam a afrouxar, ela já se dera conta de que Matilde desta vez não regressaria, nunca mais, mas talvez, naquele contexto, nem valesse mesmo a pena, e o melhor seria  que a moça se deixasse levar por algum torvelinho de sombras para uma estância mais quieta do onírico, onde não pudesse ser alcançada pelo medo nem por qualquer outra monstruosidade da escuridão, e esperar, esperar, considerando que retomar o fio da metáfora, mesmo que todos estejamos irremediavelmente embarcados nela, não determina o sentido de seu desdobramento nem dissipa-lhe o enigma, antes multiplica-o em infinitas imagens de pura ilusão, de espelho no espelho, abismo e  vertigem, retorno da solidão à solidão, do deserto ao deserto, como um disparo no vazio, do nada ao nada, e nada haveria a ser feito, a não ser – Quem sabe? – um dia, recomeçar...

(NM)


(*) Versos do Varal e outros textos – Edições C.L.A. – 2008

sábado, 27 de dezembro de 2014

O&B reitera sua fé na conversa fiada

                                     
Maio de 2010, antes de sua primeira postagem, o “hacker” que ajudou nos trâmites técnicos iniciais, veio com uma indagação prosaica: “Qual é mesmo o nome do blogue?” Não tinha pensado nisso, mas uma sucessão de alusões e referências oscilando do fútil ao completamente inútil no texto sem o menor compromisso com Aristóteles ou Descartes, pura conversa fiada, implicitamente, apontava para algo como “Ociosidades & Bagatelas”, locução que, no momento, pareceu muito original e exclusiva.

Porém, na semana que procedeu o Natal, uma breve ciscada no gúgol desfez a ilusão, registrando duas referências consideráveis. No livro “Las Delícias de la Religión Cristiana o El Poder del Evangélio para Hacernos Felices”, do abade Antoine-Adrien Lamourette, 1832, vem consignada com todas as letras num contexto de exaltação mística que, até certo ponto, lembra a jornada do passaredo no poema (A Linguagem dos Pássaros) de Farid Ud-in Attar em busca do Simorg, ou Todos-os-Pássaros. O abade, tal como o poeta persa, vislumbra a Unidade no Absoluto e nela se deleita, em texto, tanto quanto o do persa, de altíssima poesia. Sufis e cristão podem, eventualmente, ter seus pontos de convergência.

Em livro um pouco mais antigo, “Tratado en que se dan algunos médios preservativos para librarse del mal” etc. (1780) o padre catalão Vicenç  Ferrer classifica como “ociosidades e bagatelas”, e como tal a reprocha e condena, toda literatura, incluindo os clássicos da antiguidade, que não esteja estritamente comprometida com a doutrinação eclesiástica. Nada mais impiedoso do que um pregador piedoso, quando se trata de preservar as fronteiras de suas crenças perfeitas e incontrastáveis. Ele e põe no mesmo balaio as obras dos autores gregos e latinos, meros pagãos, livros de cavalaria, obras blasfemas, heréticas, ficções e livros de sacanagem em geral. Lá pela página 338, o padre Ferrer recomenda a quem tenha tais livros que os queime ou “os entregue ao Santo Tribunal”, o que, de antemão, pode ser considerado uma rematada temeridade. Vai que um inquisidor daqueles resolva perguntar algo irrespondível ou meramente difícil de responder. Evasivas do inquirido podem reacender num átimo propensões letárgicas à incineração de obras, autores, leitores e o que quer que se preste a alguma combustão glorificadora de sua fé. Epa, cruz credo!

Falei a respeito ao meu amigo Fernando Fabbrini, na calçada do Café Três Corações, na Savassi, que fez o seguinte comentário: “Ora, a linearidade do tempo é algo tão arbitrário quanto o próprio Santo Ofício. Não tem nada demais que a fama tenha precedido `Ociosidades & Bagatelas´ de uns duzentos e poucos anos”. Tá bem, Fabbrini, tá muito bem.

