sábado, 25 de junho de 2016

É bom lembrar Carlos Alberto e Jader

Chegou a O&B mensagem do Carlinhos Barros Santos que alegrou o coração do blogueiro, pelas lembranças boas que trouxe. Pra quem não sabe, ele é filho do saudoso Prof. Carlos Alberto de Barros Santos, que enriqueceu o blogue com generosa e qualificada colaboração, enquanto esteve entre nós. Carlinhos diz que não conhecia a palavra “mentideiro”, palavra velha e um tanto fora de uso, que aparece na última postagem. Disse que gostou demais dela, antes de observar que “um grande mentideiro deve ter sido o Bar do Primo, nos áureos tempos, quando frequentado pelo meu pai e sua turma de amigos”. Claro, e o do Tip Top. Todos apreciávamos o chope e a conversa.
                                   
E acrescenta: “Tenho sempre lido "O&B” e fico sempre com a impressão, e já lhe disse isso de outra feita, que sinto estar conversando com o papai quando leio as suas crônicas, tamanha a similaridade nos assuntos e no modo da escrita.” Em suas incursões pelo blogue, Carlinhos deixou-se encantar por Geir Campos: “O poema Alba: Não faz mal que amanheça devagar é estupendo! E depois andei pesquisando mais textos dele, gostei muito.”

O Geir continua sendo um momento de esplendor da Poesia em Língua Portuguesa, mas, aí, o inevitável: Carlinhos revela que, em outros passeios por O&B voltou a ler a crônica sobre o Cuartito Azul, o tango de Mariano Mores, recém falecido, e Mário Battistella: “O papai adorava essa canção, apesar de ser uma das suas piores interpretações musicais! Mas sempre insistia, e voltava nela nas tertúlias dominicais. Quando juntava com o Jader de Oliveira, piorava bastante, era doído para os ouvintes. E ainda vinha, na sequência, Corrientes, três, cuatro, ocho...”

Carlinhos Barros Santos acrescentou à sua mensagem duas fotos de seu pai , Carlos Alberto,  com o também saudoso jornalista Jader de Oliveira, que vivia em Londres, numa de suas vindas de final de ano a BH para refazer o espírito: tarde de feijoada, muita conversa e tangos.

Ele deixou um p.s.: Vou lhe enviar, na semana que vem, um poema que achei noutro dia, chamado "Canção da Morte na Tarde". Creio que não o conhece.

 E não conheço mesmo, Carlinhos, muito obrigado.

NM

Hoje posto o poema, que acabou de chegar:

CANÇÃO DA MORTE NA TARDE

Carlos Alberto de Barros Santos

Cai lentamente o sol crepuscular,
E lentamente vão as nuvens se afastando
Num prenúncio de chegada do luar.
O sol crestou impiedosamente a paisagem,
Mas veio o crepúsculo e, como u’a benção,
Pousou serenamente sobre a paragem,
O tapete de relva das montanhas,
Os grotões da serra.
E estendeu-se em sombra e calma
Sobre a geometria das ruas e dos prédios.
A claridade já não arde em brasa,
Um vento gentil envolve a minha carne.
A tarde morre em ouro e sangue.

Bilac rogou para não morrer assim,
Num dia assim! De um sol assim!
Também a mim,
No fundo oceano
Da minha mortalidade,
Fere como açoite a claridade.
Por isso mesmo vos peço,
Ó vos que me amparais:
Não me deixeis partir,
Eu vos imploro!
Não deixeis esvair o que sou agora,
Ou o que resta do que fui outrora,
Ó, não me deixeis findar,
Antes que desça a noite,
Antes que a noite venha
Para me levar.


Novembro de 2.000

domingo, 12 de junho de 2016

A desconversa fiada do Grande Irmão

“Mentideiro” é palavra quase extinta, de tão pouco que circula, mas está consignada em verbete do Aurélio como lugar onde se inventam e propalam boatos. Mas, é também assembleia informal e, como as assembleias, em geral, muito bom para a conversa fiada. A tv, como antes dela o rádio, há muito percebeu as possibilidades do mentideiro e, com muita desenvoltura, delas se apropria, adaptadas aos próprios  interesses. Junta quatro, cinco ou mais pessoas numa discussão e opera milagres: muitos telespectadores assumem a conversa como se, de fato, tivessem participação nela. Em temas como política e futebol, entre outros que não requerem abordagem precisa e a opinião dispensa fundamentação coerente, dependendo mais da autoridade de quem opina, consegue criar a ilusão do grande mentideiro universal, multilateral, virtualmente aberto a todos.

