domingo, 24 de dezembro de 2017

Marcelo Prates fotografa passarinhos em NY




Depois das imagens belíssimas que capturou (só as imagens) do passaredo de Belô, publicadas em álbum encantador, “Pássaros da Liberdade”, o fotógrafo Marcelo Prates resolveu apontar para bem longe suas lentes sensíveis: foi fotografar passarinho em Nova Iorque, logo de constatar a riqueza e variedade da fauna alada e emplumada na grande metrópole de concreto. Nem pestanejou: concebeu e estruturou depressa o projeto “New York Wings” e pôs-se a trabalhar.

O&B teve o privilégio de receber algumas das primeiras fotos. Marcelo observou que, tanto lá como aqui, as pessoas, em geral, nem se dão conta da presença de tanto passarinho em meio à hostilidade do ambiente urbano mas, tanto lá como aqui, “canto y plumas”, eles enriquecem, colorem e alegram a paisagem. Bravo, Marcelo! Grandes voos para “New York Wings” (nm)

(1) Pra quem sabe voar, isso aí é fácil
(2) Quase um tico-tico
(3) Num terno arrulhar de rolinhas, até NY é suave
(4) Púrpura cardinalícia
(5) Quase um saíra    
(6) O predador













segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

ASAS DE BOLERO, reclame de lançamento



O sujeito se deixa levar pelo lirismo caótico de memórias afetivas de tempos mais juvenis e o resultado inevitável são registros fragmentários, desconexos, aos quais apenas o afeto pode conferir um mínimo de unidade e coerência. Mais importante, porém, é que, de repente, sem mais, esses registros ofereçam a oportunidade insólita de retomar antigas tertúlias e reencontrar amigos que o tempo implacável, a distância e o precário da existência há muito dispersaram nas sombras deste mundo fluido e inconstante. 

Nisso, a alegria de escrever esse ASAS DE BOLERO, em ondas repetidas à exaustão em cada diálogo ocioso, em cada pequena história, ao sabor da conversa fiada sem fim, recuperados com liberdade e afeição. Então a gente pode até achar a coragem necessária pra convidar o leitor amável a juntar-se a esta pequena aventura literária.

Não dá pra dizer muita coisa sobre o lançamento de um livro despretensioso feito ASAS DE BOLERO, além do que está posto no reclame. Mas sempre há o clima festivo da Savassi e, ali, bem no meio do burburinho, o charme acolhedor do Gujoreba Café.  E o evento terá o brilho, inefável brilho, do teclado do Washington (as time goes by  Blue Moon, you saw me standing alone , non, rien de rien, je ne regrette rien, como ´e prima, piú de prima, t´ameró, meu coração, não sei por que, bate feliz quando te vê, Luna que se quebra sobre las tinieblas de mi soledad, Lili Marlene, Maria Dolores, Maria La Ó, Michelle, ma belle, Marina morena você se pintou,  oooooó, se asoma la Luna, las palmeras susurran un canto tropical...  (nm)

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

BH exulta no esplendor da sibipiruna em flor

Manhã de domingo, trânsito interditado  na Savassi, um turista ou outro tirando fotos ao lado da estátua de bronze do escritor Roberto Drummond, crianças patinando, andando de bicicleta ou apenas correndo de um lado para outro no leito de ruas e avenidas sem automóveis, cachorros passeando seus donos e donas, umas bem bonitas. O blogueiro fotografa, distraído, os ladrilhos da Avenida Getúlio Vargas enfeitados de amarelo pela florada de sibipiruna (Caesalpinia peltophoroides), que, pontualmente, chegou a BH com a Primavera.

Pois é. As flores das quaresmeiras chegaram primeiro, sempre chegam, com todos os tons da Paixão; em março, abril, é a vez do rosa clarinho das gordas paineiras, que tanto alegram os periquitos e outros psitacídeos que se mudaram para BH por causa dos incêndios e queimadas que lhes devastam sistematicamente o habitat. Em julho vêm as deslumbrantes inflorescências dos ipês roxos para assumir seu protagonismo incontrastável nas ruas, avenidas, praças e parque da cidade. Isso por umas quantas semanas, quando, então, saem da paisagem para dar vez à dourada explosão dos ipês amarelos, logo substituída pela passagem fugaz dos ipês brancos, grinalda digna para as bodas de qualquer Vênus de Botticelli.