A percepção sui generis do padre Ferrer pode ser até lisonjeira para “Ociosidades & Bagatelas”, que alça na direção “ciceroniana” dos clássicos, a considerar apenas seu descompromisso com o que não esteja no plano da conversa fiada, além e acima de qualquer credo ou doutrina. Em pretensão, mas benigna, inofensiva presunção, expande-se a vaidade do blogueiro, predispondo-o mais e mais a jogar o jogo essencial da palavra bem ao largo das grandes verdades insondáveis, enquanto as  grandes e pequenas certezas que, ao longo das eras, têm inspirado os senhores de todas as virtudes, a gente vai deixando pra lá. Apenas reconheçamos que o padre Ferrer tem sua graça, não só a graça dos que se creem escolhidos, mas também a que vem com isso de “médios preservativos” que, para um leitor “luso-hablante”, remete a contraceptivos de borracha, camisinhas. (NM)


Pra reafirmar origens e propósitos, O&B posta de novo o texto de APRESENTAÇÃO  postado em 23/5/2010

“Ociosidades & Bagatelas” é uma experiência totalmente lúdica, para ser compartilhada com amigos e amigas sem outro ânimo senão o da convivência, da diversão, como um jogo que permita à gente, sem maiores considerações, lobrigar, por entre as sombras de uma noite esplêndida, quadrantes da abóbada constelada que se apropínquam pelas lentes do coração, mesmo se apenas para constatar que Aldebarã é que esplende mais: gala do céu de maio. Pra quem pensava que lobrigar e apropinquar fossem a própria impossibilidade verbal, o inconjugável, já é um começo de jogo, despretensioso, “a leite de pato”, como se diz em jargão de sinuca se o jogo não é apostado. Mas aí é como lançar búzios ou jogar caxangá usando conchas de museu, das que alimentaram algum ancestral da garça lá pelos meados do período terciário: Guerreiros com guerreiros fazem zigue, zigue, zá!!!  Mesmo no jogo mais ocioso, porém, se palavras virtualmente extintas ganham curso, ainda que num texto na rede eletrônica, por breve que seja, respiram, viram fósseis vivos, persistentes, celacantos léxicos, e não é despropositado alegrar-se com esse tipo de pequeno milagre.

Jogar é representar, fingir, interpretar, mas também tocar viola, piano, berimbau, qualquer instrumento e, sobretudo, é brincar, o que as crianças nem discutem, porque apenas brincam. E também é jogar mesmo, com cartas, varetas, cavalos, torres, dados, bolas, dardos, facas, pedras, plumas, flechas. Com palavras valem trava-línguas: “Num ninho de mafagafos, dezesseis mafagafinhos há. Quem os desmafagafizar...” e jogos de adivinhação, folguedo na infância e, depois, fonte do poder de sibilas e feiticeiras, do prestígio dos profetas e da glória de algum poeta. Para a cigana, uns trocados parcos, mas pouco importa, ela é tão bonita!


Uns, cheios de certezas, jogam o jogo da verdade, o da mentira, mentira dos outros, deles, só verdades, mas antinomias não são perfeitas e, feito rios no oceano, dissolvem-se em tautologias: entre o crepúsculo e a aurora, a noite e, inversamente, o dia;  o Minguante entre a Cheia e a Nova e, invertidos os termos, o Crescente. Parece que, no tocante à ordem dos fatores, não é como na multiplicação aritmética, mas também não deixa de ser: Não é sempre a mesma Lua? Entretanto, há uma Maja Desnuda, uma Vestida, uma gérbera amarela, uma branca margarida, que assim é a vida. No talho a navalha se materializa, o desamor numa  dor no peito e muita tristeza; nas  modulações suaves de seu canto, o curió; a grande borboleta primordial, no vôo leviano e no azul das asas. E, só para concluir, ao fim e ao cabo, o jogo é jogado, o lambari, pescado. (NM)

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Voar é o que importa

Chegou ontem, da África do Sul, e me alegrou, como sempre, mensagem da Sônia Galastro:
“Pedi permissão à minha amiga para enviar-lhe o poema que ela fez inspirada pelo tema de um de nossos saraus: `Voar com asa ferida?´. Esta frase é de um poema do Leminski. Espero que goste.
Sônia”

Gostei sim, Sonel. E me permito postar o texto da Flávia para compartilhá-lo com os amigos de O&B.
(NM)                      
ASA FERIDA 
Habita em mim um pássaro migrante
que anseia flores mas adentra o bosque em chamas.
Visita sombras onde apenas brota o musgo,
velhos dormentes sob trilhos esquecidos,
carrilhões silenciosos onde as horas não ressoam.