A cibernética oferece a hipótese da interatividade perfeita, mas dez, vinte ou mesmo cem mensagens selecionadas e editadas não podem sustentá-la nem constituir amostragem relevante dos “amáveis telespectadores”. Mas funciona, sobretudo em programas de entrevistas em que um ou mais entrevistadores arguem autoridades e celebridades, ou naqueles debates que envolvem muitas pessoas ao mesmo tempo, jornalistas e gente de outras áreas, donas-de-casa, psicólogos, com muita gente falando alternadamente em conversas que teriam algo do mentideiro convencional, mas submetido a regras e limites que o constringem e descaracterizam, espoliam-no de sua vitalidade. E tem todo aquele bom-mocismo, irrque!

Bem-comportada, direcionada, sempre chega onde deve chegar. Mesmo quando a conversa da tv parece caótica, desencontrada, está atrelada a temas definidos a priori e a algum objetivo, a um roteiro que torna improvável o surgimento de um enfoque diferente. Faltam-lhe as contribuições descompromissadas que engendram, constroem e enriquecem as histórias.

Numa avenida das avenidas do Brasil, um café congrega aficionados de futebol, quase todos maiores de sessenta, que discutem campeonatos, jogos, times, contam histórias, fazem-se provocações, apostam e, sobretudo, divertem-se com a conversa... A assembleia não é dentro do café, mas no passeio, aberta à participação de quem quiser. Se um juiz de futebol não marca o pênalti flagrante, ali não há contemporizações: – Que caradura, hem! Juiz sem-vergonha, ladrão! 

Em contraponto, na TV, a desconversa fiada: “o juiz não achou que foi falta, por isso não marcou”; “o juiz é um homem de bem”; “o juiz é um homem honrado” – Como Brutus? – ou “o juiz teve um `apagão´ e não viu o pênalti”... Mas discute-se em tom solene se não seria o mesmo “árbitro” portador de alguma disfunção cerebral, uma arritmia, epilepsia ou outra coisa que o desqualificasse para juiz. E não falta retórica que, na maioria dos casos, só faria sentido para uma liga que, de repente, viesse a precisar de um “apagãozinho” estratégico: “não se pode prescindir de um grande juiz apenas por uma falha. Afinal, todo juiz erra, não é mesmo?” Aí, alguém repete como uma senha alguma história velha, de algum campeonato velho, e todos mudam alegremente de assunto.

O grande mentideiro universal pode ser uma exigência do processo de massificação em escala planetária, mas ainda não prevaleceu. O mentideiro de verdade(!!!) sobrevive em muitos lugares, múltiplo, diversificado, vivo, humano, mas, sobretudo, no bar (*), no botequim ou onde quer que um pouco de embriaguez, ou mesmo um porre, assegure fulcro e fluidez à conversa fiada sem predispor ninguém a ceder nada no domínio de sua vontade nem a deixar que sua opinião seja puxada para lá e para cá por uma cordinha, feito cachorrinho pequinês.

Cerveja e outros fermentados, e algum destilado de mais espírito, favorecem a pluralidade, a diversidade, a diferença, enfim a dialética da vida, contra as ambições mais perversas do Grande Irmão de apropriar-se dos canais de expressão e da cultura e impor a palavra incontrastável – sem indagações, sem contestações – monopólio de mentes e corações. Para denunciar armas de destruição em massa, para legitimar um campeonato roubado, um “impeachment”, uma guerra, o que seja, e para condenar o inimigo público eterno: Goldstein, Hussein? Deus me livre!

(*) Tânio, meu irmão de muitas etilidades, que não ligava pra desportos, mas gostava de chope, de uma cachacinha... dessas de macio descer: “Na animação do bar, até conversa de futebol tem sabor.”