Agora, são as douradas panículas da sibipiruna que enfeitam a cidade e alegram o coração. Elas decrescem da base para o ápice, criando graciosas formas piramidais que oferecem delicada sugestão de lanternas chinesas. Os folíolos minúsculos e as pequenas pétalas se desprendem e forram o chão, mesmo que  seja pavimentado e hostil, com seus matizes generosos. O Sol da Primavera na manhã tranquila  se deixa filtrar pelas copas espessas  e chega com suavidade ao leito da avenida, para espevitar o grato fulgor  da insólita tapeçaria. (nm)


Chope com o Rei no Gujoreba


A gente sai tirando umas fotos pela Savassi, em BH, e depois resolve flanar um pouco pelas ruas sem tráfego, onde sempre é possível encontrar conhecidos dispostos a alguma conversa fiada. Na quadra fechada da Rua Antônio de Albuquerque, nenhum conhecido no Café Três Corações, nas mesas ao ar livre do Gujoreba, ninguém. Do lado de dentro, porém, uma surpresa, àquela hora quase matutina, cerca das onze: dois amigos, Saba Mansur e Cláudio Antuña entregando-se ao alegre fruir do primeiro chope do dia. O que fazer? É chegar logo e incorporar-se, embora a primeira ideia fosse apenas a desfrutar o excelente café do lugar. Mas esse plano falhou rápido, com a chegada do Reinaldo José de Lima, que sentou-se à mesa e, depressa, Ivan, o “maitre”, trouxe-lhe uma água de coco, que bebeu devagar, depois o chope.

Por aqui todo mundo sabe que Reinaldo é o mítico centroavante do Clube Atlético Mineiro,  o melhor artilheiro de todos os tempos, que exerceu os misteres do futebol muito mais no nível de artista que de atleta e encantou até as pedras dos estádios. O blogueiro já tinha conversado duas ou três vezes com o “Rei”, que é como a apaixonada a torcida do Galo ainda o reverencia, mas não no clima de uma mesa de bar, de bar tranquilo e acolhedor da Savassi, o Gujoreba, no caso. Foi um tremendo happening, conversa boa, amena. Até sobre futebol a gente conversou.

O blogueiro pediu licença ao craque para uma foto. O Rei aquiesceu alegre e gentilmente e ergueu a mão direita, o punho fechado, no mesmo gesto alusivo ao movimento dos “Panteras Negras” com que celebrou cada um de seus gols inesquecíveis pelos estádios da vida, o gesto que as arquibancadas, em transe frenético,  replicavam com fervor republicano.


Reinaldo era só um garoto, mas aquela basta cabeleira “Black Power” e aquele punho erguido a cada gol, e eram muitos gols, irritavam demais os poderosos do Brasil. Isso também era muito bom. Bravo, Rei! (nm)

(Correção: O Gujoreba fica na Antônio de Albuquerque, e não na Fernandes Tourinho, como constou na mensagem aos leitores de O&B) 

domingo, 30 de julho de 2017

Florada de ipês, festa e esperança pra todos nós



BH está vestida para festa, com todas as cores e galas dos ipês. A florada deste ano chegou simplesmente deslumbrante, repetindo, talvez, o grande jubileu vegetal celebrado na cidade por essas árvores inacreditáveis em 2011, quando cometeram todos os excessos de magnificência. Todos os tons do rosa clarinho ao lilás estão em nossas ruas, praças, parques, cemitérios, quintais e onde mais. Ipês, ipês por toda parte, que bom!

É claro que, no reino das entidades verdes, essas ocorrências essenciais estão subordinadas a condições de ordem meteorológicas, como a variação de temperatura e da umidade relativa do ar, sei lá. Mas a gente pode acreditar em magia pra explicar  a orquestração da florada dos ipês que, de algum modo, concertam isso de nos brindar, todos na mesma noite,  com o esplendor de suas inflorescências. Mas, também, explicar pra quê?

O ipê da foto, achou de florir no canteiro central da Avenida Getúlio Vargas, de onde irradia em muitas direções seus mais brilhantes eflúvios de sua fantasia vegetal. As magnólias do fundo ostentam o verdor do vestido de baile da Scarlett O`Hara. Dá até pra gente pensar se a árvore não guarda atavismos dos tempos do Jardim do Edem que, de vez em quando, permite que se manifestem para refrescar a memória dos homens, numa quadra triste como esta, de miséria e indigência por todo lado, sem perspectivas de alívio, refresco nenhum, sem esperança.