Habita em mim um sabiá dolente 
que inveja o rouxinol de colorido canto,
e busca melodias sem queixa, sem lamentos,
bem-te-vi de olhos vendados, cego de horizontes,
pois enxergou demais  e se calou de espanto.

Habita em mim uma andorinha solta,
diversa de outras tantas se movendo em bando.
Seu pouso não disfarça a extensa trajetória 
na rota das mudanças, nuvens passeando...,
das voltas e distâncias já perdeu a conta.

Habita em mim um tiê-sangue agreste,
o rubro peito aceso no desejo à vida.
A sorte se ausentou, o sonho foi desfeito
e ainda assim insiste alçar-se em céu aberto
- sobrevoar desertos mesmo com a asa ferida. 

Flávia
30.10.2014 

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Manoel de Barros, Guimarães Rosa, cavalos, passarinhos


Quinta-feira, dia 13, veio a notícia do falecimento, em Campo Grande, MS, do poeta Manoel de Barros. Não chegou a surpreender, porque, aos 97 anos, vinha enfrentando ultimamente graves problemas de saúde, mas, mesmo assim, deixou o travo de tristeza das grandes perdas. Poeta essencial do Brasil, referência espiritual e afetiva de todos nós, ele jamais, com tanta poesia que nos deixa, será de fato uma ausência a lamentar. Antes, lembrá-lo em versos sutis, plenos de alegria e surpresa, versos reveladores de nosso povo, de nossa terra, sempre em conexão com o Universo misterioso e imenso, atento ao galope dos alazões da Aurora. Manoel de Barros, enquanto viveu, foi um grande decifrador de enigmas.

Hoje, O&B repete, para homenageá-lo, postagem do dia 1 de junho de 2011, recuperando momentos da visita que lhe fez lá Pantanal sul mato-grossense outro poeta de sua mesma linhagem, João Guimarães, quando conversaram sobre muitas coisas, também sobre cavalos e passarinhos.

“Quando não sei onde estou, as palavras me acham”
      Manoel de Barros


Em 1953, então já consagrado como autor de “Sagarana”,Guimarães Rosa foi ao Pantanal do Mato Grosso, onde o recebeu ninguém menos que Manoel de Barros. Até os grilos e os sapos pararam um tempo só para ficar ouvindo as conversas deles dois naquele âmbito misterioso e mágico que tem por hierofante e druida precisamente o poeta da “Gramática Expositiva do Chão”.

Manoel de Barros conta como foi o memorável encontro, como se desfrutaram um ao outro os dois grandes poetas brasileiros, obcecados ambos pelas palavras, o pantaneiro assumindo-as mais pelo lado da intuição; mais eruditas, talvez mais “científicas”, as abordagens do sertanejo. Mas aí que está: não discutiram como filólogo de preceito, mas como qualificados amantes da palavra, fazendo daquele encontro algo impossível de ser repetido. Manoel contou ao Rosa que o Pantanal quase teve seu dialeto, mas o isolamento de muitos anos da região estava se acabando muito depressa, estradas, automóveis, rádio, essas coisas. Os modos pantaneiros de falar apenas sobreviviam aqui e ali, numa ou noutra expressão.

Eles andaram falando sobre passarinho, conforme está registrado nas “Conversas por escrito (Entrevistas: 1970 – 1989)”, de Manoel de Barros:

– E passarinho, Manoel?

 Manoel comenta: “Rosa me especulava por trás do couro, como quem sonda urubu. Queria saber de tudo. De avoador, eu disse, só urubu, garça, cracará – esses pássaros grandes. O resto quase é inominado. Passarinho pequeno é passarinho à-toa. Rosa sabia essas coisas, só estava me sondando. Falei para ele. Isso é como a gente não saber o nome de todas as pessoas que vão atravessando o Viaduto do Chá.”

Aí Manoel lembra que “Rosa estrelou sua risada”, antes de dizer: - É isso mesmo, Manoel! É tanta gente que não se sabe o nome. E passarinho é a gente daqui.

Em seguida Rosa perguntou: – E o tordo, qual é a letra do canto que ele canta? A música eu sei de cor, mas a letra eu não sei.