(NM)

domingo, 5 de junho de 2016

O EX.mo. senador Incitatus e outras cavalgaduras

Romanos

Gaius Caesar Germanicus, o Calígula (31 de agosto, AD 12 - 24 de janeiro, AD 41), imperou em Roma entre 37 e 41, quando foi assassinado pela guarda pretoriana, aos 29 anos. Filho mais novo de Germânico e Agripina, era bisneto de César Augusto e sobrinho-neto de Tibério, excelente linhagem, pois. Perseguiu, prendeu e torturou amigos e inimigos, fez cometer milhares de assassinatos, mas reprocham-lhe, sobretudo, haver nomeado senador o seu cavalo Incitatus. De modo nenhum isso  faz justiça ao animal que, ainda hoje, não haveria de fazer má figura em parlamentos de pequenas e até de enormes repúblicas.

Incitatus, como os de sua ordem eqüidea, jamais mentiu, algo que o desqualificava no senado romano e também desqualificaria nos senados atuais. No mais, “calígulas” mínimos tiranizam pequenos e grandes impérios por toda parte,  graças à natural dificuldade do rebanho humano em encarar o próprio destino e  tomar decisões que lhe seriam próprias e intransferíveis. Um pouco de esperteza, outro tanto de audácia, alguma sorte, e temo-los encarapitados no poder, mandando e desmandando – parece que desmandar é ainda melhor que mandar, mas, ao fim e ao cabo, conta mais a virtude do cavalo.

Persas

Heródoto relata que uma inscrição ao pé de uma estátua de Dario, o Grande,  proclamava que ele ascendera ao trono da Pérsia “pela virtude de seu cavalo”. Na base da educação, nos tempos de Dario: “Um persa precisa saber montar a cavalo, atirar flechas com arco e dizer sempre a verdade.” Fora a questão das flechas, a fórmula ainda poderia viger com proveito em países grandes da América do Sul, quiça (ou seria cuíca?) do mundo inteiro.

Mineiros

– “Veloiz”? Por que você deu esse nome ao cavalo, Serafim?  
– Por quê? Porque ele é ligeiro que só cê vendo.

E, baixinho, para que o interlocutor não ouvisse: – Gente de cidade grande “faiz” cada pergunta esquisita!

Genésio, porém, ouviu, e não conteve o riso. Apenas, desistiu daquela conversa, conformado com o fato de que é nessa prosódia que um castanho brioso e forte do Sudoeste pode entender seu dono. (NM)

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Se as montanhas cantam? Sim, elas cantam.






 iQué bien los nombres ponia
Quien puso Sierra Morena
a esta serrania!
     (Antônio Machado)


Canastra, Mãe das Águas (riosvivos.org.br)
Cáucaso, acorrentado num rochedo o destino de Prometeu, Ararat, porto e guarida da grande Arca; corte e conselho de deuses muito antigos, o Himalaia; passagem difícil para os elefantes de Aníbal, os Alpes; bijou ao pé do Mont Blanc, Chamonix exibe suas neves, no nome, o ritmo de redondilha. E os Andes, de Tupac Amaru, do lago Titicaca e do Urubamba, Olantaitambo, Machu Picchu, Huayná Picchu? Cordilheira, também, de alpacas e vicunhas, e do condor, sim senhor! Eleva-se na paisagem deslumbrante a “Sentinela de Pedra”, com suas torres brancas e o nome que merece o respeito dos homens e, na voz do hierofante, alegra mais que um salmo o coração dos deuses: Aconcágua!
Sempre a sonoridade grata, às vezes áspera, branda às vezes, nos nomes que, em toda parte, emergem da Terra ao levantar-se em direção ao céu alto e que se expandem pelo Orbe, música, como se as montanhas cantassem.  Les Pyrenées, os Picos de Europa, a Cordilheira Cantábrica; os Apeninos, montes da Itália e da Lua; e o Olimpo e o Parnaso, os Cárpatos, The Rocky Mountains, Fujiyama, Momotombo, da Nicarágua, feito o Vesúvio e o Etna é montanha que fuma e deita fogo; os Montes Atlas, Lalla-Kadidja e os demais; o Quilimanjaro, o Monte Quênia, mansão dos ancestrais Quicuios, guia e arrimo dos Mau-Mau. A gente pode até pensar se a glória de Roma seria igual sem a magia de suas colinas, impregnado de poesia o nome de cada uma: Palatino, Quirinal, Aventino, Monte Célio, Viminal, Capitólio, Esquilino... 