Milhares de zumbis perambulando pelas ruas e dormindo nelas faça chuva ou faça sol, ou na friagem açoitante deste nosso inverno que, de repente, resolveu mostrar seus rigores. Comem e bebem o que lhes oferece as ruas e, claro, aceitam sem reservas o consolo alucinógeno e letal das pedras de sonho. Uma merda! E, no entanto, vêm os ipês com uma florada dessas. Gente, ainda dá pra acreditar. (NM)

Um pé de maracujá alienígena

Pra quem não é de BH, explico que a Savassi é a área mais charmosa da cidade, muito comércio, galerias, shoppings, restaurantes  e, sobretudo, muitos bares. Nesse espaço especial de uma cidade especial, eles são tantos que até podemos parafrasear em nosso próprio proveito aquela assertiva madrilenha de que “hay mas bares en la calle Atocha de Madrid, que en todo el reino de Dinamarca”. Nunca fui de sair contando bares escandinavos, mas os nossos estão aqui, pra quem quiser contar.

Da perspectiva do bar, de qualquer bar, da “calle Atocha” ou da Dinamarca, mas estamos na Savassi e, é igual, não deixa de ser intrigante a prosaica presença de um pé de maracujá na Rua Antônio de Albuquerque, entre Levindo Lopes e Sergipe. O mais provável é que alguém comeu um maracujá e lançou a cuia vazia ao pé de uma árvore do passeio e, por acaso, uma semente foi junto. A semente germinou,  a rama galgou a árvore com suas tenazes gavinhas, alcançou a fiação telefônica, a rede elétrica, e não para de se expandir em todas as direções, deitando um imenso caramanchão.

Isso, porém, não passaria de especulação, considerando-se a hipótese, das mais plausíveis, do maracujá alienígena, que apenas inicia uma invasão, que só terminará quando a ramagem exuberante vinda do espaço sideral estender-se por toda a rede de cabos elétricos da cidade, alcançando os edifícios, públicos ou não – imagine o que será de tantos palácios da justiça? – até cobrir nossa BH tão amada, idolatrada, salve, salve!

E, no entanto, o pé de maracujá da Rua Antônio de Albuquerque achou de dar frutos, lindos e suculentos maracujás, isso depois de exibir sem qualquer pudor aquelas flores da cor da paixão, roxas, roxas. O primeiro que ocorre em quem vê aqueles frutos, é um bom e refrescante suco, mas é bom lembrar que o pé de maracujá pode ter seus próprios desígnios: esconder BH sob um imenso caramanchão protetor, ou transformar em suco sua população ingrata e descuidada.  (NM)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Breve discurso em louvor à conversa fiada

Conversa fiada depende das disponibilidades de tempo e presença em locais onde se possa contar uma história, uma anedota, à toa, descansadamente, admitindo, claro, a participação de algum apressado que chega, conta ou ouve qualquer banalidade e vai embora. Pode começar pela mais prosaica das indagações meteorológicas: Será que hoje chove? Mas também de qualquer outro jeito. Se vai acabar, e onde, é outra questão, porque flui em círculos e raramente é conclusiva. Nos parlamentos, concílios, conclaves, congressos, seminários e que tais também é assim, mas qualquer comparação para por aí, por lhes faltar o ócio genuíno e desinteressado.

 A essência do conversar fiado é a gratuidade, que permite a agregação de contribuições a uma anedota ou a uma história qualquer, de papagaio, pescador, de padre, de garimpeiros, caçadores, pícaros, valentões, e histórias de amor e sedução...  Essas histórias, às vezes, transbordam das comunidades em que foram engendradas e, em alguns casos, o continuo processo de aprimoramento as eleva à dignidade de patrimônio de toda a Humanidade. Jorge Luís Borges atribui aos “mentideros” do Oriente, cujo cerne é a conversa fiada sem meias nem peias, boa parte da gestação do Livro das Mil e Uma Noites, livro de todos nós. Fora isso, numa boa conversa fiada ninguém ganha nada, mas, também, não perde.

Afã de companhia, espairecimento ou diversão, lazer, sei lá! O prazer ancestral de  conversar fiado é um modo universal de convivência, por metonímia, a própria convivência, cujas origens perdem-se no tempo em que grandes primatas começavam a articular as primeiras palavras na recôndita escuridão das cavernas. E vem, desde então, renovando-se, adaptando-se a peculiaridades geográficas, de clima, ambiente, cultura. Nômades dos desertos do mundo, pastores das estepes ou das montanhas, caçadores, pescadores  polinésios e baianos cultuaram, sempre, a conversa fiada, em volta de uma fogueira, na praia, à sombra de uma grande castanheira num pequeno passeio, ou de um pé de jatobá antigo, numa praça antiga... É conversar, contar e ouvir histórias, rirem juntos, ou até chorar, a instâncias de um relato comovente de peripécias que a condição humana imponha. Mulheres reunidas junto à fonte, enquanto esperam a vez de encher seus cântaros, conversam, conversam. Na beira do rio, as que lavam roupa, se não estão cantando, também conversam... As coisas mudam, mas nem tanto. Se a chuva não passa, e enquanto a Peste não vai embora, como nos tempos de Boccaccio, o jeito é contar história.