Manoel respondeu: – A letra é assim: “Primo com prima não faz mal, finca, finca...”

E o Rosa: – Oi tordo erótico, Manoel. Os lá de Minas têm mais compostura...

Depois a conversa derivou para exotismo e folclore no Pantanal, e Manoel ponderou ao Rosa:

– Aqui não há nada exótico. (...) O que tem aqui tem em toda parte. Mas de folclore, que é outro departamento, tenho um amigo, Neto Botelho, que sabe das coisas, que informa sobre nosso monumento nessa área que é o cavalo. Cavalo é nosso enfeite, nosso instrumento de trabalho, nosso meio de transporte, nosso amigo, nossa arte. Com ele se ganha o pão, com ele se vai namorar.

E ofereceu ao Rosa um poema do Neto Botelho sobre um cavalo que teve:

“Tive um cavalo ruano
De nome Balança-os-Cachos
De cheirar e mandar guardar
Cavalo de confiana
Pegava em quarenta metros
Galardão de cola e ancas
Um ente desanormal
Coisa de prateleira
Ventena como o fedor
Não foi de ensebar serviços
Nem teve queda pra cangas
Pastor de primeira instância
Cavalo de putear delegado
Livre como as vertentes
Podia até lavar louças
Leve de patas que era
Só faltava ir no cinema.”


Manoel disse que Rosa gostou demais, do cavalo e do poema. Tanto que “tomou nota. Gravou na caderneta”. Parece que, naquele encontro inesquecível lá no Pantanal, as palavras, como sempre, realmente acharam o Poeta, mas então tinham nome e sobrenome: João Guimarães Rosa. (NM)

(P.S) Uma neta de Manoel de Barros consolou-se da grande perda: “Ele virou passarinho”. 

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A nostalgia do mar de cada um

                                                                              Fisgado pelo enigma do peixe. De metal, sim,
mas azul, como deve ser um marlim



Mineiro tem nostalgia do mar, tão longe, a bramir 
ronco pra lá e pra cá, a branca espuma que, feito no bolero de Ari Barroso, “se desmancha na areia”. É tudo clichê, claro, mas, em se tratando de mineiro, não precisa ser abstrato nem de anedota, para, em algum momento nesta vida ou em passadas encarnações, para tê-la sentido com maior ou menor intensidade. Também não é preciso verão. Basta que esquentem uns dias de nossas primaveras tropicais    
para que venha aquela incoercível ânsia por brisas marinhas que, nos dias de hoje, remete diretoa praias do Nordeste, ensolaradas,águas mornas, bom demais. 

Até os anos 80 do século passado, o destino preferencial dos nostálgicos do mar era o Espírito Santo de incontáveis e encantadoras praias, umas de areia grossa, de um tom quase rosado à luz do entardecer, outras de areia fina e clarinha que o vento levanta sem esforço. Tem até praia de areias escuras, monaziticamente pretas. O clima é bom, o calor não a sufoca ninguém, e os capixabas, sempre gentis, põem à mesa moquecas inigualáveis, de camarão, de badejo, de badejo ao molho de camarão e a variedade inesgotável de combinações que lhes permitem a prodigalidade atlântica da costa e a riqueza de sua cozinha ancestral. Olor e cor, sabor e textura, e temos a moqueca para todos os gostos e sentidos. Todos? Não vá dizer que dá pra ouvir moqueca! Não. Realmente não dá, mas, atento ao som do mar batendo nas pedras, você completa a festa dos sentidos.


Mística ou não, a ânsia de liberdade, 
como manifestação, é sempre generosa













O versículo (Filipenses 4:13) faz o freguesa baixar o tom antes de entrar na loja, mas um blogueiro ocioso pode preferir, por menos belicosa, a tradução “Tudo posso Naquele que conforta” e, ainda, com alguma petulância, achar que não acrescente muita coisa ao salmo 23: “O Senhor é meu pastor, nada me faltará”.