A Sierra Maestra acolhe aquele “cierbo herido” de Marti, “que busca en el monte amparo” e muitos cubanos pronunciam seu nome de puro encanto com reverências que só à própria mãe são devidas. “Por la Sierra Morena, a dos mexicanos, Cielito lindo, venian bajando, un par de ojitos negros, (...) de contrabando”; a da Espanha, por direito de poeta, pertence a Antonio Machado, assim como umas cantábricas peñas a Gustavo Adolfo Becquer. Desde Puertu de Payares a gente avista lá embaixo, resplandecente, o verdor dos vales de Astúrias, um deslumbramento! Guadarrama, Guadarrama, primeira linha de defesa da Madri republicana, suas pedras altas; Sierra Nevada da sultana Aixa, branca Lua de Granada, e de Garcia Lorca, Lorca, e Manolo Caracol!

Repartidora de grandes águas, para o Sul, o Rio Grande, para o Norte, o Rio de São Francisco que, serpeando Nordeste afora, vai saciando muitas sedes, Serra da Canastra! Umas vaquinhas de longos chifres escalavam feito cabras montesas, já faz tempo, as encostas íngremes, para alcançar moitas nativas de capim gordura. Um litro de leite a cada dia, porém riquíssimo, para nutrir sua cria e ensejar o queijo sem igual; uma vaca de estábulo, vinte litros ou mais, porém, queijo nenhum que leve com dignidade o prestígio de seu nome mágico.

Pão de Açucar, Morro da Viúva, Serra do Curral, da Moeda, Serra do Salitre, Serra do Rola Moça, da Borborema, Serra da Mantiqueira, Morro do Papagaio, Monte Pascoal, Monte Azul, Monte de Vênus, epa! Sem grandes proeminências na Geografia, a Serra da Boa Esperança, “Esperança que encerra (...)”, nos versos de Lamartine, eleva-se até as estrelas. Serra do Mar, Serra Geral, dos Órgãos, Serra do Caparaó, o Pico da Bandeira, mais alto do Brasil antes de umas medidas mais recentes darem primazia ao Pico da Neblina de misteriosas brumas, sem desprestígio algum a velhos cadernos escolares ou à memória da infância. Muito menos à professora, que ensinou, está ensinado e muito bem aprendido.

Pico do Itacolomi, “menino de pedra”, “pedra que balança”, em idioma Tupi, ou “farol dos bandeirantes”, totem da antiga Vila Rica e desta Ouro Preto de agora, infestada de turistas, testemunha silenciosa da execução de Felipe dos Santos e de uma onírica conjura de poetas: lirismos arrebatados, Gonzaga, Alvarenga, “Bárbara bela do Norte, Estrela ...”

Com seus foros de cordilheira, ergue-se o Espinhaço por léguas e léguas de longitude, uma tripa, considerando a latitude ínfima; seria todo em Minas, mas não pôde resistir à tentação de esticar-se até a Bahia. Quem é que pode? Manda muitas águas direto para o Mar, mas reserva outras muitas para o São Francisco, que, portentoso esbarro, rebate rumo a seu destino; encrespa e eriça suas pedras pretas nas alturas de Diamantina, tremendo arrepio telúrico orientado todo para o Norte, pente de Minas, magnífico, que gemas preciosas enfeitam, umas grandes, muitas pequenas, xibius.