Mas, e o botequim?

Em esquinas e praças de cidades grandes e pequenas, em velórios, vendas de secos e molhados, portas de igreja, feiras, mercados, salões de beleza e de barbeiro, salões de sinuca, pontos de táxi, bordéis, é a conversa fiada que nutre a convivência. Admitamos, porém, que a catedral onde se celebram seus grandes e pequenos mistérios, gozosos e gloriosos, uns, outros nem tanto, é mesmo o botequim, onde tudo reverbera: Saúde!  (NM)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Paráfrases






No livro Estas muitas Minas, Angela Leite de Souza, entre muitas surpresas, oferece a paráfrase delicada e sutil:

Se eu me chamasse
Raimundo, o mundo
seria meu eco?




Só pelo prazer de repetir a mais conhecida e repetida estância do “Poema de Sete Faces”, de Carlos Drummond de Andrade:

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Amado Nervo e Alfredo Le Pera

El dia que me quieras,  gala da poesia de Amado Nervo, o grande poeta mexicano, chegou a todos os quadrantes da Terra e, provavelmente, ter-se-á expandido até os confins da Via Láctea na paráfrase de Alfredo Le Pera, que Carlos Gardel musicou e cantou como só ele poderia ter cantado. A “frase” de Amado Nervo:

El día que me quieras tendrá más luz que junio;
la noche que me quieras será de plenilunio,
con notas de Beethoven vibrando en cada rayo
sus inefables cosas,
y habrá juntas más rosas
que en todo el mes de mayo. 
Las fuentes cristalinas
irán por las laderas
saltando cristalinas
el día que me quieras. 
 (...)
Cogidas de la mano cual rubias hermanitas,
luciendo golas cándidas, irán las margaritas
por montes y praderas,
delante de tus pasos, el día que me quieras...
Y si deshojas una, te dirá su inocente
postrer pétalo blanco: ¡Apasionadamente!

Al reventar el alba del día que me quieras,
tendrán todos los tréboles cuatro hojas agoreras,
y en el estanque, nido de gérmenes ignotos,
florecerán las místicas corolas de los lotos.
El día que me quieras será cada celaje
ala maravillosa; cada arrebol, miraje
de "Las Mil y una Noches"; cada brisa un cantar,
cada árbol una lira, cada monte un altar.
El día que me quieras, para nosotros dos
cabrá en un solo beso la beatitud de Dios.

A paráfrase de Le Pera que, em 1935, Gardel transformou na canção que emociona até hoje e que, em seu momento, foi tema de filme homônimo:

Acaricia mi ensueño
el suave murmullo
de tu suspirar.
Cómo ríe la vida
si tus ojos negros
me quieren mirar.
Y si es mío el amparo
de tu risa leve
que es como un cantar,
ella aquieta mi herida,
todo todo se olvida.
El día que me quieras, la rosa que engalana
se vestirá de fiesta, con su mejor color.
Y al viento las campanas, dirán que ya eres mía,
y locas las fontanas, se contarán su amor.
(...)
La noche que me quieras, desde el azul del cielo,
las estrellas celosas, nos mirarán pasar.
Y un rayo misterioso, hará nido en tu pelo.
Luciérnaga curiosa que verás, que eres mi consuelo.

Interativa

A “frase”, uns versos de Antonio Machado, é assim: Españolito que vienes al mundo // te guarde Diós. // Una de las dos Españas // ha de helarte el corazón.

A paráfrase pode ser a gosto de cada leitor deste blogue ocioso, pela  simples substituição do nome do país, com o respectivo patronímico. Por exemplo: Liechstensteinianinho que vens ao mundo, / que Deus te guarde. // Um dos dois Liechtensteins há de gelar-te o coração. (NM)

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

“iQuevachaché!” e outros fragmentos ociosos

Palavra é ente animado, vivo, sujeito a peripécias da existência, levando, cada uma, sua fração da alma humana. Por muitos modos e processos, as palavras modificam-se, no tempo e no espaço, se desgastam, exaurem-se, mas também se revigoram e renascem transformadas e cheias de vida. Aqui, por apócope, suprime-se um fonema ou uma sílaba inteira no final de uma palavra; ali, a supressão ocorre no interior dela. Síncopes, aféreses, reduções, abreviações e, sempre, o toque mágico dos poetas.