                          



                                                     Badejo, moqueca, mistérios do marlim

Depois de mais de trinta anos de ausência, a gente mal pôde reconhecer Guarapari. A cidade cresceu bem cuidada, limpa, a orla foi urbanizada com o melhor critério, o comércio é movimentado, vivo, muitos hotéis, mas não há agitação demais. E cuidam eles lá, em Guarapari, de evitar ruídos desnecessários, feito aqueles com os quais temos de nos conformar, por exemplo, nas praias do Sul da Bahia. Caixas de som a todo volume nos carros, nem pensar. É desfrutar a água, areia, o drinque à sombra da amendoeira e, depois, ir às moquecas. A do Osmar, antiga, merece o prestígio que tem.

Quem se lembra da “Moqueca do Osmar” em seus primórdios, lembra-se de cabanas rústicas em que só contava, mesmo, o pescado posto à mesa. Hoje o restaurante está muito bem instalado, serviço muito bom, sem chegar a sofisticado, a comida deliciosa, no mesmo lugar, mas no segundo piso de uma espécie de sobrado. No primeiro, funciona, entre as tantas que pululam em Guarapari, uma igreja neopentecostal, claro indício de mudança de aprisco no antigo rebanho cristianizado pela pregação suave do padre José de Anchieta. A  recorrência de versículos bíblicos inscritos em  fachadas e placas de muitas lojas apenas confirma.


Se o céu de Castro Alves “é dos condores”, o mar do Espírito Santo é do badejo, do badejo e do marlim, peixe mitológico, epifania do próprio Posseidom, que atrai aventureiros do mundo àqueles páramos de luz. Por que insistem em pescá-lo? Talvez por contraponto a Moby Dick, a baleia branca de Herman Melville, que o capitão Ahab via como encarnação do Diabo, ou quem sabe ao peixe demiúrgico em cujo ventre de abismo, por três dias e três noites esteve retido o profeta Jonas. E não é preciso ser Santo Agostinho para render-se à tentação de desvelar mistérios, mesmo os que, enfim, são só do marlim. 

Voltar a praias do Espírito Santo, a Guarapari, depois de mais de trinta anos de ausência, é entregar-se à nostalgia da nostalgia do mar, deixar-se levar, nostalgia ao quadrado. (NM)

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Sete de Setembro, professoras e o fervor do Brasil

Setembro corre em disparada, montado em seu cavalo baio para chegar, sôfrego amante, aos braços da Primavera, os dias correndo junto para o ansiado encontro que, conforme as lembranças de lindos selos comemorativos do tempo da infância, haverá de celebrar-se no dia 22, que já está bem perto. E olhe que o mês começou devagar, indeciso, uns dias muito quentes, outros frios, como se quisessem confundir abelhas e andorinhas, mas não há como perder a entrada triunfal da estação florida. O Sete de Setembro, por exemplo, chegou e foi-se embora em branca nuvem, sem graça como os feriados que caem no domingo, e sem a emoção que traziam as celebrações do Dia da Pátria. Onde, porém, aquelas professoras jovens, bonitas, que insuflavam nos corações infantis, feito um sopro vital, o fervor do Brasil?

Os hinos e canções que ensinaram ainda reverberam na consciência e na memória: “Brava gente brasileira! // Longe vá... temor servil: // Ou ficar a Pátria livre // Ou morrer pelo Brasil!”, a letra de Evaristo da Veiga, a música de nosso Imperador Dom Pedro, o primeiro; “Ó Pátria amada, // Idolatrada, // Salve! Salve!” 

O Sete de Setembro passou em branca nuvem, feito qualquer pobre feriado que caiu num domingo. Alguma banda, algum coral, terá elevado os tons de Francisco Manuel da Silva no refrão ardente e vivo que, nos tempos da escola, incendiava versos esdrúxulos que mal podíamos compreender, do estro parnasiano de Osório Duque Estrada: “Deitado eternamente em berço esplêndido, // Ao som do mar e à luz do céu profundo, // Fulguras, ó Brasil, florão da América, // Iluminado ao sol do Novo Mundo!”

Na banalização, porém, dissolveu seu espírito e, junto,  qualquer possibilidade de fervor do Brasil, uma pena, menina. Ah, cantam nos jogos de futebol, mas sequer como o melhor cântico dos estádios. Nas vozes da malta torcedora, prefiro, sem desdouro para ninguém, as notas de “Clube Atlético Mineiro, // Galo forte, vingador...”. Que  outros prefiram outras canções, eis o sal do jogo, a essência da democracia.