(NM)

segunda-feira, 21 de março de 2016

Duas Marias de Sevilha

Maria Luisa tem o privilégio de viver e trabalhar na gloriosa Sevilha, privilégio doqual ela tem plena consciência, mesmo porque inclui passear pelo casco histórico, à sombra da Jiralda e da grande catedral, e desfrutar um luminoso entardecer “a orillas del Guadalquivir”. No último fim de semana, ela estava em Portugal quando a surpreendeu num muro de Serpa, Alentejo, uns versos de Mário Berião, encantadores e, incontinenti, capturou-os com sua câmera, mandou para o blogueiro.  Ei-los:

Maria de la Torre  também é de Sevilha,  e vem de lá o pungente libelo em favor dos refugiados das guerras do Oriente e de África, de todas as guerras, curto e despojado,  seco, no melhor padrão “Antonio Machado”. O&B replica o texto primoroso, e a efígie do Poeta,  que o ilustra, postados  em seu blogue na rede eletrônica:

Indolência


Cada vez que veo, escucho o leo algo relacionado con las atrocidades de los nazis pienso en cómo fue posible que tanta gente los apoyara y creyera que tenían razón, que había que hacer las cosas así, y que pasara tanto tiempo hasta que se puso fin a todo eso. Nunca lo he comprendido, desde pequeña pensaba “¿pero qué tenían esa gente en la cabeza?, ¿pero no veían lo que estaban haciendo a otros seres humanos?”. Ahora, como adulta, lo comprendo. Ahora veo barcos atestados de personas cruzando hacia mi orilla en plena noche de invierno, niños que duermen en el barro y madres que paren en soledad en campos de refugiados. Padres desesperados con ropa mojada y sin comida pero aún con fuerzas para caminar kilómetros con sus hijos a cuestas. Personas que cruzan ríos levantando a sus hijos para que no se mojen tanto. Abuelos en sillas de ruedas con la mirada perdida, pensando en qué habrán hecho para merecer esto. Y es que nadie merece esto, pero lo permitimos.

Me atormenta la idea de que un día mis hijos me pregunten “mamá, ¿por qué pasó todo eso?, ¿por qué no hicisteis nada para impedirlo?, ¿pero no veíais que era inhumano?”. Y no tendré respuesta, tendré que bajar la cabeza y decir que sí lo veíamos, pero que éramos unos malditos acomodados que poníamos nuestra indignación en las redes sociales, colaborábamos como podíamos con alguna ONG, firmábamos una petición en Change y nos lamentábamos de no poder hacer nada más. Tendré que admitir que estábamos totalmente controlados por los poderes políticos y económicos y que toda esa gente nos metía en la cabeza (como buenas SS) el convencimiento de que tomaban todas estas medidas por el bien de todos. Es imposible aceptar a todos, da igual que en sus países haya guerra o que mueran de hambre, aquí no caben, que se acaba el pastel. Están velando por nuestro futuro, y por el de nuestros hijos, no seamos ingratos hombre… Pero a mí se me caerá la cara de vergüenza cuando mis hijos vean cómo salían miles de personas a las calles a celebrar la victoria de un equipo de fútbol y cómo había cuatro gatos en una convocatoria para rechazar acuerdos que se pasan por el forro los Derechos Humanos (500 gatos en Sevilla, para ser exactos). Tendré que decir a mis hijos que la indolencia se acomodó en nuestros sofás mientras veíamos las noticias. Y ellos me reprocharán que fuimos la generación del “no a la guerra” y la del 15-M, que cómo no fuimos capaces de parar esto. Y no sabré qué decir. Supongo que solo me quedará decir “lo siento”.

Pero no, no puede ser, eso no puede ocurrir. “Hoy es siempre todavía” y somos mayoría los que nos revolvemos en nuestros cómodos sofás al ver a esos políticos hablando de cupos, cuando vemos cómo Donald Trump alza el vuelo cual águila rapaz, y nos castigamos por no saber qué hacer, aunque en realidad todos sabemos cómo aportar un granito de arena que multiplicado por millones haría montañas. Hay que tomarse en serio las elecciones, sobre todo las europeas que siempre han sido de chiste y en realidad es ahí donde se maneja todo el cotarro. Y lo más importante, por encima de cualquier otra cosa, tenemos que ser más generosos, nosotros que por suerte, y solo suerte, hemos nacido en este lado del río, tenemos que dejar de pensar en nuestras economías, en nuestra sociedad del bienestar, en nuestro, nuestro, nuestro… Porque este mundo es de todos.