A locução “iQuevachaché!” titulo de composição de Enrique Santos Discépolo, 1928, é voz infantil, corresponde a  “iQue vas a hacer!” Com alguma liberdade, a gente pode traduzir por “O que é que tu vais fazer, meu irmão!” Os “gorilas” argentinos não gostaram e, com o mau humor habitual, proibiram de tocá-la no rádio: “...iQuevachaché! Hoy ya murió el critério... // Vale Jesús lo mismo que el ladrón.“ É antecipação de “Cambalache”, em que, mais tarde, quando ninguém nem suspeitava que Trumpp, um dia, ia virar presidente, o poeta tangueiro proclamou “Que el mundo fué y será una porqueria” etc. Enquanto ventos bons não dissiparam da Pampa aquelas brumas negras, a canção também ficou proibida.

Tratamento respeitoso, até solene, primordialmente, o pronome “vossa mercê” reduziu-se, ”, pelo tempo e pelo uso,  a “vossemecê”, “vosmecê”, “você”, “ocê” e a mais não sei quantas formas, até chegar a “cê”, que parece seu último estágio, fração essencial que oferece novos tons,  ritmos novos.  Ainda mal acordado, o sujeito surpreendeu a mulher escapando-se para o frio da madrugada, provavelmente, pelo modo como a interpelou, em algum lugar ignoto, da ignota Minas Gerais:  – Oncevai, Maúde?
Estupefata, como se saísse de um transe sonambúlico, a mesma economia de palavras: – Dió, do céu! Oncotô?
Maria de Lourdes e Diocleciano voltaram para a cama. Do outro lado da rua, Chico da Maria Ritinha, depois de esperar por mais de uma hora, – Que fazer? – também foi dormir.

Tropo onomatopaico, “gago” está consignado no Aurélio como o que gagueja; balbo ou aquele que gagueja; quiquiqui, linguinha, borboró, tartamudo, inhenho, tartamelo, tártaro, tato, tátaro, que ou quem fala trocando o c por t; tatibitate, tatamba.  Se a criança ainda não domina a fala, o tatibitatear tem sua graça, que sobrevive em uma ou outra forma na linguagem coloquial, mais pela cumplicidade da mãe, que propende a aceitar quaisquer distorções perpetradas pelos filhos. Não só as encampa como, ela própria, inova e inventa para facilitar-lhes a compreensão. E eis que ritmos suaves e benignos da linguagem materna ganham os léxicos do mundo – Que bom! Pra começar, aquelas reduções carinhosas dos nomes, os hipocorísticos, Lola por Dolores, Teca por Teresa, Bia por Beatriz, e Zezé, Tião, Chico e Chiquita, de repente bacana lá da Martinica.

Talvez pelo fato de namorar o “Cebolinha”, cujos cabelos espetados lembravam o das tirinhas do jornal e que, como o Hortelino Troca-Letras, dos quadrinhos do Pernalonga, não se avia bem com os “rr” , Zélia, uma alegre japonesinha, divertia-se em sua  república, na Rua General Osório, em Ribeirão Preto, perguntando a algum distraído:  “– Utêté um fuinho?”. Ela mesma respondia, achando a maior graça: “– É um bulatinho na palede.” 

Armado num pequeno descampado, o circo agitava cidadezinha encravada em primordial bacia vulcânica. De suas bordas erigidas em montanha, a gente podia olhá-la lá embaixo como a um pequeno presépio e, visto assim, o circo, modesto, era só mais um detalhe, mas tinha palhaço, ou melhor, dois palhaços, um grande e, de contraponto, um pequeno, na vida real uma menina, filha do palhaço grande. Descaracterizado, às vezes entrava no picadeiro o dono do circo, para servir-lhes de “escada” em uma ou outra gague. Era tudo muito ingênuo e alegre. Numa sessão vespertina, o palhaço grande iniciou um diálogo com o pequeno:

– Teteté?
– Tatetitô.
– Titô?
– Tatetô.

Entrou o “escada”, esbravejando: – Que conversa é essa? A gente pode saber o que é que vocês estão dizendo?
Os palhaços levaram os polegares à altura das orelhas e agitaram as palmas abertas das mãos. – Você não entende nada mesmo, seu burro.

Um garoto saiu da plateia em seu socorro, cara de tédio de quem estivesse explicando a maior obviedade do mundo:

– O quê é que você quer?
– Papel de cor.
– Que cor?
– Qualquer cor.

E, fora do script, disparou: – Entendeu? Seu burro!!!