O Sete de Setembro passou em branca nuvem. Passou mesmo? Quase me esqueço de dizer, menina, que, justo na manhã do Dia da Pátria, ensolarada e fria manhã, o ipê que pontifica na esquina de Antônio Albuquerque com Sergipe, na Savassi, em BH, achou de antecipar a Primavera mostrando-se em todo o esplendor de sua florada estonteante. Não é extraordinário que ipês floresçam nesta época do ano, mas intriga o fato de que sempre nos surpreendam, não importa quantas vezes tenhamos visto o mesmo espetáculo. Talvez seja porque, não sei não, tanto amarelo assim devolva-nos alguma secreta fagulha do fervor do Brasil que, de algum modo, nos alegra o coração. (NM)

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Triunfo dos ipês na paisagem de BH



Olhe só que florada de ipês amanheceu esses dias na paisagem de Belo Horizonte, em alegre e consoladora epifania!  Tão discreta ultimamente, Harmonia, se incorpora à consciência vegetal dos ipês, com todos seus tons do rosa clarinho a um lilás encorpado, diante dos olhos, ao alcance das mãos. As árvores da ordem Tabebuia Avellanedae, paus d`arco, peúvas, ipês roxos ou que nome se lhes dê, como se  tivessem deliberado em assembleia:  - É hoje.

E no tempo e no prazo, em perfeita sincronia, lançam à luz o esplendor de inflorescências que colorem, iluminam e enfeitam BH e todos os outros lugares onde gostam de florescer. 


Ah, o “vasto mundo” de Drummond, agora poluído, violento, injusto, superaquecido e triste!  Boa rima deu-lhe o Poeta, mas deixou insolúvel e, embora as cores da inocência, a rosa despedaçada da velha cantiga de roda é só uma metáfora, crianças despetaladas em Gaza, a concretude do horror. É de desesperar, mas melhor não. A gente olha a florada dos ipês e não se cansa de olhar. De repente, dá até pra acreditar que o caos da insensatez e da intolerância, ao fim e ao cabo, não prevalecerá. (NM)

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Da nomenclatura zoológica

    
      
65 – 66 – 67 – 68  ///  57 – 58 – 59 – 60   ///   13 –14 – 15 – 16


Em seu tempo primordial, Adão fez perfilar “os animais paramentados e a cada um deu um nome de batismo”, nomes bonitos, gratas sonoridades nem sempre suaves, laguasca, jaratataca, lombriga, cágado, ornitorrinco, mafagafos em seus ninhos, com dezesseis mafagafinhos. Desde então um atende por gafanhoto, por vulcchereria bancroft outro, e também vêm bem-te-vi e libélula, tiranossauro rex, abelha-rainha, coelho, lépido e pequeno, grandes orelhas, hipopótamo, pesado, enorme, orelhas curtinhas, e assim por diante.
Aí vem o barão Viana Drummond e inventa o joguinho. Águia, galo, cavalo, cabra e cobra,  avestruz de passo ligeiro e pavão de fulgente esplendor ganham números, em dezenas, centenas e milhares, e prestígio e presença nos sonhos dos humildes. 

Luiz Gonzaga disse em canção conhecida, aquela do chofer de praça: “Para batizado, tenho um terno branco, // para casamento tenho um terno azul”. Um terno de macaco, jacaré e borboleta e até mesmo um estudante pobre, pobre de marrais, marrais, pode celebrar um glorioso fim de semana com a namorada em Ouro Preto, “tempranillo” da Rioja, queijos de boa índole, bambá de couve num fim de noite em Mariana e, na friagem nivosa de Lavras Novas, aconchego de iglu na pousada lá no alto, onde a montanha se eleva até quase encostar na Lua; uma ou duas taças de espumante para enlevo dos espíritos apaziguados, muito mesmo a calhar.