“Hoy es siempre todavía”, el gran Antonio Machado era capaz de decirlo todo en pocas palabras, pero otro grande contemporáneo, Ismael Serrano, continuó ese poema de un verso así: "Hoy es siempre todavía, toda la vida es ahora. Y ahora, es el momento de cumplir las promesas que nos hicimos. Porque ayer no lo hicimos, porque mañana es tarde. Ahora”.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Bar do Chico, Rua Sergipe com Timbiras

Gente interessada em filmes, em fazer filmes, roteiros, dirigir, essas coisas, quando se enturma não tem outro assunto, o que é aborrecido, mas também divertido, mesmo para quem tenha entendido, de cara, que não ia virar cineasta de jeito nenhum, sonho universal naqueles primeiros anos 70 entre os alunos da escola de cinema da Universidade Católica, em BH.  Os mais aptos insistiam, mas fora um curta metragem ou outro, um Super 8, pouco realizaram que merecesse registro. Tudo muito difícil, frustrante.

Manter-se na perspectiva de fã, reconhecer a própria falta de jeito, de gana e meios para realizar um filme de verdade tinha suas vantagens. Sem maiores pretensões, o sujeito podia contentar-se em ver nas telas dos cinemas do circuito comercial e nos cine clubes as estrelas de sempre, Marlene Dietrich, Greta Garbo, Ingrid Bergman, Dorothy Lamour, Maria Montez, Maria Felix e, claro, as estrelas do momento.  Pouco importava a conversa interminável dos cinéfilos sobre filmes, diretores, atores, cinegrafistas, roteiristas, continuistas, Cinecittà, neo realismo, Vittorio de Sica, Rosselini, Mussolini, - Epa, esse não!  - Mastroiani, Lucchino Visconti, Bertolucci, Federico Fellini, Pasolini, Nouvelle Vague, Goddard, Agnès Varda, Nelson Pereira dos Santos, vá lá, Limite, Humberto Mauro, Deus e o Diabo, Glauber Rocha, Jeanne Moreau, Belmondo, Anie Girardot, Brigitte Bardot, Roger Vadim, Jane Fonda, Barbarella, tão bonita!

Era assim nos corredores da Faculdade de Filosofia, onde funcionava a escola de cinema, nas salas de aula, no laboratório, nas pequenas e grandes salas de exibição e nos botequins da cidade onde, enturmados, buscavam cerveja gelada e conversa fiada em intermináveis discussões sobre o que rolava nos cinemas. O Bar do Chico, na Rua Sergipe com Timbiras, era parada obrigatória no ir e vir para a escola, na Avenida Brasil, já chegando à Praça da Liberdade.  Muito gelo na cerveja que servia, do que ninguém reclamava; moelas de galinha vinham num molho temperadíssimo que, sobretudo em noites mais frias, alegrava o mais descoroçoado coração. Chico era apenas o garçom, mas tão amável e eficiente, acabou virando o dono moral do estabelecimento.


Numa noite de grande libação, discussão acalorada sobre os pequenos e grande entraves que sufocavam, desde a produção à exibição, a realização de filmes no Brasil. Desinteressado, um sujeito insistia na ideia de armar uma rede, dessas de dormir, nos sinos da Catedral da Boa Viagem, bem em frente, para que todos tivessem “ciência e conhecimento” de que, quando fosse o caso, ele estava namorando.  A namorada não dissimulou o tédio nem saiu do tema ao encerrar o papo furado: – Ô, meu chapa! Deixa de ser exibido!
(NM)

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Saudade, o Plínio foi embora

O sábado que passou tinha tudo para ser um dia aziago. A chuva ainda não se havia decidido a lançar seus consoladores eflúvios sobre BH, ansiosamente esperados depois de meses de secura e canícula, o fogo comendo solto nas serranias do entorno da cidade, castigando flora e fauna; Havia desconforto e apreensão. Aí, logo de manhã, o telefone e a notícia de que, naquela mesma madrugada, o Plínio, Plínio Bossi Barreto, havia ido embora.