As crianças riram muito. Os adultos, também.

Agora, o seguinte: irritava tanto um cara, a cara infantilizada da namorada insistindo a toda hora em chamá-lo de “momô!” que, de saco cheio, ele foi embora e nunca mais voltou. –  “Momô” é a puta que pariu! foi só o que teria dito.

Às vezes o tatibitate vem com cores da senzala, como na velha canção, e é puro encanto:

“Eu vou fazer um casaquinho
De tricô pro meu amor.
– Di que cô qué, ai Ioiô?
– Di caqué cô.”

O rádio já não traz, às 19h, depois dos primeiros acordes de “O Guarany”, na voz inconfundível, a conclamação: “Trabalhadores do Brasillll!”.
– `peraí, mas isso não tá "inserido no contexto".

 – Pode ser que não, mas também pode ser que sim, meu irmão, porque saúva não acabou não, e o Brasil, o Brasil, ah, o Brasil... “iQuevachaché!”  (NM)

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Inverno em BH: céu de topázio claro, favas contadas no Mercado Central



O Mercado Central é perfumado e colorido, vivo e, com estilo, oferece em BH o mais alegre, o mais saboroso, deste Planeta misterioso chamado Minas Gerais. Em escala superlativa, é como a famosa “venda” que o calango de Miltinho Edilberto proclama, lá do Jequitinhonha: “Na venda do seu Lidirico // tem de tudo e cada coisa que tem eu explico”. Flagrante, aí, ainda assim legítima, a licença do cantador, porque explicar é desvendar o nome e a imagem que lhe corresponde, o seu espelho e metáfora, revelação e afirmação da existência.

Tem canário, periquito, gaiolas de fino lavor, tem alpiste, tem painço, tenebrium para as ninhadas, tem porquinho da Índia e coelho,  e filhote de cachorro; tem pombas, faisões, galos tristes, marrecos de muitas cores, patos fanhos, e gansos de aflito grasnar. Peixinhos coloridos para o aquário do menino; para a moqueca, limpos, repartidos em postas, robalos, surubis, badejos, crustáceos frescos de excelente parecer, e as ervas requeridas, salsa, cebolinha, loro, coentro, cominho, e alho, cebola, pimenta comari e malagueta, tomate madurinho, e açafrão, só pra dar o tom.

Flores? De todas as cores, vermelhas para a namorada, rosas rosa para a companheira da vida inteira, pra mulher solteira e pra mulher casada, flores para o casamento e para o aniversário do casamento, para o batizado e também pra outros que tais, mas, aí, melhor é bater na madeira com o nódulo do indicador e nem pensar. Primor de frutas no Mercado: laranja, manga, abacaxi descascado, uvas, maçãs, peras, jacas, araticuns, frutas do conde, amoras e carambolas, e pequis do mais rico olor, basta um pra perfumar a estação, mexericas, lima e limão, morango, melancia e melão, pêssego, caqui, lichia, e muita fruta esquisita. É claro que tem abacate, tem banana e mamão, e “papaia”, que seria a mesma coisa, não em Cuba, onde remete a outros sabores.

No grande Mercado, meu irmão, tem as ervas, cascas, raízes e sementes da nossa panaceia vegetal: “pra rins, próstata e coração”, as folhas da cavalinha; azeitona do mato, unha de vaca, cipó caboclo, embaúba branca e chapéu de couro para depuração e diurese, buchinha contra asma e sífilis; tem raiz de graviola, tem jalapa; pra curar quebranto e rebater mau olhado, rosmaninho (ou alecrim) e semente de sicupira pra quebrantar o azougue da cachaça. Se não te avéns com os viagras, “pra natureza, é um colosso”.

Tem peneira e tem penico, e tem fieira e pião, bolinhas de gude, papagaio com carretilha, pronto pra empinar, tem frigideira, tem bule, e panela de ferro, de pedra, de barro, querosene para a lamparina, camisinha para o lampião; tem balaio e cesto de tudo que é jeito, rede pra dormir e pra namorar, e moinho, almofariz, pilão, farinha de milho e de mandioca, pro tropeiro, pra farofa e pra paçoca, pra tutu e pra tapioca, e tem caniço e apito, nisso igual à venda do seu Lidirico. Tem carne de sol, tem anzol, sanfona, e viola-também-tem. Pagode, é. Tem pagode! E tem moda pra gente escutar: “Nasci lá na cidade e me casei na Serra // com a Mariana, moça lá de fora;// Eu estranhei os carinhos dela // e disse adeus Mariana, que eu já vou embora...” 