De repente, o quase milagre: não mais mera ausência, sombras, abstração, prosaicas criaturas ganham sentido, substância, as cores e, principalmente, os nomes que têm, e viram objeto de ternura e cuidado: Ararinha azul, tartarugas marinhas, baleia jubarte, mico-leão dourado....  Vêm à baila, à tona, aos holofotes, de mansinho, aos poucos, nas asas de nossa nostalgia. Nostalgia da mais gentil das aves, o dodô, a mais indefesa, que um dia caminhou a passo desengonçado pelas praias dos Galápagos; da pomba avoante, de  movimentadas estações de choca no Sertão nordestino; dos pigmeus da Tasmânia, caçados, esportivamente, em sua ilha paradisíaca até que fosse abatido o último de sua estirpe amável; e nostalgia de todas as espécies animais e vegetais que se foram para sempre, até dos dinossauros, ou que estão indo agora, antecipando nosso deserto.  

Leão, Escorpião, Caranguejo, o Capricórnio de agudas aspas, Áries de cenho pensativo, Peixes silenciosos.  Estes há muito esplendem as noites do Mundo e, cada um em seu momento, cruza o céu constelado carregando enigmas do Tempo, perplexidades e presságios, um ou outro aterrador. Digam, porém, o que digam, o que passou, passou.  Eles acolhem, com benignidade, suspiros, arrepios e outras prendas do Amor que, de outro modo, haveriam de dissolver-se ao clarão esmaecido do lânguido Minguante. Por toda a extensão zodiacal, esparrama-se o Touro, que a atravessa de cabo a rabo, enquanto chispas azuis desprendem-se de seu olhar quase terno.

– Aldebarã, Aldebarã!

(NM)



domingo, 1 de junho de 2014

“O Vestido”, arte, emoção e liberdade

Blogueiro não é crítico de espetáculos, senão, há muito, teria destilado sua emoção, considerando que a apresentação do solo “O Vestido”, no Teatro Klauss Vianna (Oi Futuro), em BH, aconteceu não neste final de semana, mas no anterior (23, 24 e 25 de maio). Aconteceu? Isso mesmo, porque foi um tremendo happening. Baixada a adrenalina, já pode dizer que Terpsícore e Calíope, assim como Isadora Duncan e Pina Bausch, de algum modo, estavam no palco do Klauss Vianna, invocadas – quem sabe? – pela coreógrafa, bailarina e atriz Rosa Antuña.

E Denise Stoklos? Houvesse comparecido, provavelmente teria aplaudido com o mesmo entusiasmo da plateia em cada uma daquelas três noites, deixando-se levar pela emoção que artes, artes de Rosa Antuña, por supuesto, sublimam e materializam no palco, incorporando ora fragor de muitas águas, ora o suave descair do rocio na hora da Estrela da Manhã.

“O Vestido” é uma alegoria da condição da mulher universal, de todos os lugares, de todas as idades, de todas as épocas, feita de pura emoção. No cerne do “argumento”, a ideia de que o importante é que, uma vez vestido o seu vestido, uma mulher pode voar, voar, nas asas de seus sonhos mais altos de liberdade, acima de quaisquer tiranias e de todas as formas de opressão.

Parece simples, até banal, mas a emoção está na forma de expressar tais banalidades e simplezas na linguagem dos gestos, do movimento, na sintaxe do corpo. A palavra, apanágio sutil do homem, o mais sublime, é meramente incidental no “texto” e no contexto de “O Vestido”. Chega como um balbucio entrecortado ou num idioma estranho, desconhecido. E, no entanto, cada um pode senti-la como se ouvisse na língua de sua infância. São variações de tons e inflexões que explicitam todas as significações necessárias em um discurso impronunciado, mas complexo e arrebatador.

Com gestos, passos e movimentos harmoniosos assimilados no ballet clássico, na dança de salão e na dança contemporânea, Rosa despetala suas delicadas intuições de artista; das bailaoras andaluzas, a dança das mãos, que lhe permite dizer coisas importantes ou triviais, de um jeito sempre bonito, aos homens de nossa terra insólita ou aos deuses que, desatentos, nos assistem desde o céu constelado.

“O Vestido” não é espetáculo que se materialize assim, sem mais, só no plano da arte. Requer comprometimento de iniciado que possa mover-se na dimensão do inefável, aquela em que uma mulher que tenha vestido o seu vestido sobrepõe-se à banalidade da Morte. Um tiro no peito? Não é nada. Na hora de ir-se embora, abertas as asas do espírito, é voar e voar.

(NM)
As fotos são de Duda Las Casas (A) e Marco Aurélio Prates (B)