Como evitar o grande sentimento de perda? Ninguém evitou nada, mas a ideia do Plínio indo embora ficou claramente dissociada de qualquer tristeza no velório do Cemitério do Bonfim, onde uma legião de amigos e familiares foi se despedir dele. Todos e cada um tinham lembranças boas e alegres do grande jornalista que, caso raro, exerceu, e com a maior dignidade, a sua lide até a noite, aquela noite em que recebeu a visita da Parca. Escreveu sua última crônica logo depois de cerrar-se o crepúsculo dos seus 93 anos.

Ele nunca conheceu qualquer perda de lucidez e manteve intata a memória prodigiosa, no semblante e nos olhos o brilho da inteligência com que terá encarado sem medo uma respeitosa Fiandeira que sabia muito bem que Plínio não tinha medo dela. Como no poema de Geir Campos, pôde apresentar-se diante dela “sem marca ou cicatriz, limpas as mãos,  (...) a alma limpa, a face descoberta,  aberto o peito, e – expresso documento – a palavra conforme o pensamento.”

Carregou desde sua longínqua infância a paixão do velho bairro da Lagoinha, que expressou em textos memoráveis no livro “LAGOINHA MEU AMOR”, afetuosa metonímia da cidade dos mais belos horizontes. Conhecia, no tempo e no espaço, e se alegrava no amor de BH que, diga-se de passagem, sempre o quis muito bem.

Futebol ocupou muitos anos de sua longa carreira de jornalista, como repórter, redator, editor, o escambau. Em 1976, quando já se ocupava de outras áreas do jornalismo que não o esportivo, publicou, só por desenfado, “Futebol no embalo da nostalgia”, um livro precioso, com histórias impagáveis vivenciadas em anos e anos de experiência e trabalho, entesouradas nos cofres de sua memória de prodígio.

Agora, o seguinte: privilégio era ouvi-lo numa mesa de botequim contanto histórias que só ele era capaz de lembrar, conversas circunstanciadas com a maior precisão quanto a datas e locais com gente que ele teve oportunidade de conhecer ao longo de seus muitos anos de jornalismo, assim, Ary Barroso, Lamartine Babo, Pixinguinha, e a turma do futebol, Zezé Moreira, Telê Santana, Garrincha, e muitas histórias envolvendo Felício Brandi, o grande presidente do Cruzeiro Esporte Clube, seu time do coração. Também da infância na Lagoinha, bairro construído basicamente por imigrantes italianos, incluindo sua família, ele trouxe a irremissível paixão do antigo Palestra, o Cruzeiro de hoje, paixão jamais influiu no rigor profissional com que sempre tratou os fatos e a notícia. Sujeito exemplar, o Plínio! E que jornalista!

Saudade? Claro, muita saudade, de seus amigos, de sua mulher e de seus sete filhos e muitos netos. Mas saudade dessas que vêm devagar, envoltas em lembranças boas e muito afeto. Nem poderia ser de outro modo, posto que, na razão e na emoção, Plínio sempre foi antes de tudo um tremendo afetivo. Ele gostava das pessoas que, talvez por isso mesmo, gostassem tanto dele. (NM)

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Rosa Antuña apresenta “O Vestido” na Casa do Conde


A bailarina e coreógrafa Rosa Antuña apresenta neste final de semana, sábado, dia 8, às 20 h, e domingo, dia 9, às 19 h, o solo “O VESTIDO”, segundo de sua Trilogia do Feminino. A apresentação insere-se no Projeto Ocupação Diálogos da Funarte, no galpão 3 da antiga Casa do Conde (Rua Januária, BH), com ingressos a R$ 5,00 e R$ 2,50.

As fotos são de Marco Aurélio Prates

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Ipês, paus d`arco, não importa: benza Deus!