E artigos de preceito para o despacho ao santo de cada um, defumadores, velas, incensos, estatuinhas para o peji, “Eparrei, Iansã!”, “Axé opô ajonjá, Xangô!”, “Laroiê, Exu!”, “Saravá, Oxalá, meu pai!” “Saravá a todos os Orixás!... E imagens de qualquer santo de tua devoção, tem São Pedro, Santo Expedito, São Francisco e São Benedito, Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia, tem Santa Rita e São João, São José, São Sebastião...  Agora o seguinte: Santo Onofre, São Xisto e São Calisto, se tem lá, eu nunca vi.

Queijos, tem pra todo gosto, curado, de meia cura e fresco, do Serro, da Serra do Salitre e da Canastra, e doce de leite, goiabada, requeijão moreno de Montes Claros, doce de figo e,  feito em reclame de circo, tem marmelada? Tem, sim senhor. E tem frutas em calda e cristalizadas, abacaxi, figo, cidra e laranja, limão... Também, biscoitinhos delicados, brevidades, quebra-quebras, sequilhos e amanteigados , uhmm! quitandas de Minas, sa`com´é.

E aqueles bifes acebolados, que a gente come em pé, encostada nos balcões das bitacas, hem? Tem de alcatra e de fígado e, pra quem goste, jiló frito, chouriço, bife de pernil, de lombo, e cachaça de Salinas, que também pode ser de Januária ou de outras águas, sem desdouro, sempre a melhor guia pra cerveja tão gelada!

E tem batatinha, daquela que, “quando nasce, se esparrama pelo chão”, pra chegar “palha” com o “strogonoff” ou, também, muito “sotée”; e batata doce e baroa, cenoura e beterraba, além de outros tubérculos e raízes que enriquecem o cozido: mandioca, araruta, gengibre, inhame, nabo, cará...  As verduras: pés de alface, dentes de alho, cabeças de cebola, corações de alcachofra, catacreses de muito sabor; e couve, couve  flor, repolho, rabanete, brócolis, mostarda, almeirão, agrião, espinafre, ora pro nobis, munheca de samambaia, hortelã, palmito, chicória, taioba, aipo, berinjela, pepino, abóbora e moranga, jiló, maxixe, quiabo, tomate, salsa e cebolinha de cheiro, sálvia, alfavaca, manjericão. E tem cravo e canela, tudo quanto é tipo de pimenta e muito mais.

O inverno chegou devagar, mas o tempo, enfim, esfriou, o que fica bem consignado no céu de topázio claro das manhãs de BH, e também no Mercado, é claro. Nas bancas de leguminosas de prestígio, feijão, ervilha, grão-de-bico, hás de encontrar nesta época, também umas favas muito ricas . Depois é ires às que vendem pertences de feijoada, linguiças, chouriços, paios e outros embutidos, e carne de porco defumada, costelinhas, lombo... E já podes improvisar em nossas latitudes tropicais uma “fabada” que não será asturiana, mas digna poderá ser. A receita? Aí vai:

Les fabes (*)

Tres cuartos de kilogramo
De alubias de La Granja
O, simplemente, de fabes;
Unas morcillas de cerdo,
Chorizos, tres, pero buenos,
               
Medio kilo de lacón,
Tocino, un ciento de gramos;
Y la cebolla, que alegra
La mesa del pobre, y cualquiera,
También se va a la cazuela,
Pero de visita, no más,
Como el perejil: las dos
Se irán a media cocción,
Dejándoles los inciensos
De sus almas vegetales,
Como un regalo a les fabes.

Un chorro de aceite virgen
Les buscará los olores
Y los sabores más hondos.
Ajitos harán más ricas
Les fabes  y lo demás;
Y el misterioso azafrán
Tostado ligeramente
Les dará colores mágicos
De viejo oro cantábrico.

Mas la simple añadidura
De ingredientes de precepto
No consigue una fabada:
Hay liturgias hieráticas
Y protocolos formales,
Conjuros muy ancestrales,
Para que sea realizable.

Refiérense a lo del fuego,
Al hervor y al remojar;
Disponen sobre criterios
Y el orden de sazonar;
Sobre el tiempo en la cazuela,
Y el modo de sacudirla,
Y a los pequeños rituales
Que propician a les fabes
Y ablándanles el espíritu.

Quizás la repetición
De unas antiguas palabras
Que se hubieran pronunciado
Bajo la sombra de un tejo
O un añoso carbayón,
Viejas palabras insólitas,
Para oídos iniciados.
Y si los procedimientos
Se van de conformidad
Con el misal de les fabes,
El de ponerles a la mesa
Es un glorioso momento.

(*) Para um “luso-hablante” é sempre complicado encarar o Idioma de Cervantes, mesmo num texto elementar e banal como esta receita de favada, escrita num contexto que só se salva pelo conteúdo afetivo, o do “Romance de estereotipos asturianos com fabes”, de 1999, publicado em “Ibero-Americanidades – Açucenas para Sevilha” – Edições C.L.A. – 2008. A solução, então, foi recorrer à minha amiga Maria Luisa Laviana, historiadora e escritora. Ela livrou o texto original de vícios de sintaxe, solecismos, lusitanismos, e falsos cognatos, o que permitiu compartilhá-lo sem constrangimentos. Ela é andaluza de Sevilha, mas, de pais e avós asturianos, pôde outorgar com plena autoridade foros de genuínos e esses “fabes”. Obrigado. 

NM

sábado, 25 de junho de 2016

É bom lembrar Carlos Alberto e Jader

Chegou a O&B mensagem do Carlinhos Barros Santos que alegrou o coração do blogueiro, pelas lembranças boas que trouxe. Pra quem não sabe, ele é filho do saudoso Prof. Carlos Alberto de Barros Santos, que enriqueceu o blogue com generosa e qualificada colaboração, enquanto esteve entre nós. Carlinhos diz que não conhecia a palavra “mentideiro”, palavra velha e um tanto fora de uso, que aparece na última postagem. Disse que gostou demais dela, antes de observar que “um grande mentideiro deve ter sido o Bar do Primo, nos áureos tempos, quando frequentado pelo meu pai e sua turma de amigos”. Claro, e o do Tip Top. Todos apreciávamos o chope e a conversa.
                                   
E acrescenta: “Tenho sempre lido "O&B” e fico sempre com a impressão, e já lhe disse isso de outra feita, que sinto estar conversando com o papai quando leio as suas crônicas, tamanha a similaridade nos assuntos e no modo da escrita.” Em suas incursões pelo blogue, Carlinhos deixou-se encantar por Geir Campos: “O poema Alba: Não faz mal que amanheça devagar é estupendo! E depois andei pesquisando mais textos dele, gostei muito.”

O Geir continua sendo um momento de esplendor da Poesia em Língua Portuguesa, mas, aí, o inevitável: Carlinhos revela que, em outros passeios por O&B voltou a ler a crônica sobre o Cuartito Azul, o tango de Mariano Mores, recém falecido, e Mário Battistella: “O papai adorava essa canção, apesar de ser uma das suas piores interpretações musicais! Mas sempre insistia, e voltava nela nas tertúlias dominicais. Quando juntava com o Jader de Oliveira, piorava bastante, era doído para os ouvintes. E ainda vinha, na sequência, Corrientes, três, cuatro, ocho...”

Carlinhos Barros Santos acrescentou à sua mensagem duas fotos de seu pai , Carlos Alberto,  com o também saudoso jornalista Jader de Oliveira, que vivia em Londres, numa de suas vindas de final de ano a BH para refazer o espírito: tarde de feijoada, muita conversa e tangos.

Ele deixou um p.s.: Vou lhe enviar, na semana que vem, um poema que achei noutro dia, chamado "Canção da Morte na Tarde". Creio que não o conhece.

 E não conheço mesmo, Carlinhos, muito obrigado.

NM

Hoje posto o poema, que acabou de chegar:

CANÇÃO DA MORTE NA TARDE

Carlos Alberto de Barros Santos

Cai lentamente o sol crepuscular,
E lentamente vão as nuvens se afastando
Num prenúncio de chegada do luar.
O sol crestou impiedosamente a paisagem,
Mas veio o crepúsculo e, como u’a benção,
Pousou serenamente sobre a paragem,
O tapete de relva das montanhas,
Os grotões da serra.
E estendeu-se em sombra e calma
Sobre a geometria das ruas e dos prédios.
A claridade já não arde em brasa,
Um vento gentil envolve a minha carne.
A tarde morre em ouro e sangue.

Bilac rogou para não morrer assim,
Num dia assim! De um sol assim!
Também a mim,
No fundo oceano
Da minha mortalidade,
Fere como açoite a claridade.
Por isso mesmo vos peço,
Ó vos que me amparais:
Não me deixeis partir,
Eu vos imploro!
Não deixeis esvair o que sou agora,
Ou o que resta do que fui outrora,
Ó, não me deixeis findar,
Antes que desça a noite,
Antes que a noite venha
Para me levar.


Novembro de 2.000