O&B subestimou, em sua última postagem sobre as floradas, a generosidade dos ipês. Aqueles tons de rosa inacreditáveis, à vezes com tons violáceos, de azul outras vezes, estão por toda parte em BH, embora sem a unanimidade de outros anos. Mesmo na Praça da Liberdade, onde a florada começou tímida, chegou a habitual explosão de cores que,  prenda dos paus d`arco, sempre enfeita e alegra a cidade nesta época do ano. Benza Deus! (NM)
  



















No cruzamento da Rua São Paulo, ali onde a Rua Felipe dos Santos despenca rumo à Praça Camões (Marília de Dirceu) a florada dos paus d`arco converte uma perspectiva banal num vislumbre de pura magia na nossa paisagem urbana. 

sábado, 18 de julho de 2015

Canastra com Mr. Sharif

Fernando Fabbrini (*)

Em homenagem a Omar Sharif, que desembarcou da Nave na semana passada, e atendendo aos pedidos de alguns amigos, segue crônica publicada originalmente no jornal O TEMPO em 16 de março de 97.

Bigode e Magrelo tinham vinte e poucos anos. Eram brasileiros, cabeludos e se diziam hippies. Chegaram à Europa de navio - porque naquele tempo navio era muito mais barato - com mochilas, violões, sonhos de liberdade e alguns trocados no bolso. Em pouco tempo já estavam ganhando uma graninha em boates de segunda, corredores de metrô e arredores das universidades. Pra completar, Magrelo ainda reforçava o orçamento com aulas de bossa nova, acordes dissonantes, macetes e coisa e tal. Em Madri, uma das alunas era Susan, uma americana que adorava o Brasil; tinha morado no Rio com seu marido Pedro, um famoso produtor de cinema da época. Harpista de mão cheia, Susan curtia transcrever para seu instrumento os acordes diferentes que Magrelo sabia. De aula em aula, o casal ficou amigo de Magrelo e sempre o convidava para as festas em sua mansão nos arredores da cidade. Magrelo chegava, tocava o inevitável “Garota de Ipanema” e o jantar estava garantido.

Naquela noite de sábado ia ter mais festa. Magrelo tomou banho, separou o jeans menos sujo, botou seu velho Di Giorgio na surrada capa de lona; conferiu as pesetas para a passagem do metrô e saiu caminhando pela noite gelada. Chegando à mansão, percebeu que a festa seria especial: carros de luxo na porta, motoristas fardados, um agito diferente no ar. No salão imenso, gente finíssima, mulheres lindas em vestidos tão brilhantes quanto decotados, risadas e champanhe em profusão. Susan e Pedro receberam Magrelo com a simpatia habitual:

— Que bom que você veio! Tem alguém aqui que você deve conhecer... – disse Susan, puxando Magrelo pelo braço. Alguém que ele devia conhecer era realmente alguém conhecidíssimo: nada menos que Omar Sharif, o ator de “Doutor Jivago” e “Lawrence da Arábia” em pessoa. Velho amigo do casal, ele estava na Espanha de passagem; foi convidado para a festinha e apareceu, por que não?

— Nice to meet you! - disse Sharif, com aquela voz de Hollywood. – Hummm... Brazilian? So, you play canastra, don’t you?

Ora, ora! Que pergunta! Magrelo era viciado em jogo de buraco e no seu similar, a canastra. Faltava um na mesa e lá foi Magrelo fazer dupla com Omar Sharif, deixando o violão num canto. Jogaram a noite inteira e a coalizão egípcio-brasileira estava com sorte. Ganharam várias rodadas. A cada batida, Sharif dava palmadas nas costas de Magrelo, eufórico.
E Magrelo, desinibido por conta do bom uísque que corria solto, devolvia-lhe as gentilezas, como se fosse a coisa mais normal do mundo bater nas costas de Omar Sharif numa mesa de jogo. Fim de noite, Mr. Sharif – empapado de vodca como nos tempos de “Doutor Jivago” – fez questão de abraçar o brasileiro:

— You are a wonderful partner, my friend! - disse Omar, cambaleando. Depois, escorando-se numa bela mulher, entrou numa Mercedes-Benz prateada e sumiu na neblina do amanhecer.
Magrelo voltou para o Brasil tempos depois; engordou um pouco, ficou mais velho, ganhou cabelos brancos e continua contando essa história quando alguém lhe pede. Alguns acham que é pura invenção do Magrelo, mas ele nem liga. Já está acostumado.

Nota de O&B – É assim mesmo, Fabbrini. Os bons sempre se encontram, seja numa mesa de boteco ou numa roda de carteado. 


(*) Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com dois livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália.